O morro do Mombaça e a mina do ouro

0

Situada às margens da Rod. Castello Branco (BR-374) e conhecida como “O Portal do Interior”, a pacata Araçariguama nasceu devido ao ouro encontrado pelos bandeirantes em 1590 e que foi extraído até o governo Getúlio Vargas. Atualmente, esta simpática cidade a apenas 60km de Sampa atrai outro tipo de desbravadores nos finais de semana. São pessoas que como eu estão atrás dos atrativos naturebas remanescentes daquela época extrativista. Atrativos sussas e de fácil acesso como os quase 900 metros do Morro do Mombaça e o pitoresco Parque Mina do Ouro, que são apenas alguns dos breves programas nesta cidade cujo nome significa “lugar onde abundam ‘araçaris’”, em tupi.

Após rasgar o asfalto da rodovia Castello Branco (BR-374) e atravessar toda Barueri, chegamos em Araçariguama pouco antes das 9:30hs. O domingo mostrava-se bem mais amistoso q nas semanas anteriores, envolto naquela nebulosidade clara e abafada típica de final de primavera. No veiculo eu, a Carol e a espoleta Chiara olhávamos a simpática cidade a nosso redor, quase as margens tanto do asfalto como do espigão oeste da Serra do Voturuna. No entanto, por estar em pose das infos falei pra motorista prosseguir pela rodovia por mais 5km pro nosso primeiro rolê, o Morro do Mombaça, q já se avistava de longe a beira do asfalto. O acesso oficial ao morro se dá por uma estrada de chão q nasce do Distrito Industrial, ao norte do trevo do km 54 da rodovia, mas eu sabia de outro acesso bem mais próximo e bonito cenicamente, quase no sopé do morro. Era pra lá q nos íamos.
Pois bem, após o supracitado trevo fomos de encontro ao primeiro posto de gasolina ao sopé do morro, onde estacionamos o veiculo, tomamos um pingado, mastigamos um salgado e descolamos água pro rolê. Do posto tocamos por um terreno descampado q serve de estacionamento improvisado, passa por uma casa e ali é facilmente percebida uma precária estrada q adentra na mata. A cachorrada estridente da ultima casa pode causar algum incomodo, mas nada que um “chega pra lá” não resolva.
Uma vez nesta via não tem mais erro, pois era o antigo acesso ao morro, atualmente desativado, mas eventualmente utilizado por este ou outro usuário. A estrada já é precária, apresenta enormes trechos erodidos, outros tomados parcialmente de mato e muitos pedaços de galhos e troncos tombados no decorrer do seu trecho inicial, onde se sobe suavemente na direção sul. Ora se alarga e ora se estreita, mas é facilmente transitável e perceptível. Da base do morro o trajeto é sinuoso em meio a mata espessa q cobre seu contraforte norte e justamente por isso repleto de insetos e sanguessugas alados, q fizeram a Carol se besuntar quase q totalmente de repelente.
Após meia hora de pernada sussa e desimpedida em meio a mata a rota desvia pra leste e emerge no aberto, onde os horizontes se alargam e o vento fresco sopra nos nossos rostos suados. O chão compacto, ora liso ou arenoso, agora se alterna com cascalho esfarelado de quartzito e granito claro, bastante típico na região.A pulguenta Chiara, por sua vez, despirocava na dianteira orgulhosa por nos guiar naquela larga vereda q subia em largos ziguezagues a encosta de pasto, alguns eucaliptos solitários e voçorocas de samambaias.
Não tardou pra interceptar o acesso oficial, vindo do norte, e dali bastou apenas tocar por ele ate o extremo norte do morro, numa enorme clareira. O lugar é marcado por um portão metálico enferrujado, de onde parte a vereda cascalhada em seu retão final em direção ao topo. Daqui, logicamente, q só um veiculo tracionado é capaz de prosseguir. E tome subida suave morro acima! Até aqui a vegetação diminuiu consideravelmente de tamanho, e basicamente se reduz a pequenos arbustos de samambaias, capim alto e exemplares baixos e esturricados de vegetação de galhos retorcidos, típicas de cerrado. Vale salientar q aqui as flores exibem um colorido impar a margem da via, q destoam dos tons claros da mesma. E a espivetada Chiara sempre na frente, como q fazendo questão de atingir o cume antes da gente.
Dito e feito, após o último ombro serrano e vencer um selado com arbustos altos, atingimos os 970m do cume do Mombaça. O cume é formado por dois altos cocorutos, um deles marcado por uma biruta e uma pequena torre de retransmissão, e o outro bem mais rústico, assinalado por um marco geodésico. Neste ultimo tivemos um breve pit-stop de relax, beliscada de lanche e bebericada de água, pois àquela altura o calor do mormaço estava pegando, embora ainda estivesse nublado. A vista é bastante generosa em todos os quadrantes e permite vislumbres da pirâmide do Morro do Saboó e da Serra do Ribeirão, ao sul; de Araçariguama, os Morros do Voturuna e do Cantagalo, a leste; de Itu, e Sorocaba, a oeste; e da escarpa sinuosa da Serra do Japi e do Piraí, ao norte. Em tempo, o nome do morro se deve a um afluente do Rio Tiete q nasce próximo dali, q por sinal significa o nome de uma planta típica da região, utilizada pra alimentar gado.
Voltamos pelo mesmo caminho e, mesmo sem pressa alguma, chegamos ao veiculo em menos tempo que na subida. Dali nos pirulitamos pra Araçariguama propriamente dita, onde fomos nos fiando da ótima sinalização rumo ao Parque Mina do Ouro, outro atrativo bastante comentado dali. Aberto de terça a domingo, das 8 ás 17hr, é um local bastante aprazível que além de servir de lazer aos locais, tem sua inerente importância histórica tanto por estar dentre as primeiras minas do Brasil como pelo valor de seu sítio geológico. Incrivelmente, é tudo muito bem cuidado, a diferença da maioria dos parques. Conta com o Museu de Araçariguama e Museu da Mina, com muitas curiosidades locais; a simpática Capela Sta Barbara, feita de taipa; um playground, um mini lago e um viveiro.Ah, e a própria Mina do Ouro.
O lugar é pequeno e a impressão é que estamos no meio do mato, e isso se reforça ao fato que o parque esta mocado nas encostas do Morro do Cantagalo, onde ainda há muita mata remanescente entre as dobras serranas, principalmente no fundo do vale. Pois bem, depois de visitar os museus tomamos uma vereda q sobe a encosta do morro suavemente. No caminho é possível avistar algumas entradas na encosta, q nada são algumas lavras desativadas tomadas pelo mato. Mas a vereda termina dando em torno dumas 4 cavas de extração ainda em bom estado onde é possível adentrar e sentir o q era explorar o minério na região. Munidos apenas pela lanterna do celular adentramos cuidadosamente em todas elas, mas isso não bastou pra este q vos fala meter a cabeça num setor rebaixado do teto rochoso. Isso pra lembrar de levar o bom e velho capacete. Mas é coisa rápida, pois os tuneis tem menos de 50m de extensão.
Sua vedete principal, a famosa Mina do Ouro, esta situada no pé do morro e estava com a porta trancada, pois a visitação é permitida apenas com guia. Mas felizmente o guardinha de plantão, o jovem e prestativo Sérgio, estava lá e nos salvou de voltar com a mão abanando de não conhecer o maior atrativo do lugar. Disse q a mina era exclusivamente pra visitas de grupos escolares e estava em fase de manutenção, mas como estava à toa àquela hora fez a gentileza de abrir a dita cuja e nos mostrar os 100m de extensão que a danada tem, morro adentro.
E assim adentramos com Sergio na dianteira, mas agora munidos de duas poderosas lanternas q ele mesmo nos forneceu. Conforme adentrávamos nas entranhas do morro naquele exíguo espaço de 1m de largura com 1,80m de altura, dissertava curiosidades do lugar. Fatos como o q em 1926 o ouro dali atraiu a empresa “Saint George Gold Mine”, q explorou a mina fazendo com se extraísse uma media de 45kg do minério por mês; o como depois dum desmoronamento e de enorme quantidade de desvio ilegal do minério pro exterior, o então presidente Getúlio Vargas decidiu lacrar a mina, em 1934.
A mina em si é um lugar bem pitoresco, pois é basicamente uma caverna artificial. No caminho é possível ver os trilhos dos vagonetes q transportavam o ouro assim como as toras de contenção das encostas.  Tinha até um pequeno sapinho adaptado a escuridão local q deixou a Chiara em polvorosa. Não sei por que, mas imediatamente me veio a mente o filme “Indiana Jones e o Templo da Perdição”, só faltando de entrar no vagonete em movimento. Além do mais, no interior há algumas ramificações bem curtas e alguns minérios específicos expostos em cubos de vidro. Resumindo, foi um rolê numa espécie de “mini-Petar-artificial” que vale a pena!
Despedimos-nos do simpático Sérgio e na sequencia nos mandamos pro centrão da cidade, satisfeitos pela inusitada visita a um local q não deve nada á mais notória Serra Pelada. Na pracinha central encostamos por volta das 15hr, agora sob um sol de rachar infernal, e bebericamos uma cerveja e mastigamos um salgado num boteco próximo da bonita Igreja Nossa Sra da Penha. O hospitaleiro ar interiorano da cidade é visível, pois a toda hora tanto passava uma charrete na rua como algum tiozinho parava pra prosear conosco. Coisas da roça, a apenas 50km da capital paulista.
Dali praticamente encerramos o rolê e nos mandamos pra Sampa, mas pela estrada q interliga a cidade a Pirapora do Bom Jesus, mas antes claro q tivemos uma breve parada no “Mirante do Avião”, tão famoso na cidade qto a mina. O tal é mais outro atrativo local que consiste resumidamente num velho avião da década de 50 corando o alto do Morro do Cantagalo, na sua porção norte, de onde se tem uma bela panorâmica de Araçariguama e região. Segundo infos do tiozinho q ali tava tomando conta, a aeronave era famosa e fez muitos vôos na década de 50 e 60, e agora repousa “estacionada” no topo do morrote.
Araçariguama é um charme de cidade pertinho de Sampa que guarda outros atrativos sussas que declinamos simplesmente por falta de tempo, mas fica a dica pra quem for meter as caras por lá. Tem a Cachu Rio Acima, o Morro da Aparecidinha e do Santaella, além do próprio Voturuna, acessível por meio do comecinho do seu espigão extremo oeste. E assim o pacato município prova não apenas que a Serra Pelada, Carajás e Minas Gerais – locais distantes dos centros urbanos – desencadearam a tal “febre do ouro” no país.  Escancara novos atrativos naturebas passiveis de visitação tradicional e, seja no cume dalgum morro ou no estreito caminho dum túnel, a riqueza obtida de qualquer atividade outdoor na cidade é sempre outra: conhecimento.
Compartilhar

Sobre o autor

Jorge Soto - Colunista

Jorge Soto é mochileiro, trilheiro e montanhista desde 1993. Natural de Santiago, Chile, reside atualmente em São Paulo. Designer e ilustrador por profissão, ele adora trilhar por lugares inusitados bem próximos da urbe e disponibilizar as informações á comunidade outdoor.

Deixe seu comentário