Universidade(s) e Escaladas – Parte 02

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Uma análise mais elaborada com respeito à produção acadêmica relacionada ao montanhismo e escalada nas nossas universidades.


Pois bem… a escalada possui diversas vertentes ou modalidades, indo desde o despojamento material de um bolder, às complexas requisições para expedições e escaladas de bigwall e alta montanha. E embora possa parecer que apenas o componente físico é solicitado nas escaladas (seja ela de qual tipo for), o componente mental ou psicológico é altamente equacionado e equilibrado na maioria das modalidades.

Estou dando esta “introdução” pois a escalada (ou “escaladas”) pode ser objeto de estudo não apenas da Educação Física, mas da sociologia, psicologia e até da medicina.

Nossa relação com a escalada é nova, incipiente. Após o “boom” dos anos 90 no Brasil, diversos alunos em diferentes graduações pelo Brasil dedicaram seu tempo e esforços buscando compreender melhor e contextualizar a escalada. E não apenas alunos de graduação, mas pesquisadores com seus mestrados, doutorados e publicações.

Tenho um orgulho saudável de pertencer ao GEEU / Unicamp (Grupo de Escalada Esportiva e Montanhismo da Unicamp), e assim como na Unicamp, na USP temos a presença do CEU (Centro Excursionista Universitário) e na UFSCar temos o CUME (Centro Universitário de Montanhismo e Excursionismo).É nas universidades que nasce e se formam as intelectualidades e produção científica relevante.

O que quero dizer com os dois parágrafos anteriores, é que os Grupos de Escalada e Montanhismo Universitários (Como o GEEU, CUME, CEU), de certa forma, completam o tripé previsto para uma universidade : ensino, pesquisa e extensão. Nossos ambientes complementam os estudos e são frutos destes (academicamente falando) e com certeza fazem o seu papel de extensão, atendendo e estando aberto a comunidade.

Tanto o GEEU, quanto o CUME possuem muros de escalada artificiais, entretanto, a escalada em muros artificiais *nao é* apenas um forma de desenvolvimento físico, atlético ou esporte, ela possui vários e importantes componentes de integração social, de formação de cultura de grupo, de identidade e de transformação/superação de paradigmas intrapessoais. Para muitos, esse componentes são mais importantes até do que os componentes relacionados à destreza, motricidade, força, etc…

Com certeza eu não sou a melhor pessoa para falar sobre isso, a dissertação de Mestrado da Alcyane Marinho (FEF/Unicamp), que foi realizado “inteiramente” com o GEEU, nos anos 90 : Da busca pela natureza aos ambientes artificais – uma reflexao sobre a escalada esportiva, dá uma abordagem espetacular a esse assunto. (a formação do que ela chama de ´corpo escalador´…)

Principalmente para os novos cérebros que são formados nas universidades, é  importante que se saiba que há uma cultura de ´Turismo de Aventura” e também de “Esportes na Natureza”, fomentada pelo próprio sensacionalismo na mídia e que no Brasil é representada pela ABETA (Assoc. Bras. de Turismo de Aventura).

Entretanto na maior parte das vezes, há interesses e propósitos conflitantes com as entidades e federações de montanhismo e escalada. O cerne desses conflitos geralmente é associado ao interesse especulativo (comercial , capitalista) do “turismo de aventura”, frente aos interesses mais preservacionistas das entidades de montanhismo. Talvez até mesmo uma questão de ótica sobre como os recursos naturais, nossos parques nacionais, devem ser utilizados.

Nem é preciso dizer que coincidentemente ou não, a maior parte de trabalhos produzidos nas faculdades brasileiras  é relacionado ao “mercado do turismo”, e não ao escalador, ao montanhista.  Isso inclusive se reflete em alguns programas de disciplinas em faculdades e institutos no Brasil, onde a escalada ou montanhismo está inserida em um contexto do tipo “Esportes na natureza”, e no decorrer destes créditos (da disciplina), o aluno acaba vendo um pouco de tudo : caminhada, descida de cachoeiras, corrida de aventura, parapente, e é claro, escalada e rapel…  

Eu tinha planos de escrever um artigo mostrando a importância do ambiente universitário na formação de escaladores, ou da relevância destas produções científicas (relacionadas a escalada), mas… acho que alguém da sociologia e áreas assemelhadas irá conseguir produzir um material melhor que o meu. Resolvi fazer um apanhado geral das produções acadêmicas relacionadas à escalada. Certamente vou esquecer de alguém e já peço desculpas antecipadas ! Esta relação não está em ordem cronológica.

Creio que o primeiro livro de escalada aqui em terras tupiniquins foi o excelente “Com unhas e dentes”, escrito pelo Sérgio Beck  (USP). Claro, não estou considerando os manuais e guias do André Ilha, Cristiano Requião e outros mais recentes, como o trabalho do Flavio e da Cintia Daflon, o trabalho do pessoal da editora Montanhar, etc… Vou tentar focar os materiais produzidos com foco acadêmico.

No aspecto social, temos a dissertação de mestrado da Alcyane Marinho, que foi feita “sobre” o Grupo de Escalada da Unicamp, é um trabalho espetacular e ao contrário da maioria das produções acadêmicas, este trabalho parece um romance, uma leitura agradável…. o próprio doutorado da Alcyane Marinho (também na  FEF/Unicamp) foi de certa forma relacionada ao universo do montanhismo, com o título “As diferentes interfaces da aventura na natureza: reflexões sobre a sociabilidade na vida contemporânea”. Em ambos os casos, a orientação foi dada pela Profa. Dra. Heloisa Turini Brunhs.  A dissertação da Alcyane está no site do GEEU : http://www.geeu.wsystem.com.br/index.php?option=com_docman&task=cat_view&gid=9&Itemid=12

A Profa. Dra. Heloisa Turini Brunhs, da Ef. Física, está a vários anos envolvida com atividades esportivas “não convencionais.  Tem ainda a tese de doutorado do  Sandoval Villaverde Monteiro, também orientado pela Heloisa Bruhns, com o título “Potencialidades das Experiências de Lazer e Aventura na Natureza”, esse e vários outros já começam a focar-se  no mercado de “turismo de aventura”, então vale a minha ressalva anterior quanto à este foco.

Ainda na Unicamp, há a excelente Dissertação de Mestrado do Diego França Ferrer : Bases teórico-metodológicas para a preparação física de escaladores desportivos

Na USP , a maior parte dos trabalhos relacionados à escalada são do Rômulo Bertuzzi, sua dissertação de mestrado  : Estimativa das contribuições dos sistemas energéticos e do gasto energético total para escaladores esportivos  é um “marco” para os que se interessam pelo assunto. Claro, ele possui outros trabalhos , como Características antropométricas e desempenho motor de escaladores esportivos  e ainda :
Ajustes Agudos da Frequencia Cardiaca e da Preensao Manual na Pratica da Escalada Esportiva Indoor
O Bertuzzi possui vários artigos, além dos citados acima :  http://buscatextual.cnpq.br/buscatextual/visualizacv.jsp?id=K4778273E4

Ainda na USP temos a Denise Silva Carceroni e o Dimitri Wuo Pereira que publicaram trabalhos e pesquisas relacionadas à escalada, a primeira como TCC “O Efeito do estabelecimento de metas no desempenho na escalada esportiva indoor” e o segundo com a dissertaçao “Escalada em Rocha como Educação Física no Ensino Médio” (além de livros e outros artigos).

Na UFRJ temos o Prof. Dr. Antonio Paulo de Faria, que tem produzido vasto material relacionado à escalada e ao montanhismo (como por exemplo seu livro “Montanhismo brasileiro : paixão e aventura). http://buscatextual.cnpq.br/buscatextual/visualizacv.jsp?id=K4727354A4
De Porto Alegre , temos o Trabalho de Conclusão de Curso, do Prof. Orley S. de Resende:  Escalada Indoor – Uma nova proposta para o professor de Educação Física , e com uma abordagem totalmente diferente, há o trabalho da Cintia de Souza Lima Marski : “Muro de escalada horizontal em ambientes escolares : um recurso pedagógico a ser explorado”, onde foi ressaltado as potencialidades de desenvolvimento motor e cognitivo que a escalada “horizontal” apresenta para crianças entre 6 a 12 anos : http://www.marski.org/index.php?option=com_docman&task=doc_download&gid=79

Certamente os trabalhos de conclusão de curso são a maioria.

Vou encerrar esse texto indicando alguns links :

E  no meu site tento fazer uma espécie de repositório desse conhecimento acadêmico :http://www.marski.org/index.php?option=com_content&view=article&id=166&Itemid=100009

Bom é isso…Enquanto escreve este artigo, tenho acompanhado a “luta” pelos primeiros passos do pessoal na UNESP de Araraquara, as idas e vindas de muros “particulares” dentro da UNB…. e aí ? Alguém sabe ou pode contribuir mais sobre essa relação entre a escalada e a universidade aqui no Brasil ?  Para contato, meu email é :  [email protected]

Abs e boas escaladas ! Davi Marskiwww.marski.orgwww.blog.marski.org  

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Sobre o autor

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Davi Marski (In Memorian) Era guia de montanha e escalador em rocha e alta montanha (principalmente nos Andes) desde 1990. Além de guia de expedições comerciais, ele ministrava cursos de escalada em rocha. Segundo ele mesmo "sou apenas mais um cara que ama sentir o vento frio que desce das montanhas". Davi levava uma vida simples no interior de São Paulo e esforçava-se por poder estar e viver nas montanhas. Davi nos deixou no dia 19 de Novembro de 2014.

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