O Paraná e o montanhismo

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O Estado do Paraná é uma das unidades da federação do Brasil onde o montanhismo se encontra mais desenvolvido. É daqui o registro da ascensão mais antiga do Brasil a uma montanha por razões esportivas. Alguns dos mais completos e experientes montanhistas brasileiros são paranaenses. No Estado, há um grande desenvolvimento esportivo e também cultural do montanhismo. Mas, afinal, por que no Paraná?


O Estado do Paraná é um dos mais desenvolvidos do Brasil, mas não ocupa uma posição de destaque como São Paulo, Minas ou Rio de Janeiro. A economia não foi um fato relevante para a formação de um montanhismo bem consolidado, diferente de esportes como o futebol, onde um time com dinheiro consegue se manter numa posição de destaque.

Em termos de relevo de montanha, o Paraná não é reconhecido ou lembrado por suas elevações, diferente do Rio de Janeiro, onde há montanhas como o Pão de Açúcar , Corcovado, Dedo de Deus, Agulhas Negras, só para citar famosos cartões-postais. São Paulo tem o complexo do Baú, e Minas é conhecido por ser um Estado com relevo montanhoso por inteiro. Até o Espírito Santo lembra mais montanhas (como o Pico da Bandeira e a Pedra Azul) do que o Paraná, que é mais lembrado por suas cataratas do que pelo relevo da Serra do Mar.

Não existe um apelo forte para que as pessoas reconheçam a Serra do Mar como parte sinequanon da história e da cultura paranaense. Para quem não sabe, a Serra do Mar começa no norte do Estado de Santa Catarina, atravessa o Paraná e São Paulo e vai desaparecer nas orilhas do Rio Paraíba do Sul, no Rio de Janeiro. Em grande parte de sua extensão, a Serra do Mar se comporta mais como uma escarpa, com relevo acidentado em direção ao litoral e suave em direção ao planalto, do que uma serra propriamente dita. No Paraná, no entanto, ela é diferente.

No Paraná, a Serra do Mar é dividida em grandes blocos de montanhas salientes e visíveis desde a capital, Curitiba. Transpor a Serra do Mar em direção ao litoral sempre foi uma dificuldade e parte da história do Estado inclui a conquista das passagens por este relevo. Na região, os colonos foram construindo “caminhos” entre os blocos montanhosos e conseguindo vias de ligação entre o planalto e o litoral, vencidos com grandes tropas de mulas que levavam os produtos subtropicais, como erva mate, pinhão e madeira de Araucária até o porto de Paranaguá.

As trilhas nos “passos” entre as montanhas não podem ser consideradas montanhismo, mas já são locais onde homens e mulheres puderam experimentar a sensação de estar no meio da montanha. Muitas destas trilhas ainda existem, como o Caminho do Itupava, Picada do Cristovam e a trilha da Conceição. Outras foram transformadas em estradas, como a Graciosa e outros passos foram ampliados de acordo com a época histórica de cada geração, como o passo entre o Marumbi e a Farinha Seca que recebeu em 1885 a ferrovia Curitiba x Paranaguá e depois, o passo entre o Marumbi e a Serra do Guaricana onde fica a BR277, hoje uma moderna auto-estrada.

Parece um fato irrefutável que a transposição destes passos influenciou as pessoas a galgar as montanhas mais altas. Tanto é que o Marumbi foi a primeira a montanha a ser “conquistada”, isso em 1879, seis anos antes da construção da ferrovia que anos mais tarde deu um grande apoio à popularização do montanhismo no Estado.

Os pioneiros eram homens conhecidos da sociedade da cidade de Morretes. O mentor da empreitada, o farmacêutico José Olimpo de Miranda deu seu nome ao ponto mais alto da Serra, o monte Olimpo, que durante décadas acreditou-se ser a mais alta da Serra do Mar.

Este montanhismo pioneiro, que foi repetido inúmeras vezes até 1902, não era um montanhismo como o que conhecemos hoje, mas influenciou bastante a sociedade paranaense ao ponto que até um presidente de província se aventurou pela montanha. O que demonstra um fortalecimento na cultura de subir o Marumbi.

Outro fator importante que levou ao fortalecimento da cultura de subir montanha no Estado foi a contribuição dos estrangeiros que colonizaram Curitiba no século XX. Poloneses, alemães, italianos, japoneses e austríacos foram responsáveis pela reprodução das técnicas de montanhismo que eram usadas na Europa no Marumbi, e foram criando o “Marumbinismo”, o termo usado para designar o ato de escalar o Marumbi que veio a substituir o termo “montanhismo” por muito tempo.

Estes imigrantes transformaram o Marumbinismo numa verdadeira cultura. Na década de 1930, o montanhismo em Curitiba era muito popular e cada conquista no Marumbi era noticiada com empolgação nos jornais da cidade. A classe média composta pelos imigrantes tinha condições de não trabalhar nos finais de semana e isto foi um fator importante para a popularização do montanhismo e para os vagões do trem que descia a serra às sextas e subiam aos domingos ganhar freqüentadores não muito normais no resto do país.

O montanhismo paranaense não foi só esportivo ou recreativo. Por aqui passou um dos maiores geógrafos do século XX, o alemão Reinhard Maack que usou a Serra do Mar como seu laboratório de estudos. Maack estudou a geologia, a geomorfologia e a fitogeografia de toda a Serra do Mar. Ele realizou mapeamentos e determinou a altitude de todas as montanhas, o que levou ele a descobrir o Pico Paraná, a montanha mais alta do Estado e do Sul do Brasil.

Maack montou um time de excelentes marumbinistas e junto Rudolfo Stamm e Alfred Mysing, ele conquistou, após uma longa jornada, o Pico Paraná e outros cumes adjacentes. Nesta década (1940), não existia a BR 116 e o acesso à porção norte da Serra do Mar era muito difícil. Hoje subir estas montanhas é um passeio de final de semana, mas Maack precisou de 17 dias e toda uma logística de expedição para determinar um caminho e calgar o cume da montanha. É desta década a conquista de outros maciços e outras montanhas além do Marumbi por montanhistas como o “Farofa”, “Vitamina”, “Canguru”, Roberto Ribas Lange entre outros.

Engana-se quem acha que o montanhismo no Paraná se resume à caminhadas na Serra do Mar. A partir da década de 1970, começa um movimento forte de desenvolvimento da escalada em rocha no Estado, sobretudo para conquista dos paredões do Marumbi.

Nesta época, todas as linhas naturais, como fendas e chaminés já tinham sido conquistadas, mas com a chegada dos irmãos Kent à Curitiba, os paranaenses tiveram acesso aos modernos equipamentos de escalada dos Estados Unidos, como sapatilhas, expressas, cadeirinhas e equipamentos móveis.

Logo a escalada se desenvolveu e encontrou no Anhangava um excelente local para treinamento, pois ali as paredes eram menores e de acesso mais fácil. Foi uma questão de tempo para que a escalada esportiva evoluísse e vias de graduação acima do sétimo grau começassem a surgir. Dois grandes nomes desta geração é Bito Meyer e Lionel Mendes. Bito ainda é um escalador ativo e é um dos maiores conquistadores de vias de escalada do país. Bito também é fundador do Clube Paranaense de Montanhismo, existente até hoje.

A presença de clubes com o CPM e também o CMC (Circulo de Montanhistas de Curitiba), e mais tarde da AMC (Associação dos Montanhistas de Cristo) e NNM (Nas Nuves Montanhismo) foi muito importante para o desenvolvimento da cultura do montanhismo. Nestes locais aconteciam cursos, palestras e as experiências eram trocadas entre as pessoas, assim como nos vagões de trem para o Marumbi.

De todos os aspectos que contribuíram positivamente, até mesmo o fator negativo do Paraná contribuiu para o desenvolvimento do montanhismo no Estado: O clima! Quem conhece Curitiba sabe que aqui é um dos locais onde mais chove no país. Temos cerca de 10 meses de chuvas e apenas 2 meses de janela de bom tempo para ir à montanha. Isso levou ao desenvolvimento na década de 90 dos ginásios de escalada.

Como os escaladores de Curitiba perdiam muitos finais de semana com chuva, os ginásios foram locais importantes para o melhoramento do nível técnico dos escaladores e daí surgir a escalada de competição. Foi no Paraná que aconteceu o primeiro campeonato de escalada em solo nacional, na verdade o primeiro campeonato sulamericano de escalada, realizado ao ar livre nos arenitos de Ponta Grossa em 1989, vencido pelo mítico escalador argentino Rolando Garibotti.

Escaladores esportivos do Paraná, como André “Belezinha” Berezoski e Diogo Ratacheski&nbsp, foram fundamentais para anos mais tarde os ginásios de São Paulo se desenvolvessem. Curitiba tem hoje 3 ginásios de escalada.

Diga-se de nota, foi na década de 90 que entrou em cena a escalada em arenito, que até então não existia no Brasil, pois se acreditava que este tipo de rocha era muito frágil para a escalada. Este engano mudou com a conquista de vias de escalada em Ponta Grossa (ao lado da cachoeira de São Jorge) e em São Luis do Purunã, na escarpa da “Serrinha”. Diferente do Marumbi, estes afloramentos de arenito dos Campos Gerais tem agarras grandes, são bastante verticais ou negativos e apresentam diversos tetos que deu origem à uma escalada esportiva forte que elevou o nível da escalada no estado.

Mais tarde começou a conquista do setor 3 de São Luis do Purunã, um setor de escalada que até hoje apresenta um estilo extremamente arrojado e avançado, pois mescla a dificuldade da escalada esportiva com o uso das técnicas de proteção em móvel da escalada tradicional.

Por todos estes motivos o Paraná se desenvolveu cultural e esportivamente no montanhismo e hoje assume uma posição de destaque no Brasil e na América do Sul. Para finalizar, ainda temos que levar em consideração duas outras características do paranaense: O empreendedorismo e o espírito de viajante.

O empreendedorismo foi muito importante para o desenvolvimento de empresas ligadas ao montanhismo. Em Curitiba está sediado diversos fabricantes de equipamentos que muito ajudou nas escaladas. É daqui marcas como a Botas Nômade, Snake, equipamentos Conquista, Alto Stilo, Acampar, Barracas Manaslu, chapeletas Bonier e outras marcas que não mais existem, como a Mont Blanc.

O espírito de viajante foi muito importante para fazer do paranaense um montanhismo não muito preso à sua terra. O primeiro montanhismo brasileiro a fazer cume no Everest e em outras 6 montanhas de oito mil metros no Himalaia é daqui, Waldemar Niclevicz. Além dele, temos outros oito milistas, como seu parceiro Irivan Burda. Tivemos paranaenses no cume de diversas montanhas difíceis que representam conquistas de nível mundial, como a Trango Tower, Fitz Roy e outras tantas montanhas nos Andes e no Himalaia.

Na escalada esportiva temos nomes como André Berezoski, Anderson Gouveia, Francine Machado, Marilene Lima, Bugio, Fabio Poder, Moleza, Formiga e na escalada tradicional nomes como Edmilson Padilha, Valdesir Machado, Bito Meyer, Nicola Martinez, Edson Du Bois e Chiquinho Hartmann. Temos até paranaenses que se destacam como sendo montanhistas de outros estados, como Daniel Fernandes (SC), Davi Marski (SP) e até mesmo o paulista Eliseu Frechou, que é curitibano de nascimento, embora não mantenha nenhuma relação direta com o montanhismo do estado.

Não podemos deixar de destacar outra contribuição paranaense importante para o montanhismo, o site AltaMontanha.com, que embora tenha participantes do Brasil inteiro e inclusive de Portugal, foi fundado e é sediado em Curitiba. O montanhismo encontra terreno fértil no Paraná!

Publicado na Go Ouside em 26/05/2011

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Sobre o autor

Pedro Hauck - Equipe AM

Pedro Hauck é montanhista e escalador desde 1998. Natural de Itatiba -SP, reside atualmente em Curitiba-PR. Pedro gosta de escaladas clássicas e também de montanhismo de altitude, já tendo escalado algumas das mais altas dos Andes. É geógrafo, mestre em Geografia Física e atualmente faz doutorado em Geologia ambiental. Visite o Blog de Pedro em www.pedrohauck.net

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