Surpresa desagradável na Amazônia! Leishmaniose.

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Em minha ultima viagem para visitar os países irmãos, trouxe bem mais que lembranças, cartões postais e boas fotos. Desta vez o que veio na mochila não foi nada legal!


Depois de escalar algumas montanhas na Bolívia, tirei um tempo de descanso e fui até o departamento de Beni (Floresta Amazônica Boliviana) ao encontro de Geni Lobato. Geni estava nos Pampas bolivianos fotografando e me encontraria em Beni para irmos a Madidi. Parti de La Paz bem cedo com o dia ainda banhado em uma densa neblina em direção à cidade de Rurrenabaque.
 
Depois de um tempinho de vôo sobrevoando a cordilheira Real em um teco-teco que mal cabiam os passageiros e bagagem, lá estava eu pousando em uma cidadezinha no meio do nada às margens do Rio Beni. A pista de pouso era pouco maior que dois campos de futebol, a cidade parece aquelas do filme do Stalone, o próprio Camboja na América do Sul.  Rurrenabaque é porto de partida para quem deseja se aventurar no Parque Nacional Madidi.

Para quem nunca escutou falar, o Parque Nacional de Madidi, no noroeste da Bolívia, foi criado em 1995 e protege uma grande área de ecossistema Tropical. Dos Andes até a bacia da Amazônia, a vasta extensão de 4.500.00 acres é cercada por incomparável diversidade biológica, mudando de uma densa floresta para a seca floresta tropical, da umidade para as savanas, dos turbulentos rios para os tranqüilos lagos. As montanhas e florestas do Parque Nacional Madidi, abrigam mais de 1.000 espécies de pássaros, 44% das espécies mamíferas mundiais, e é estimado que 38% dos anfíbios neotropicais. Os Andes Tropicais, onde Madidi está localizada, é também um critico local de plantas endêmicas e por isso é observado por cientistas e curiosos de todo mundo.

Algumas horas de barco até o acampamento no meio da floresta, boas fotos, inúmeras surpresas com a fauna local, tudo que a floresta amazônica pode nos dar de belezas naturais. Porém, como dito, o presente que recebi da floresta não foi nada legal.

Ao retornar para La Paz, seguindo viagem em direção ao Peru com destino Arequipa passando por Cuzco, percebi que algumas das picadas de mosquito não estavam como deveria ser.  Como a febre da montanha fala mais alto, me desliguei das picadas e parti para algumas tentativas de cume pelas montanhas da cidade peruana.

Algumas semanas depois, já no Brasil, as picadas já eram feriadas, tratei com descaso, pensando ser alergia a picada do mosquito. A semana passou, vim para o Rio de Janeiro, escalei no fim de semana, até que meu irmão Marco Antônio chamou minha atenção para o tamanho da feriada, não que Geni Lobato não tenha feito o mesmo inúmeras vezes, mas como mulher sempre exagera nas coisas (Nunca mais penso assim!), não dei atenção. Retornei a Belo Horizonte e ela me forçou a procurar um médico. Duas visitas ao dermatologista e o diagnóstico era o que esperava, reação alérgica a picada de mosquito, uma injeção de Bezetacil (Essa dói!) e voltei para casa. Fiquei feliz em saber que não era nada grave, mas a ferida não fechava e crescia a cada dia.

Já de volta ao Rio de Janeiro, na casa dos amigos Rodrigo e Thassyana, os mesmos me forçaram a ir ao médico novamente, dessa vez em alguém mais especializado no assunto aventura. Seguindo a dica da Thassy e os puxões de orelha de Geni, mesmo que por telefone, topei ir a outra clinica. Depois de uma consulta com o Dr. Marcelo Régnier, dermatologista e montanhista, membro do CEB, descobri que carregava no braço esquerdo mais do que duas picadas de mosquito. Nesta viagem a Madidi, contrai leishmaniose.

A leishmaniose ou leishmaníase ou calazar ou úlcera de Bauru é a doença provocada pelos parasitas unicelulares do gênero Leishmania. Há três tipos de leishmaníase: visceral, que ataca os órgãos internos, cutânea, que ataca a pele, e mucocutânea, que ataca as mucosas e a pele. No Brasil existem as três formas, enquanto que em Portugal existe principalmente a leishmaníase visceral e alguns casos (muito raros) de leishmaníase cutânea. Esta raridade é relativa, visto que na realidade o que ocorre é uma subnotificação dos casos de leishmaniose cutânea. Uma razão para esta subnotificação é o fato de a maioria dos casos de leishmaniose cutânea humana serem autolimitantes, embora possam demorar até vários meses a resolverem-se. As leishmania são transmitidas pelos insetos fêmeas dos gêneros Phlebotomus (Velho Mundo) ou Lutzomyia (Novo Mundo). A leishmaniose também pode afetar o cão, que é considerado o reservatório da doença.

Mosquito-palha, também conhecido como birigüi, cangalha, tatuquíra, entre outros, são mosquitos (diptera), pequenos, corcundas e com as asas, estreitas e de forma lanceolada, sempre levantadas quando estão pousados.

É conhecido cerca de 450 espécies, distribuídas no continente americano, sendo o gênero Lutzomyia responsável pela transmissão da leishmaniose, uma doença provocada pelos parasitas unicelulares do gênero Leishmania, um protozoário. Leishmaniose é geralmente transmitida no Velho Mundo pelo inseto do gênero Phlebotomus. A doença é transmitida ao homem através de um reservatório animal (hospedeiro) como os roedores e os canídeos.

A transmissão dá-se classicamente pela picada do Lutzomyia, chamado de inseto vetor. Somente as fêmeas sugam sangue, pondo algumas dezenas de ovos em locais terrestres úmidos, como sob pedras e folhas no solo. Após 30-60 dias, a larva madura fixa-se no substrato e se transforma em pupa, mudando após mais alguns dias para adulto. Os adultos parecem voar poucas centenas de metros, em geral com um vôo saltitante e só picam partes do corpo não cobertas por roupas. Sua picada costuma ser dolorosa, e podem transmitir várias espécies de Leishmania, tanto em florestas quanto em ambientes modificados. Há espécies que picam somente em florestas, e outras que se adaptam a ambientes modificados, incluindo o peridomicílio e áreas com vegetação arbustiva, como Lutzomyia longipalpis, que transmite Leishmania infantum chagasi, causadora de leishmaniose visceral.

A modificação da vegetação costuma causar a redução na população de uma espécie e o aumento na de outra, que pode substituir a primeira como vetor de alguma espécie de Leishmania.

As leishmania são protozoários que são parasitas de células fagocitárias de mamíferos, especialmente de macrófagos. São capazes de resistir à destruição após a fagocitose. As formas promastigotas (infecciosas) são alongadas e possuem um flagelo locomotor anterior, que utilizam nas fases extracelulares do seu ciclo de vida. O amastigota (intra-celular) não tem flagelo.

O diagnóstico é pela observação direta microscópica dos parasitas em amostras de linfa, sanguíneas ou de biopsias de baço, após cultura ou por detecção do seu DNA ou através de testes imunológicos, como a Reação de Montenegro.

O tratamento é por administração de compostos antimóniais, pentamidina, anfotericina ou miltefosina. A prevenção é por redes ou repelentes de insectos, construção de moradias humanas a distância superior a 500 metros da mata silvestre e pela erradicação dos Phlebotomus/Lutzomyia.

As moléculas mais utilizadas no tratamento da leishmaniose canina são os antimoniais e o alopurinol.

Enquanto no homem consegue-se uma cura definitiva, no cão tratamento raramente leva à cura definitiva, pois o animal mantém-se como portador, apresentando uma melhoria clínica, com o desaparecimento dos sinais clínicos, que reaparecerão passados meses. As recidivas no cão também podem ser devidas a reinfecção, principalmente se o cão viver numa região endêmica.

Uma vacina está sendo testada nos municípios de Caratinga e Varzelândia, em Minas Gerais – Brasil, e também na Colômbia e no Equador, sob a coordenação da OMS. Os testes estão em fase final e, até agora, os resultados são bons e o pesquisador está otimista também com os resultados dos testes da vacina preventiva.

A vacina terapêutica para leishmaniose, desenvolvida pelo Prof. Wilson Mayrink, pesquisador do Departamento de Parasitologia da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais), recebeu o registro do Ministério da Saúde e agora pode ser comercializada no Brasil.

No cão ainda não existe uma vacina comercializada na Europa. Atualmente a forma mais eficaz de prevenção passa pela utilização de produtos especiais com efeito de repelência sobre os Phlebótomos. Estão sendo comercializados vários produtos à base de piretróides sintéticos. O produto que tem demonstrado mais eficácia e que é mais recomendado e referenciado é a coleira impregnada com deltametrina. Recentemente (maio de 2007), as autoridades sanitárias do Município de Campo Grande Mato Grosso do Sul, no Brasil, adquiriram vários milhares destas coleiras para fazer frente à leishmaniose canina.

A cura da doença foi descoberta no início do século XX pelo médico paraense de Belém do Pará, Gaspar Viana.

Depois dessa desagradável supressa, fica meu alerta para quem se aventura pelas florestas tropicais. Pode estar derretendo barra de ferro dentro da mata, mas se proteja com camisas longas, calças e repelentes. Nada de caminhar pela mata feito o Rambo, isso só funciona no cinema. Sempre achei ser imune a picadas de mosquitos e outros insetos. Sempre caminhei sem camisa e nunca me importei com os insetos da mata. Aprendi da maneira mais difícil que devo prestar mais atenção nas dicas dos sites, literatura direcionada e nos puxões de orelha da Geni (ela me avisou sobre o repelente). Agora é ficar com a cicatriz no braço de recordação, já que será necessário realizar uma biópsia e dar pontos para fechar os ferimentos!

Força sempre e boas escaladas!
Atila Barros

Importante!
Se necessitar de ajuda, consulte um profissional de saúde.
As informações aqui contidas não têm caráter de aconselhamento.
 

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Sobre o autor

Atila Barros - Colunista

Atila Barros nasceu no Rio de Janeiro, e vive em Minas Gerais, cidade que adotou como sua casa. Escalador (Montanhista) há 12 anos, é apaixonado pelo esporte outdoor. Ele mantem o portal Rocha e Gelo (www.montanha.bio.br)

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