O montanhismo, uma janela para o meu câncer

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Muitos de vocês já sabem que estou com um tipo raro de câncer na perna direita, que tem inibido meus movimentos. Várias pessoas amigas tem se mobilizado para me ajudar, inclusive financeiramente, pois os custos do tratamento são bem altos. Eu tenho sido apresentado como um pioneiro, um dos principais montanhistas brasileiros, ou mesmo pertencente a uma geração que modernizou a escalada em rocha, tendo introduzido novos conceitos no mundo do montanhismo.

Escrevo este artigo como uma forma de agradecimento a todas vocês e também como uma maneira de debater porque estes novos conceitos sempre foram tão importantes para mim e me ajudaram a me definir no mundo do montanhismo e, quem sabe, a definir um novo modo de montanhismo que começou a acontecer no Brasil a partir dos anos 1980.
 
Comecei a escalar em 1979 em Curitiba. As opções para quem queria fazer montanhismo eram totalmente limitadas. Só existia um pequeno clube que se reunia em uma garagem semanalmente. Mesmo assim a gente não escapava do clima opressivo do país. Lembro que em algumas reuniões aparecia um estranho personagem, cheio de equipamentos que ficava só observando as intermináveis discussões em torno de quem deveria chefiar o clube. Tempos depois descobrimos que era um militar que observava se as discussões tinham algum cunho ideológico, ou seja, se ali era uma escola de formação de montanhistas ou de guerrilheiros para atuar na Serra do Mar.
 
Nosso estranho personagem deve ter chegado a mesma conclusão que eu, que as discussões eram vazias, meras disputas de ego em torno da sensação de poder de ser o chefe incontestável de alguma coisa, mesmo que fosse de um clube de montanhismo com meia dúzia de gatos pingados. Afora esta sensação de opressão e de vazio, tínhamos ainda um fantasma pairando sobre nós: uma espécie de normas não escritas sobre o que podíamos ou não fazer e, pior ainda escalar nas montanhas, pois “não estávamos preparados para escaladas difíceis”, era uma espécie de código moral herdado da geração anterior, a “geração alemã”, que tinha aberto as primeiras vias em escalada no Paraná, algumas delas tabus.
 
Depois de algum tempo acabei cansando desta coisa toda. Como a sensação de liberdade que eu experimentava nas montanhas não combinava com o grupo que eu convivia, acabei me tornando um escalador solitário, ou seja, totalmente antiético segundo as normas das gerações anteriores. Para não me sentir desamparado totalmente apelei para a filosofia. Minhas decisões na montanha tinham suporte no pensamento de Henry Thoreau, que escreveu um livro que praticamente é um slogan: “Desobediência Civil”. Neste livro ele prega a ideia de que os indivíduos devem ser autônomos, ou seja, devem criar suas próprias normas e não serem submetidos a normas criadas pelo Estado ou por instituições alheias ao pensamento dele. Para isto o indivíduo deve ter livre arbítrio e auto crítica apurada. 
 
Além disso, na concepção de Thoreau, os recantos mais selvagens eram os mais livres, o que traduzido para o que eu queria do montanhismo, significava que eu deveria buscar os lugares mais remotos da Serra do Mar se queria ser autêntico no que eu fazia.
 
Nesta época, fins dos anos 80 e início dos anos 90, estava em voga no Rio de Janeiro a concepção da escalada de mínimo impacto. Beneficiada pelo ingresso maciço de novos materiais de escalada importados (calçados, materiais móveis) a nossa geração teve a oportunidade de abrir novas vias de escalada com o mínimo de peças fixas nas paredes e com grau de dificuldade crescente.
 
Mesmo assim o que eu queria era algo como impacto zero. Nenhuma trilha para acessar as paredes. Nenhum grampo para proteger a escalada. Aventura pura. 
 
Neste ponto eu talvez possa ser então indicado como um pioneiro, alguém que modernizou a escalada em rocha, tendo introduzido novos conceitos no mundo do montanhismo, pois estas escaladas de aventura que fiz com alguns companheiros com esta concepção de impacto zero realmente são impecáveis e representarão um eterno desafio para quem quiser repeti-las. Quem tiver curiosidade pode dar uma lida no texto que publiquei no meu blog sobre estas vias (https://blogdodubois.wordpress.com/2014/11/01/memorias-de-35-anos-de-montanhismo-a-serra-do-mar-e-a-escalada-de-aventura/).  
 
Do mesmo modo posso considerar como “inovadora”, por assim dizer, a desconhecida Sonata ao Luar, cuja estória relatei também no meu blog pessoal (https://blogdodubois.wordpress.com/2009/04/24/sonata-ao-luar/). Foi uma  via que abri em solo no pico Tucum, uma bela e remota montanha da Serra do Mar paranaense, via esta com que encerrei minha carreira de escalador solo, por ter chegado a conclusão de que buscar algo mais difícil que isto para solar significa suicídio, algo de que não preciso agora. Mas, na prática, representou um auge deste tipo de escalada de aventura para mim.
 
A escalada, para mim, representa uma forma de transformar o mundo das ideias (ou seja, esta minha tradução da filosofia de Thoreau), no mundo das coisas, ou seja, vias bonitas em lugares bonitos. Isto sustenta minha luta atual contra o câncer. Se isto tem valor para vocês fico feliz.
 
Em um outro artigo gostaria de contar como esta filosofia anarquista liberal e altamente individualista conseguiu, mesmo assim, produzir alguns projetos ambientais coletivos que mudaram a Serra do Mar e deram origem a programas como o Adote uma Montanha.
 
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Sobre o autor

Edson Struminski (in memorian) - Colunista

Edson Struminski escala desde 1979 e é um dos maiores conquistadores de vias de escalada do Brasil. Ele é formado em Eng. Florestal UFPR - 1990 Mestre em Conservação da Natureza UFPR - 1996 Doutor em Meio Ambiente e Desenvolvimento - 2006 Sua formação o ajudou a contribuir bastante com o debate e ações que visa a conservação do meio ambiente.

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