TRAVESSIA TERRA BOA – CACATU

0

Diferentemente de outras investidas na Serra do Mar, nas quais praticávamos montanhismo exploratório, desta vez o objetivo era outro. A incursão ocorreu em um contexto de apreensão, motivado pelo desaparecimento de um turista na região do Pico Paraná: Alexandre Maoski, de 28 anos. Já se passavam dez dias desde o início das buscas realizadas pelo Corpo de Bombeiros e por grupos de resgate, todas sem sucesso. Para piorar, estávamos no auge do verão, com tempo francamente hostil: chuvas torrenciais e praticamente contínuas.

Diante desse cenário, eu e o amigo de longa data Paulo Fernando Marinho decidimos investigar o escabroso vale do rio Cacatu. O rio nasce no divisor de águas entre o Pico Paraná e o Caratuva, a primeira e a segunda montanhas mais altas do Sul do Brasil, com 1.877 m e 1.850 m, respectivamente.

Saímos de casa no dia 30/01/2003, no final da tarde, já debaixo de chuva, rumo à rodoviária de Curitiba. Pegamos o ônibus das 19h com destino a Terra Boa e, cerca de uma hora depois, desembarcamos na ponte sobre o rio Tucum, na BR-116. Dali, iniciamos a jornada sob chuva pela estrada de chão. Em poucos minutos, já estávamos completamente encharcados.

Parte alta do vale do Cacatu. Foto: Élcio Douglas

Entramos pela Fazenda do Kielse, que na época permitia passagem, e seguimos por uma trilha alternativa até interceptar a trilha clássica do Pico Paraná — um caminho que hoje já não existe mais. O frescor da chuva incessante, somado ao nosso passo firme, criou uma condição curiosamente favorável à caminhada. Sem intercorrências, avançamos resolutos até chegar ao A1 à meia-noite, onde acabamos acordando dois bombeiros que estavam acampados no local.
Montamos também o nosso acampamento. Na manhã seguinte, bem cedo, desmontamos tudo e fomos conversar com os bombeiros. Pareceram-nos bastante inexperientes em ambiente de montanha. Quando informamos que desceríamos pelo rio Cacatu, entenderam que falávamos do “Caratuva”. Percebemos que não
valia a pena insistir em explicações e seguimos nosso caminho. O tempo continuava fechado e
chuvoso.
Em cerca de meia hora alcançamos o divisor de águas e entramos à direita, abandonando definitivamente a trilha bem marcada, e os grampos de aço que levam ao Pico Paraná. No início da descida rumo à nascente do Cacatu, ainda observamos algum rastro tênue de equivocados, que mais adiante simplesmente sumiram. Em 47 minutos chegamos à nascente do Cacatu. Logo de início ficou claro que aquela descida não seria nada moleza.

De tempos em tempos, bradávamos para anunciar nossa presença, sem que houvesse qualquer resposta. Durante a forte descida, alternávamos constantemente entre o leito do rio e suas margens: ora pela direita, ora pela esquerda. O terreno era extremamente hostil. No leito, enormes rochas do tamanho de pequenas casas e inúmeras piscinas profundas dificultavam brutalmente a progressão. As margens eram compostas por gretas, barrancos instáveis e infinitos esqueletos de árvores mortas. A atmosfera era sombria e fantasmagórica,
intensificada pelo nevoeiro denso e pela chuva constante. Os perigos estavam presentes o tempo todo, sem trégua.
Ao nos aproximarmos da grande cachoeira, o cânion se afunilou ainda mais. Com o rio bem cheio, não foi possível seguir por ela, e optamos por contornar pela margem direita. O rugido era ensurdecedor. Na verdade, é um equívoco chamar aquilo de cachoeira. Trata-se mais de uma corredeira com forte inclinação, que se estende por várias centenas de metros. Mas não há quedas realmente verticais. Por conta dessa extensão, levamos cerca de uma hora e meia para superar o trecho.
Houve uma passagem particularmente perigosa: uma rampa inclinada, extremamente lisa, transversal ao rio, por onde escorria um filete de água que se precipitava no vazio, caindo diretamente no Cacatu. Não havia como contornar. A única solução foi se arriscar naquela travessia medonha, onde um simples escorregão significaria funeral. Superar essa rampa foi um enorme alívio.

Um dos trechos de corredeiras e lajes escorregadias. Foto: Elcio Douglas

Vencidas as corredeiras mais nervosas, o rio voltou a apresentar o manjado padrão de grandes rochas e piscinas profundas, com margens igualmente tenebrosas. Caminhávamos um tempo pelo leito até esquecer o quão péssimas eram as margens; depois, cansados do leito, voltávamos para elas — e nos arrependíamos. Foi nessa alternância entre o péssimo e o horrível que seguimos avançando, sob elevado estresse e esgotamento.
Já passava das 19h30 quando, no escuro, encontramos um local possivelmente “acampável”. Estávamos exaustos. Em onze horas de jornada, havíamos descansado apenas meia. Ao consultar a carta topográfica, constatamos que ainda estávamos acima da cota 500 metros. Chegamos a uma conclusão perturbadora: se não encontrássemos uma trilha, talvez não conseguíssemos alcançar a PR-340 no dia seguinte. Felizmente, o esgotamento era tão grande que essa preocupação não afetou nosso sono.
Na manhã seguinte desmontamos o acampamento e seguimos. Para nosso pavor, aferimos que, alternando entre as margens, em uma hora baixamos apenas 30 metros na altimetria. Encontrar uma trilha se tornou decisivo. Cerca de duas horas depois, ao cruzarmos da margem direita para a esquerda, finalmente encontramos a tão esperada trilha. Virei pro Paulo e disse: “Cara, devemos nos manter nesta trilha a todo custo”. Bem mais adiante ele até teve dúvidas quanto ao rumo que seguíamos, mas então o tranquilizei,
afirmando categoricamente que, aquele caminho, inevitavelmente nos levaria a um sítio ou diretamente à estrada.
Exatamente às 13h desembocamos na PR-340, bem ao lado do posto do 3º Pelotão da Polícia Ambiental do Cacatu. Que alivio e felicidade. Estávamos imundos e exaustos, mas tínhamos saído ilesos de medonha roubada. Percorremos 12km da BR116 até o divisor de águas entre Pico Paraná e Catatuva, e mais 15km até ali pelo temido vale do Cacatu, totalizando 27km. No posto, explicamos nossa missão e do quão longínquo vínhamos. Fomos recebidos de forma acolhedora. Nos ofereceram banho quente e café — uma hospitalidade fora do comum. Para completar, ainda nos levaram de viatura até Antonina. Um agradecimento especial ao cabo Angelo.

Elcio e Paulo no final da travessia em 2003. Foto: Elcio Douglas.

Local onde terminaram a longa travessia. Foto: Elcio Douglas.

Chegamos à rodoviária de Antonina às 14h50 e, por pura sorte, havia lugar num ônibus para Curitiba prestes a sair. Embarcamos, e assim terminou nossa busca frustrada, mas valeu pela travessia inédita (para nós), recheada de grandes desafios e muita aventura.
Infelizmente, no dia seguinte chegou a notícia de que Alexandre Maoski havia sido encontrado morto na trilha que desce do Itapiroca para o Cerro Verde — um local que descartamos por acreditar que já havia sido vasculhado exaustivamente, dada a obviedade do caminho e os vários dias de busca. Uma lástima. Ainda assim, ficou a certeza de que fizemos a nossa parte.
De forma totalmente despretensiosa, acabamos realizando a primeira repetição da Travessia Terra Boa / Cacatu, realizada originalmente em 1997 por Giancarlo, Gustavo e Lauro. A título de curiosidade acrescento que alguns dias depois desta aventura, as dez unhas dos dedos dos pés caíram, por andar o tempo todo com o pé encharcado. Também passei cinco dias delirando por conta de uma misteriosa febre alta, até descobrir a causa: uma íngua na virilha. A grande jornada, cobrou seu preço.

Início: 30/01/2003 20:00 – BR-116 na Ponte do rio Tucum – Campina Grande do Sul
Final: 01/02/2003 13:00 – PR-340 no 3º Pelotão da Polícia Ambiental do Cacatu – Antonina

Compartilhar

Sobre o autor

Élcio Douglas Ferreira é um dos maiores personagens do montanhismo paranaense. Experiente, frequenta nossas serras há mais de 35 anos, sendo responsável pela abertura de inúmeras trilhas e travessias. Foi um mentores da Travessia Alpha Crucis, considerada como a maior e mais difícil travessia entre montanhas no Brasil, que ele fez pela primeira vez em 2012. Possui experiência em alta montanha, já tendo escalado o Illimani na Bolívia e o Aconcágua na Argentina em poucos dias num esquema non stop impressionante.

Deixe seu comentário