As Grandes Sereias

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Habitando regiões desconhecidas em mares distantes, seres imensos de formas que o tempo imemorial tornou redondas e macias, as baleias parecem pertencer antes à imaginação do que à realidade. Estranhos mamíferos marítimos que respiram e amamentam, nadam e mergulham enormes distâncias, convivem entre si e emitem longos cantos mágicos como se fossem sereias.

É surpreendente que haja tantos tipos de baleias e que elas sejam tão grandes. Existem mais de 80 espécies, com tamanho variando de menos de 10 até 30 metros e peso entre 10 e 180 toneladas. Para mim, isto significa que são animais muito bem-sucedidos, não fosse a predação humana através da caça, durante os últimos quatro séculos de mortandade.

As diferentes espécies de baleias (Fonte – wikipedia).

Como surgiram as baleias? Elas eram originariamente animais terrestres, à semelhança do pakiceto, um mamífero nada notável que evoluiu para um anfíbio mais versátil, o ambuloceto.

Da terra eles retornaram para a água, inicialmente nos estuários dos rios e depois cada vez mais dentro do mar. Tornaram-se esbeltos e aquáticos, como o basilosauro. Sua origem data de 50-60 milhões de anos atrás, logo depois do fim do período Jurássico, e a diferenciação de suas espécies, de 30-35 milhões de anos.

Ao longo de uma rápida evolução de talvez 20 milhões de anos durante o período Oligoceno, esses animais perdem os pelos e ganham gordura na pele, mudam os braços para nadadeiras, recolhem os membros traseiros, criam longas caudas, movem suas narinas para a cabeça, expandem suas vértebras para acomodar os pulmões e reposicionam os ossos do ouvido. Formidáveis máquinas de sobrevivência, aumentam de tamanho e se tornam os mais extraordinários seres marinhos.

Pakiceto (50 milhões anos).

Ambuloceto (50 milhões anos).

Kutchiceto (45 milhões anos).

Basilosauro (35 milhões anos).

Das baleias há duas ordens, a de barbatanas e a de dentes, embora alguns digam que só as primeiras sejam verdadeiramente baleias. Estas são mais variadas e numerosas, incluindo os grandes animais, como as baleias azul, fin e sei, que medem de 20 a mais de 30 metros.

Existe alguns cruzamentos híbridos entre essas espécies. As baleias azuis são os maiores animais de que se tem até hoje conhecimento. O maior dinossauro conhecido, que viveu há 150 milhões de anos, não pesava mais do que 90 toneladas, metade do peso dela quando adulta.

Estas baleias têm crânios simétricos, com dois orifícios para respiração no topo da cabeça e audição de baixa frequência – tipo 10 a 40 Hertz (ciclos por segundo), talvez a mais baixa entre os animais.

Os dentes usados para abocanhar e triturar o alimento das baleias dentadas.

As cerdas usadas para filtrar o alimento das baleias.

Sua audição não se desenvolveu devido à falta de necessidade de eco localização de suas presas. Elas possuem cerdas no lugar de dentes, que filtram a água para a captura de organismos minúsculos chamados krill, que são seu alimento básico.

Já as baleias com dentes, como as orcas e os cachalotes, possuem um só orifício na cabeça e audição de alta frequência, de até 325 mil Hertz. Os humanos distinguem sons de 20 a 20 mil Hertz – mas o teste que fiz comigo variou entre o mínimo de 50 e o máximo de apenas 8 mil. Elas praticam a eco localização (ou seja, sonar a partir do eco) para a caça de peixes e aves, focas e pinguins e até mesmo outras baleias.

O ouvido das baleias é interno e permite uma surpreendente audição direcional dentro d´água, uma qualidade notável. Quando mergulham, conseguem ficar longos períodos sem respirar devido a seu eficiente sistema circulatório e respiratório com baixos batimentos cardíacos. Lembre-se de que, como mamíferos, são dotadas de pulmões e precisam emergir para respirar.

Esquema do funcionamento da ecolocalização das baleias (Fonte – Castro & Huber).

O canto das baleias é uma manifestação maravilhosa. Ele é a sua língua, transmitida socialmente entre elas como é a nossa. Ele pode servir entre outras para a atração de parceiros sexuais, para a transmissão de informações ou para a manutenção da organização social.

As baleias, especialmente as jubarte, emitem sons que se organizam como longas canções, com alternância entre emissões graves e agudas, longas e curtas, parecendo às vezes mugidos, sirenes, assobios, bufos ou gorgulhos.

Chegam a durar de 10 a 20 minutos, sendo repetidas durante todo o dia. Sua intensidade é incrível, pois variam de 120 a 190 decibéis – o ruído da decolagem de um jato é de 120 dB e não há som acima de 195 dB. Eles podem ser ouvidos a uma centena de km.

Detalhes exteriores da baleia.

Dentro de uma mesma população, o canto é sempre o mesmo, por exemplo em todo o Atlântico Norte para as jubarte. Suas canções mudam lentamente ao longo do tempo e costumam se espalhar horizontalmente junto às populações vizinhas. Aparentemente, os cantos estão se tornando mais graves, indicando uma seleção sexual voltada para machos maiores, de voz mais profunda.

Peço-lhe o favor de ouvir uma gravação dessas estranhas canções, é impossível não se emocionar com sua língua viva e diferente. Os autores de ficção científica imaginam bizarros seres extraterrestres, mas se esquecem de que suas formas podem derivar de átomos de silício ou oxigênio, e não de carbono como as nossas, e serem portanto completamente distintas.

A Baleia Franca tem 18 metros e pode ser avistada no Brasil durante o inverno no litoral do Paraná.

Fico pensando que as baleias, como nós baseadas nas cadeias de carbono, parecem entretanto habitantes de um outro mundo, com sua inteligência, seu formato e seus hábitos extraordinários. Talvez sejam mais extravagantes do que a fantasia dos extraterrestres.

As baleias costumam ocupar áreas enormes, distribuídas por todos os oceanos, desde as águas polares até as tropicais. São em geral animais migratórios, como nos casos das baleias franca e jubarte, deixando as regiões frias ou polares no inverno para o parto e a alimentação das crias nas latitudes de clima temperado.

Mas nem sempre a sua movimentação é bem compreendida e, às vezes, elas pouco se movimentam, como acontece com as baleias de bryde. Elas nadam 100 km/dia e podem percorrer 25 mil km em um ano.

Baleia jubarte jovem caçada por um pesqueiro japonês (Fonte – Divulgação).

Algumas espécies têm um comportamento social complexo, com rituais de acasalamento e sistemas matriarcais, onde a unidade básica é uma única fêmea mais velha e suas famílias descendentes. Como as baleias podem viver de 50 a 100 anos, não é raro encontrar quatro ou cinco gerações vivendo conjuntamente.

No caso das ferozes orcas (que são uma espécie de golfinho), a unidade seguinte é o clã, que reúne vários grupos matriarcais, chegando a mais de 200 indivíduos. Porém as baleias jubarte praticam grupos pequenos e associações breves. As baleias são como nós, convivendo de forma flexível em diferentes sociedades.

Os golfinhos são também animais inteligentes e sociáveis, dotados de excelente eco localização nas suas muitas espécies, tantas quantas as das baleias. Existentes nas águas doces e salgadas, são caçados por sua carne, especialmente pelo Japão.

Animais brincalhões, praticam uma grande variedade de comportamentos – só o homem os possui em maior número – e podem ser treinados para tarefas complexas. Talvez sejam os mais simpáticos habitantes das águas.

O golfinho nariz de garrafa.

O boto rosa (Fonte – wikimedia commons).

Seus parentes botos são considerados versões mais primitivas, especialmente de água doce, nativos da Amazônia. Solitários, amistosos e inteligentes, são caçados por sua gordura.

Há muitas lendas associadas aos botos, especialmente de natureza sexual, pois seus órgãos são semelhantes aos dos humanos. Se você quiser enfeitiçar alguém num namoro, então consiga um olho de boto – é o mais forte dos amuletos do amor. Se o golfinho é mais elegante e talentoso, o boto é mais benigno e ingênuo.

É difícil saber quantas baleias existem, os dados são fragmentados por espécie e oceano e não totalizados. Cheguei a uma estimativa de pelo menos 300-550 mil, um número aparentemente alto – mas considere que os oceanos recobrem 70% da área do planeta e que muitas baleias vivem em áreas remotas ou polares, de difícil acesso. Acredito que sejam de fato mais numerosas.

Na realidade, elas estão infelizmente ameaçadas de extinção. Durante ¾ de século, 360 mil delas foram arpoadas (outra fonte chega a 2 milhões durante um século).

As baleias são caçadas por sua gordura, óleo e barbatanas. A baleia azul era abundante no início do século XX, mas sua população decaiu a ponto de correr risco de extinção no fim do século, quando sua pesca foi proibida. Na minha pesquisa, computei 2 a 3 mil grandes baleias mortas por ano, mas desconfio que o número seja bem maior.

Está servido desse delicioso petisco de carne de baleia?

A baleação se desenvolveu a partir do século XVII no Atlântico Norte, principalmente pelos escandinavos. Com a escassez das grandes baleias, voltou-se para a Antártida e o Pacífico, então com forte presença dos norte-americanos. No século XIX ficou claro que a caça às baleias avançava num ritmo que não poderia mais ser acompanhado pelo crescimento natural de sua população. As regiões oceânicas de caça foram-se esgotando, obrigando os baleeiros a maiores viagens no mar. Mas a resposta não foi infelizmente a conservação, e sim a modernização da pesca, com fábricas flutuantes e arpões acionados por canhões.

A baleação foi suspensa no mundo em 1986, porém o Japão, a Noruega e a Islândia se recusaram miseravelmente a assinar o acordo internacional. Estes países argumentam que a caça é parte de sua cultura. Existe mesmo na Islândia um predador chamado Kristjan Loftsson a quem cabe exclusivamente toda a caça do seu país.

A baleação no Brasil teve início no século XVII na Bahia, mas com o tempo as principais armações passaram a se concentrar no Sudeste e no Sul. Sua caça já é proibida no país há quase 40 anos. Não é incomum que as baleias jubarte venham morrer, por encalhe ou emaranhamento de rede, nas nossas praias de Santa Catarina, São Paulo e Rio de Janeiro.

Até o século XIX, as grandes baleias estavam relativamente seguras devido à sua velocidade rápida e à preferência pelo mar aberto. Entretanto, a introdução de métodos mais modernos de pesca, em especial o arpão explosivo, tornou possível abater baleias numa escala industrial.

Arpão com granada explosiva, abate de preferência fêmeas grávidas. Se não morrerem em 25 minutos, serão arpoadas novamente.

É importante considerar que, como todo animal grande, as baleias atingem a maturidade tardiamente, têm uma gestação longa e produzem apenas um filhote por vez. Isto significa que a taxa natural de crescimento de suas populações é baixa, aumentando seu risco de extinção.

Ao longo do último século, houve um aumento dramático de ruído nos oceanos devido à navegação. Este é um grande perigo, especialmente para as baleias de barbatanas, que se comunicam a baixas frequências. O ruído polui a comunicação entre machos e fêmeas receptivas, interferindo na sua reprodução.

A ação do homem está tornando as águas oceânicas mais quentes e ácidas. Isto está afetando a produção de krill, o minúsculo camarão que é a dieta básica das grandes baleias.

Além disto, elas existem preferencialmente em águas frias ou temperadas e o aquecimento está reduzindo a extensão do seu meio ambiente. A poluição por contaminantes das embarcações e dos continentes está também envenenando a vida marinha.

A baleia azul é o maior animal que existiu. É solitária, alimenta-se do krill e pratica uma dúzia de diferentes cantos. Hoje existem apenas dez mil delas.

Já foi dito que as baleias poderiam ser reconhecidas como as jardineiras do oceano. Elas fertilizam os mares com suas fezes ricas em ferro e nitrogênio, nutrindo a cadeia de fitoplanctons que é a base alimentar dos seres marinhos.

E, quando morrem, toda a imensa quantidade de carbono que contêm afunda, para só emergir lentamente numa centena de anos – contribuindo para reduzir o gás carbônico que acidifica os oceanos.

A escritora Katie Kitamura disse que o tempo no mar é mais lento do que em outros lugares, na terra ou no ar. Se de fato for, as baleias poderão morrer mais tarde.

Assim como as árvores, as baleias são fontes de vida, mesmo quando mortas. Assim como as árvores, os homens continuam a abatê-las, como se sua devastação fosse para sempre impune.

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Sobre o autor

Nasci no Rio, vivo em São Paulo, mas meu lugar é em Minas. Fui casado algumas vezes e quase nunca fiquei solteiro. Meus três filhos vieram do primeiro casamento. Estudei engenharia e depois administração, e percebi que nenhuma delas seria o meu destino. Mas esta segunda carreira trouxe boa recompensa, então não a abandonei. Até que um dia, resultado do acaso e da curiosidade, encontrei na natureza a minha vocação. E, nela, de início principalmente as montanhas. Hoje, elas são acompanhadas por um grande interesse pelos ambientes naturais. Então, acho que me transformei naquela figura antiga e genérica do naturalista.

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