Ursos na Trilha Inca

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Na entrevista com Jorge Soto, tive de responder rapidamente suas perguntas, pois viajaria em seguida. Quando a matéria saiu no Alta Montanha, notei que havia omitido algumas histórias, que a mim pareciam interessantes e que passo a relatar aqui.

Acampamento na Trilha Inca, Peru – Fonte: Arquivo pessoal

Não são descrições de natureza, estas eu as deixo para o jornal Mountain Voices, e sim relatos de experiências curiosas que nela ocorreram. Elas aparecerão ao longo do tempo. Esta é o primeiro relato, espero que você aprecie.
Ursos na Trilha Inca
A Trilha Inca foi minha primeira travessia longa e também minha primeira caminhada fora do país. Foram quatro dias durante um inverno quente e luminoso. No Brasil havia um inverno rigoroso. Lembro-me das águas quase congeladas do Rio Paraíba e da neve no Planalto de Itatiaia, duas paisagens que jamais voltei a ver.
E, para me preparar para o que esperava fosse um frio intenso, tomava banho nu todas as tardes na Cachoeira dos Frades. Ela fica à entrada de um vale mágico em Friburgo, onde o frio era terrível. Hospedava-me num albergue precário arrendado por uma inglesa, que me emocionou por sua bondade. Hoje o prédio ainda existe (estive lá ano passado), mas não mais a inglesa.
Nossa travessia no Peru foi espetacular, percorremos remotos campos altos de um povo esquecido, cujo legado foram as ruínas de pedras ao longo do caminho. Foi quase exatamente na mesma data em que Hiram Bingham descobrira a cidade perdida de Machu Picchu, no século XIX.
O mais elevado ponto da Trilha Inca é o chamado Passo da Mulher Morta, acho que a 4.150m, uma longa rampa rochosa que desce depois para um campo arbustivo. O calor era tão forte que eu caminhava de sunga, mochila e bota, sem camiseta.
Lá embaixo vi alguns avisos que diziam algo como “Cuidado, Osos!” Pensei que havia ossos esparramados pelo chão e comecei a procurá-los. Meu espanhol deficiente não me avisou que lá havia o perigo de ursos, não de ossos. Estes animais às vezes apareciam e ameaçavam os andarilhos.
Ainda bem que não encontrei nem ossos nem ursos…

Acampamento na Trilha Inca, Peru – Fonte: Arquivo pessoal

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Sobre o autor

Alberto Ortenblad - Colunista

Nasci no Rio, vivo em São Paulo, mas meu lugar é em Minas. Fui casado algumas vezes e quase nunca fiquei solteiro. Meus três filhos vieram do primeiro casamento. Estudei engenharia e depois administração, e percebi que nenhuma delas seria o meu destino. Mas esta segunda carreira trouxe boa recompensa, então não a abandonei. Até que um dia, resultado do acaso e da curiosidade, encontrei na natureza a minha vocação. E, nela, de início principalmente as montanhas. Hoje, elas são acompanhadas por um grande interesse pelos ambientes naturais. Então, acho que me transformei naquela figura antiga e genérica do naturalista.

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