Surpresas no Curupira

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Estávamos no Pico da Neblina, o teto de nosso país, esplendidamente isolados do resto do mundo. Naquela límpida manhã em que esperávamos pelo nascer do sol, avistei contra sua luz três corcovas flutuando no mar verde da selva amazônica. Fiquei curioso e mais tarde soube pelo antigo garimpeiro Arlindo que se tratava do Pico Guimarães Rosa – o escritor chefiou a demarcação da fronteira com a Venezuela, quando teria havido o primeiro relato de conquista do Neblina.

Sim, Arlindo o conhecia, a subida seria simples, poderíamos fazê-la no próximo verão. Eu tinha afeto e admiração pelo Arlindo: deixou no livro do cume do Neblina uma carta para sua mãe que me fez chorar, de tão simples e sincera. Arlindo era inteligente e articulado, havia sido garimpeiro, mas agora vivia em São Gabriel da Cachoeira, porta de entrada para o Neblina.

Aldeia Yanomami de Nazaré, Neblina, AM

Quando nos encontramos antes, ele comentara algumas palavras em nheengatu, a língua geral indígena. O idioma praticado no Brasil colonial se ramificou nas línguas gerais paulista (hoje extinta) e setentrional (da qual evoluiu o nheengatu). Antigamente, chegou a ser mais falada na região do que o português e, ainda hoje, é ensinada no Amazonas.
Bom, voltando ao visual do Neblina, as três corcovas pertenciam à Cordilheira Curupira, cujo ponto culminante era de fato o Guimarães Rosa (2.150m). Então, voltei a agitar uma nova excursão amazônica: dois anos depois, estávamos de volta ao Rio Cauaburi, único acesso à região, numa rota mais além do Neblina.

Montando a Cumeeira do Acampamento, Curupira, AM

Porém, devido às chuvas escassas e à medida que avançávamos para sua nascente, o rio baixo nos obrigava a saltar do barco e empurrá-lo. Foi uma prática exaustiva durante os muitos e longos dias em que tentávamos nos aproximar da montanha: entrar na voadeira, acionar o motor, ver o casco prender no fundo, sair do barco, empurrá-lo, voltar a ele, esperar pelo próximo engasgo.
Mas o pior obstáculo era que Arlindo nunca havia estado lá. Não se preocupem, vamos encontrar o Domingos na margem do rio, ele conhece, dizia ele. Mas Domingos tinha apenas se aproximado da cordilheira quando houve um incêndio. E, pior, nossos mapas do RADAM eram imagens de sombra do radar, pois apenas refletiam os vultos dos acidentes geográficos. Possuíam uma bela cor cinzenta diluída e tinham de ser interpretados: por exemplo, um vale podia ser uma crista e vice-versa.
Depois de longos caminhos e discussões, avistamos afinal o Guimarães: nem pensar em descer a funda grota e escalar a parede irregular da montanha. Também, a bela formação empinada, o Mascarenhas de Morais, que fazia a segunda corcova, era inacessível. Vale dizer que não dispúnhamos nem dos mantimentos nem dos equipamentos para tais façanhas.
Tínhamos de nos contentar com a terceira montanha, o Braz de Aguiar, cujos 1.600m nos pareciam tão modestos. Entretanto, era uma montanha com um perfil arrojado, parecendo um nariz adunco apontando acima de todo aquele verde, aparentemente nada fácil. Na realidade, a cordilheira não era contínua, com fundos vales separando as montanhas. Nada parecido com uma bela e longa crista, como na Mantiqueira.

Pico Guimarães Rosa, Cordilheira Curupira, AM

Improvisamos uma trilha na mata por três dias, como sempre dormindo em redes penduradas nas árvores. Como nossa comida escasseava, tivemos de caçar um ou dois pequenos animais, quando esqueci a culpa e saciei a fome. Começamos a subir e, por fim, no meio de uma tarde exaustiva, encontramos uma canaleta de bromélias por onde pudemos galgar a montanha. Arrastamo-nos por ela, às vezes deslizando perigosamente, às vezes avançando entre espinhos – mas, finalmente, bivacamos no cume.
Infelizmente, a chuva que afinal veio (foi a primeira e poderia ter demorado mais um só dia para chegar) nos impediu a raríssima visão da face leste do Neblina. Sua ascensão é feita pelo lado oposto e avistar esta face era um de nossos objetivos. Na volta, o cansaço nos fez desistir de tentar a impressionante Serra do Padre, nosso segundo objetivo, que calculo estaria a meros 10 km da curva do rio mata adentro.

Serra do Padre vista do Rio Cauaburi, AM

Lá em cima do Braz de Aguiar, tive um sentimento estranho: por um lado, a euforia de ter conquistado um cume que nem os índios sabiam onde ficava e como se chamava. Por outro, as decepções de apenas mirar a montanha dominante daquela cordilheira, tão próxima e tão distante, e de não poder divisar a outra face do Neblina, encoberto pela névoa que encontramos exatamente naquele dia, pela primeira vez na viagem.
Mas estes percalços foram substituídos pelo assombro ao perceber, na distância até o Neblina, a existência de uma grande variedade de serras sem denominação, localização e altitude definidas, das quais o último pico identificado era exatamente o Braz de Aguiar. Estavam contidas no interior do grande arco rochoso que divide o Brasil da Venezuela. Era fascinante ver essa incrível coleção de montanhas virgens, de formatos variados.
Note que olhávamos basicamente a oeste, pois na direção oposta nossa visão era bloqueada pelos altos da serra onde estávamos, mas o mapa indicava a leste inúmeras outras formações inacessíveis ao olhar. Eis aí um desafio para nossos montanhistas: este vasto território povoado por serras de difícil acesso e longa aproximação.

Vista do Braz de Aguiar, Curupira, AM

São montanhas sem nome, dono ou trilha. Embora talvez tecnicamente fáceis, trazem uma série de dificuldades: a logística complicada, as grandes distâncias, a difícil orientação, a ausência de mapas detalhados e de comunicações, além do calor úmido, da fauna agressiva e da esquiva relação com os índios.
A história do montanhismo parece passar por ciclos, nos quais aventureiros se mobilizam para conquistar regiões então inexploradas: os Alpes e depois os Andes, o Himalaia e o Karakorum ou a Patagônia. Voei de volta pensando se as formações além do Neblina não seriam o próximo desafio do montanhismo, uma espécie de Paquistão de baixa altitude, alta temperatura e, talvez, mesma voltagem.
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Sobre o autor

Alberto Ortenblad - Colunista

Nasci no Rio, vivo em São Paulo, mas meu lugar é em Minas. Fui casado algumas vezes e quase nunca fiquei solteiro. Meus três filhos vieram do primeiro casamento. Estudei engenharia e depois administração, e percebi que nenhuma delas seria o meu destino. Mas esta segunda carreira trouxe boa recompensa, então não a abandonei. Até que um dia, resultado do acaso e da curiosidade, encontrei na natureza a minha vocação. E, nela, de início principalmente as montanhas. Hoje, elas são acompanhadas por um grande interesse pelos ambientes naturais. Então, acho que me transformei naquela figura antiga e genérica do naturalista.

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