Tio George

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Você leu antes sobre algumas travessias litorâneas, mas eram trajetos curtos se comparados com este, o famoso trek Porto Seguro-Prado.

Quem me contou esta história foi o Tio George: era um afável carioca de meia idade, já um tanto careca e redondo, que só caminhava de havaianas e trabalhava com turismo. (Acabo de ler num livro sobre montanhismo uma menção sobre um antigo escalador de mesmo nome que teria implantado este trek. Seu apelido naquela época gloriosa era Panela. Será o mesmo?)

As Casas Coloridas de Itamaraju, BA

Disse que um dia, da janela de um avião, vislumbrou o litoral baiano ao sul de Porto Seguro e lá imaginou uma longa caminhada. E ele de fato a fez, sob um calor horrível no trecho em que as falésias eram altas e impediam a circulação do vento. Então, descobriu que deveria atravessar este pedaço à noite. Disse-me que se entrava nesta região por Porto Seguro ao norte e se saía por Itamaraju ao sul.

Início do Trek Porto Seguro-Prados, BA

Foi assim que, na companhia dele e de outras pessoas, conheci o que veio a ser chamado de trek Porto Seguro-Prado. Mas este nome é enganoso, pois você vai realmente caminhar a partir de Arraial d´Ajuda, que fica um pouco ao sul. É uma travessia deslumbrante, ao longo de 120 km de areias, falésias, mangues, rochedos e restingas.
Entre coqueiros e bromélias, através do manto branco da areia ou ao lado das paredes lilás das falésias, avistando as piscinas naturais de águas azuis ou o denso verde da mata, você caminhará distraído por uma semana de beleza e isolamento, por distâncias que lhe parecerão impossíveis. Não é de estranhar que os portugueses que aqui aportaram no Descobrimento julgassem ser nosso país um paraíso, tão deslumbrante era a paisagem, ameno o clima e generosa a natureza.
Procure fazer o trek no inverno (o calor será delicioso) e fuja do período de férias (o comportamento geral é péssimo). Caminhe cedo, pois você andará de 14 a 30 km por dia. Observe a maré, caso contrário a arrebentação das ondas poderá complicar o seu percurso, pois as mudanças no nível do mar são muito grandes. Atenção com a profundidade dos muitos rios que deságuam no mar – mas quase sempre haverá um barqueiro na margem dos mais fundos. Quando a praia estreitar, veja as indicações para subir pelas falésias.
Hoje o litoral é muito mais frequentado do que era, há bares, quiosques, pousadas e condomínios onde existia apenas praia vazia, eu chegava a nadar e caminhar nu. Nos vilarejos, fique esperto em lugares pitorescos como o beco da perdição, a passarela do álcool, a praia dos pelados ou o beco da alegria – junto com o forró, o reggae, o capeta e a cannabis que costumam acompanhá-los e os tipos curiosos que gostam de frequentá-los.

Igreja de S João Batista, Quadrado de Trancoso, BA

Porque é claro que você encontrará um variado mostruário da espécie humana. Havia duas moças que nunca tinham caminhado e só aguentavam as bolhas nos pés à base de muita erva. Uma outra vinha cedinho tomar banho de mar seminua e ficava me achando o mais distinto dos cavalheiros por não notá-la – que, é claro, era tudo o que ela não queria. Ou o ágil rapaz que só entrava pelas janelas, não pelas portas – inclusive nos ônibus E, é claro, a formidável coleção de bichos grilo, de caiçaras sarados à disposição de gringas branquelas e de madames do sul à busca de novidades em geral.

Litoral de Trancoso, BA

Ao longo do percurso, você passará por vilas mágicas, a primeira delas sendo Trancoso, após os primeiros 14 km de caminhada. Lá existe o famoso Quadrado, ao topo da falésia, tomado por antigas casinhas de pescadores, transformadas em lojas e bares para o caro e ocioso lazer da burguesia. A linda Igreja de S. João Batista contempla esse agito, de costas para o mar distante.

Depois, você chegará a Caraíva, em um ou dois dias, pois a distância é de 30 km. Ela é uma vila bem mais simples e autêntica, banhada por um rio tranquilo e preservada do progresso pelo mau acesso. Este não será o caso de Corumbau, um vilarejo ainda pequenino porém moderno, com seu prosaico farol, que você encontrará depois de mais 20 km. É lá que fica o Monte Pascoal, uma doce pirâmide distante, primeira aparência de terra avistada por Cabral. Bem como a descaracterizada aldeia dos índios pataxós. Acho que foi na Ponta de Corumbau onde fui tragado por uma incrível ventania.

Praia do Espelho em Caraíva,BA

A expedição de Cabral entrou pela primeira vez em contato com os índios em Barra do Cahy, onde existe uma cruz ornamentada que você verá 10 km depois de Corumbau. (Ele só aportou realmente em terra firme dois dias depois, em Coroa Vermelha, que fica bem ao norte.) E, então, ultrapassada esta barra, você alcançará Cumuruxatiba após 14 km, também um vilarejo com difícil acesso por terra, onde os desolados restos do seu píer avançam mar a dentro. Por fim, a feia e grande cidade de Prado. Só que de uma a outra caminhamos à noite por algo como 30 km, chegando em Prado no início da manhã, para um farto e merecido café da manhã.

O Pier de Cumuruxatiba, BA

E a magia quase acabou aqui. Fomos até Itamaraju esperar o ônibus de volta, que saía de um bar. Lá havia um casal de idosos, bem vestidos e nervosos, eram os únicos que tinham passagens. Quando o ônibus chegou, o cobrador disse: Só sobe quem não tem bilhete! Entramos junto com as reclamações desesperadas dos velhinhos. Claro que o tal ágil rapaz entrou pela janela. Na Bahia, a magia demora mesmo a acabar.
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Sobre o autor

Alberto Ortenblad - Colunista

Nasci no Rio, vivo em São Paulo, mas meu lugar é em Minas. Fui casado algumas vezes e quase nunca fiquei solteiro. Meus três filhos vieram do primeiro casamento. Estudei engenharia e depois administração, e percebi que nenhuma delas seria o meu destino. Mas esta segunda carreira trouxe boa recompensa, então não a abandonei. Até que um dia, resultado do acaso e da curiosidade, encontrei na natureza a minha vocação. E, nela, de início principalmente as montanhas. Hoje, elas são acompanhadas por um grande interesse pelos ambientes naturais. Então, acho que me transformei naquela figura antiga e genérica do naturalista.

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