2026 começa com uma notícia feliz nos meios montanhísticos nacionais: a sobrevivência de um rapaz perdido na região do Pico Paraná, o ponto culminante da Região Sul do Brasil.
Após cinco dias perdido na região da Serra do Mar paranaense, Roberto Farias Thomaz, de 19 anos, conseguiu, na manhã do dia 05 de janeiro, chegar na Fazenda CGH, em Cacatu, município de Antonina. Foram 20 km de caminhada e cerca de 1.850 metros de desnível descendo a serra na mata fechada.
Congratulações ao jovem Roberto Thomaz, que conseguiu escapar de uma situação que tinha tudo para dar errado. Muito errado. Basta recordar do trágico episódio que vitimou o experiente corredor de montanha francês Eric Welterlin no Pico dos Marins, em abril de 2018. O GPS do relógio Suunto que Eric levava no pulso registrou para a posteridade o tracklog chocante percorrido por ele em sua agonia para tentar escapar vivo da montanha. Por muito pouco, ele quase conseguiu.
E já que mencionei o Pico dos Marins, é praticamente certo que todos aqueles antenados na história do desaparecimento do escoteiro Marco Aurélio Simon naquela montanha, no longínquo ano de 1985, se lembraram imediatamente daquela triste história, até hoje sem desfecho, e traçaram os irresistíveis paralelos entre os casos.
De fato, pelo que foi informado nos meios de comunicação que estavam cobrindo esse caso no Pico Paraná, as duas situações apresentavam pontos em comum; o ponto central, obviamente, era o fato de que a pessoa perdida, inexperiente, acabou se perdendo justamente por ter ficado sozinha na montanha: Marco Aurélio, no Pico dos Marins, indo à frente do grupo escoteiro, e Roberto Thomaz, no Pico Paraná, sendo deixado para trás.
Como todos os dramas de montanha sempre magnetizam aqueles que são vidrados nesses assuntos, o paralelo entre ambas situações gerou até mesmo inevitáveis comparações entre as atitudes do “vilão” no caso Marco Aurélio, o chefe escoteiro Juan Bernabeu Céspedes, e a “vilã” no caso Roberto Thomaz, a jovem Thayane Smith: Juan teria permitido que Marco Aurélio descesse a trilha do Pico dos Marins sozinho, e Thayane teria deixado Roberto para trás, na trilha entre o cume do Pico Paraná e uma área de acampamento intermediária.
Há muitos pontos a serem esclarecidos nesse caso do Pico Paraná, que felizmente acabou bem, mas a questão óbvia é: não se deixa ninguém sozinho em qualquer ambiente natural potencialmente hostil e em terreno dificultoso, onde a orientação é difícil ou dúbia, principalmente para quem é inexperiente ou nunca esteve no lugar antes; quem sobe junto, desce junto. Não se terceiriza para “alguém que está vindo atrás” a responsabilidade (ou antes, a possibilidade) de acompanhar o parceiro retardatário inexperiente.
O caso do jovem Roberto Thomaz causou apreensão e expectativa. Quando chegou a boa notícia de que ele havia conseguido se salvar, descendo todo aquele desnível do Pico Paraná até a planície em Antonina, pelo vale do Rio Cacatu, fui conferir a geografia do local nas imagens de satélite. Lembrei-me do filme “Perdido na Montanha” (Lost on a Mountain in Maine), de 2024, que retrata o caso verídico de Donn Fendler, garoto de 12 anos que se perdeu nas florestas do estado do Maine em julho de 1939, descendo o Monte Katahdin; o menino sobreviveu durante nove dias em meio à natureza, sem comida, sapatos ou roupas adequadas, antes de seguir um riacho para fora da floresta, até chegar a uma casa.
Lembrei-me também da primeira vez em que me perdi na Mata Atlântica, numa grande ilha montanhosa do litoral brasileiro, em 1991: eu tinha 16 anos, e estava com mais dois amigos da mesma idade. O objetivo era cortar um trecho especialmente difícil de uma costa a outra da ilha, afastando-se do litoral alguns quilômetros rumo ao interior. A picada que seguíamos era muito tênue, acabamos nos confundindo em algum ponto e perdemos ela no meio da mata fechada, numa região erma. Ficamos horas e horas vagando pela densa floresta, varando mato na base do machete. Sem um mapa decente, sem bússola, sem referencial algum. O sol mal e mal aparecia entre as copas das árvores enormes. A serrapilheira chegava nas nossas canelas. Não havia como voltar.
Um dos companheiros sugeriu que nos separássemos para tentar encontrar algum vestígio de trilha em direções diferentes, pois a impressão era de que estávamos andando em círculos. Falei que se nos separássemos, o risco de nunca mais conseguirmos sair dali seria muito grande: ou um, ou dois ou os três acabariam se perdendo para sempre. Tínhamos que ficar juntos, os três.
No final da tarde, encontramos um riacho ínfimo, uma aguinha escorrendo silenciosamente por pedras cobertas de musgo. Começamos a seguir o curso do riacho, sempre descendo, abrindo caminho no mato com os machetes. A mão negra da noite nos alcançou, mas ainda tentamos seguir adiante, enfrentando a mata fechada. Quando ficou óbvio que não conseguiríamos mais avançar (só tínhamos uma lanterna), paramos e nos preparamos para bivacar. Foi uma noite bem ruim, sem fogueira, fria e com bastante umidade.
No dia seguinte, quando a luz da manhã começou a se filtrar pelas copas das árvores, continuamos nosso avanço sofrido seguindo aquele riacho, que já estava mais caudaloso, descendo até alcançarmos uma pequena planície, ainda na mata fechada, e, logo adiante, o litoral rochoso da ilha. O mapa básico que tínhamos nos indicou em que ponto da costa estávamos, graças à posição de duas ilhotas situadas em frente ao ponto onde saímos da floresta sombria. Estávamos próximos a uma praia habitada, onde havia trilha para outras praias. A provação havia terminado.
Ficar perdido na floresta é uma experiência intensa e profundamente angustiante. Todos os medos podem assaltar você, de uma vez ou isoladamente. Há uma sensação de perigo iminente, porém difuso. Você olha para o relógio no pulso e tem a impressão de que ele marca o tempo de um outro planeta sob a atmosfera de silêncio verde e opressor em que você está imerso. As árvores se fecham como dentes de um gigante vegetal, e cada sombra é uma emboscada, cada estalo de galho é uma risada seca. Quando cai a noite, a escuridão na mata não é apenas a ausência de luz, é uma substância densa e faminta que gruda na pele como óleo de motor usado. Algo ruim pode acontecer. Algo ruim provavelmente acontecerá.
Numa situação dessas, você tem que enfrentar todos os seus medos, racionais e irracionais. Focar no que realmente importa e se concentrar em sobreviver. Há um jogo em andamento, e se você não souber jogar vai ter que aprender. E rápido.
Um brinde a todos os que já passaram por isso e a todos que ainda vão passar. Que suas pernas não falhem, que suas botas não se estraguem e que suas lanternas não se apaguem.













5 Comentários
Excelente paralelo, Erasmo.
Bem pontuado sobre os desorientados seguirem os talvegues de rios.
Parabéns pelo artigo, Erasmo! Seu relato foi tão visceral que foi até possível compartilhar um pouco da angústia vivida nessas situações.
Parabéns pelo artigo, leitura envolvente e fluida. Assunto que cativa a todos que nos metemos nessas matas por paixão, por esporte, por imersão – real – na natureza. Todos estamos expostos a falhas, e aprender com elas, ainda melhor com os erros alheios é o que nos permite envelhecer e aprimorar. Tivesse o jovem Roberto permanecido na cabeceira da cachoeira, ou, ainda melhor, na parte mais elevada do vale, à margem do rio, teria sido encontrado no primeiro dia. No máximo, no segundo. Foram muitas as buscas nesse trecho por bombeiros e voluntários. Aos quais reforço meu reconhecimento pela dedicação e empenho.
Muito bom estes paralelos, leitura boa e informativa. Só gostaria de deixar minha revolta em relação aos parques naturais perigosos, não, “exigirem” o básico, lanterna, agasalho, comida a mais, água em quantidade (referencial para cada distancia) e informações, alguém que conheça no grupo. Para mim, isso ou um pouco disso, resolveria mais de 50% dos perdidos.
Obs. Orientação básica, se sentir, que está perdido, fique onde está.
Parabéns pelo relato, sempre bom ouvir/ler “histórias de montanha”. Faço votos por mais histórias contadas, onde podemos aprender, vivenciar e melhorar.
Seria interessante, também, um relato de tudo o que aconteceu, com os diversos relatos, da vitima, do grupo, do resgate, etc. Não desejamos que situações adversas aconteçam, mas, quando ocorridas, servem de aprendizado.
Boas trilhas a todos!!