Reflexão sobre proibições e comportamentos

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Uma breve reflexão sobre o problema de acesso a locais de escalada e a sua relação com o comportamento humano.

Recentemente mais um local de escalada tornou-se de acesso proibido aos escaladores.

Reproduzo com pequenas alterações uma mensagem que enviei para a lista da HangOn em março de 2011, com algumas considerações sobre a minha perspectiva do&nbsp, “porquê”&nbsp, o acesso à Falésia Paraíso tornou-se proibida aos escaladores. O acesso à esta local de escalada tornou-se proibido após um acidente de carro (sem vítimas) envolvendo um morador local e escaladores que ali passavam.

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Porque a Falésia Paraíso tornou-se proibida para os escaladores ? Foi um problema de comportamento ?

Sabem de uma coisa ? Acho que é
questão de educação e bom senso mesmo… Tenho certeza que a
Falésia Paraíso (http://falesiaparaiso.blogspot.com/ )não foi “fechada” por causa de um único ato
isolado (que foi esse incidente com o carro).

Acredito que os
moradores locais aos poucos foram se “enchendo” com a presença e
bagunça dos escaladores que iam lá escalar… isso foi acumulando-se, as pessoas não respeitavam as mínimas regras de
civilidade, e um dia bastou um incidente (como esse) para ser a
“gota” que faltava para transbordar a paciência e tolerância dos
donos.



Não creio que seja uma fatalidade, etc…&nbsp, infelizmente acredito que isso váse repetir
muitas vezes ainda em outros locais.


Não tive a oportunidade de conhecer a Falésia Paraíso, mas vou contar uma historinha que não deve ser muito diferente dos problemas que aconteceram por lá: meu “quintal” de casa é a região de
Andradas, no sul de Minas Gerais.

Lá existem diversas vias de
escalada e o acesso a todas se dá através de uma zona rural.

Local bucólico, onde vivem pessoas simples acostumadas a seguir
o ritmo do sol.

Pessoas que trabalham duro na lida do campo, de
segunda a segunda, e que o passatempo muitas vezes se resume a
ver a novela das 8 ou beber uma pinga de vez em quando no
barzinho.

Vou listar uma série de coisas que já vi neste local e
que obviamente simplesmente não combinam:



  • Já presenciei várias vezes escaladores em alta velocidade com
    seus carros… (ou tem gente que acha normal passar a 70Km/h em
    uma estrada de terra ? Jogando pó e poeira no trabalhador que
    volta a pé pra casa? Assustando o agricultador com seu cavalo ?)

  • Já vi gente “puxando um” próximo aos moradores, no centro da
    “cidade”. Não entendeu ? É… já vi escalador fumando na
    pracinha da vila… para o espanto das senhoras que passam por
    ali…

  • Já vi meninas (que acompanhavam os escaladores farofeiros)
    andando de shortinho e biquini pela pracinha, andando pela
    estrada…&nbsp, E é facil imaginar o que deve passar na cabeça do
    agricultor, da esposa dele, ao ver ao vivo e a cores pessoas
    vestidas de um jeito que não é normal para eles, que eles apenas
    veem através da TV…

  • Já vi bando de pseudo-escaladores chegarem (uns 20 ao mesmo
    tempo, pelo menos), inclusive com animais domésticos, na base
    das vias no campo escola (na Pedra do Pantano)…com gritaria,
    gritinhos de uhu, etc… (no dia que isso aconteceu até perdi o
    pique de escalar, peguei minhas coisas e fui embora…)

  • Já vi carro de escalador estacionado na frente da garagem de
    morador local… (é.. quando o dono do terreno chegar com o
    carro dele, ele entra como ?! )

  • Já vi carro de escalador com a tampa do porta-malas aberta e o
    som no último volume, tocando um putz-putz infernal…



E por ai vai…&nbsp, estou citando exemplos de péssimos
comportamentos que acontecem em um local específico.



Claro que isso não é a regra, pelo contrário, costuma ser algo
esporádico (neste local) e de forma geral, nós, a comunidade
escaladora, é bem recebida na região. Entretanto é justamente
esse tipo de comportamento, de alguns, que mina todo o trabalho
e esforço da comunidade.



Se toda essa bagunça, essa farofa, acontecesse no quintal da sua
casa, o que você faria ?



Algumas semanas atrás o André Ilha deu uma entrevista na qual
entre outras coisas ele falava sobre o fechamento da Lapinha

(que está para ser reaberta).&nbsp, Não há como negar que existem
pessoas que simplesmente reproduzem o seu comportamento urbano e
deseducado onde quer que vão. São pessoas que largam o lixo na
base das vias (achando que alguém deve passar por ali e limpar),
não se importam em levar o cachorro para “escalar”, acham a
coisa mais normal do mundo “puxar um” na frente de pessoas que
nem sabem que troço é aquele… são incapazes de falar um “por
favor” e “obrigado”.



Já pararam pra pensar que os problemas de acesso acontecem
sempre em picos de boulder ou de escalada esportiva ?&nbsp, Lapinha,
Guaraiuva, Setores de boulder na região da Pedra do Báu, Valle
Encantado… apenas para citar alguns.

Não estou querendo “setorizar” ou “discriminar” as
tribos da escalada, mas é óbvio que a relação de respeito com a
natureza e com os moradores locais, com os donos da terra, é
muito diferente entre o escalador que vai escalar em Salinas e o
escalador que vai fazer farofa em Ubatuba (SP).&nbsp,



Nem sei porque falei em Ubatuba… deve ter sido porque na única
vez que fui escalar nos boulders de lá havia uma leva de escaladores com
trocentas latinhas de cerveja dentro de um isopor, e as latinhas
vazias volta e meia caiam no chão e rolavam para o mar… e o
pessoal ali meio lesado em seus crash pad rindo “a toa”…



Tenho certeza que deve ter gente pensando: “-Fechou, tá, e aí ?
Fechou a Falésia Paraíso mas tem várias outros locais para
escalar por ai !!!
“.&nbsp,



Somos realmente estúpidos.

Tão estúpidos que sei que vai ter gente que vai
ler o que estou escrevendo e vai achar que estou criticando o
escalador de vias esportivas (ou de boulder). Não!

Estou
criticando o nosso comportamento. A nossa falta de educação.&nbsp,

Somos ou não somos uma comunidade ? É… talvez não sejamos…



Não estou querendo ser moralista, nem apontar culpados. Apenas
fico super chateado em saber que mais um local de escalada foi
fechado. E saber que a culpa é nossa. Que a culpa é minha. E é
culpa sua também.
&nbsp,

Somos um bando de macacos desorganizados
incapazes de ter o mínimo de respeito pela casa dos outros.

Não
tenha dúvida que é algo assim que deve passar pela cabeça dos
moradores lá da Falésia Paraíso… (e de tantos outros lugares
também…)



Abraços e boas escaladas,



Davi Marski



PS: Enquanto escrevo esse texto, me lembro do Cuscuzeiro, no Interior de SP, quando
ha uns 20 anos atrás as pessoas paravam o carro dentro da estrada
de acesso à sede de uma fazenda. O dono “não se importava”,
apenas não queria que os carros atrapalhassem a passagem do
trator e que a porteira ficasse sempre fechada.&nbsp,

Claro que
sempre tem alguém que se acha mais esperto do que os outros, e
não demorou muito tempo tempo (e muitas porteiras deixadas
abertas depois) o dono da fazenda resolveu proibir o estacionamento dos carros na estrada
dele.

Para isso ele colocou um cadeado com uma corrente na porteira. E é claro, algum
energúmeno arrombou o cadeado da porteira pra estacionar o
carro no lugar “proibido”&nbsp, o resto da história é fácil de imaginar…&nbsp,&nbsp,&nbsp,&nbsp,

Por diversos motivos (entre eles o econômico), o acesso ao Cuscuzeiro não é proibido atualmente e o acesso não se dá mais por essa
fazenda (e sim por outra fazenda ao lado).

A história desse lugar em especial poderia ter sido muito
diferente pois já houveram energúmenos que acharam legal fazer uma
fogueira (e com isso conseguiram colocar fogo em toda a mata do Cuscuzeiro), já houveram vacas que
morreram por causa de lixo plástico deixado por escalador…

Enfim, nossa falta
de educação e falta de comportamento civilizado certamente não é
de hoje…&nbsp, mas será até quando ? Bastaria termos educação e seguirmos de verdade as prática de mínimo impacto.

Não sabe quais são estas práticas ? Confira em www.pegaleve.org.br

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Sobre o autor

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Davi Marski (In Memorian) Era guia de montanha e escalador em rocha e alta montanha (principalmente nos Andes) desde 1990. Além de guia de expedições comerciais, ele ministrava cursos de escalada em rocha. Segundo ele mesmo "sou apenas mais um cara que ama sentir o vento frio que desce das montanhas". Davi levava uma vida simples no interior de São Paulo e esforçava-se por poder estar e viver nas montanhas. Davi nos deixou no dia 19 de Novembro de 2014.

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