Os Gigantes do Planeta

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Existe em nosso planeta uma cordilheira de onze mil km, ela faz um arco gigantesco entre o Ártico ao norte e o Atlântico ao sul. Existe também um abismo enorme, de onze mil metros, logo ao sul da Ásia. Surpreso? Sim, pois esses acidentes estão submersos, envolvidos pela escuridão do oceano. Os dois colossos se chamam Dorsal Meso-Atlântica e Fossas Filipinas.

Formados no duro e denso basalto, resultaram desses misteriosos e cataclísmicos movimentos tectônicos, entre 150 e 200 milhões de anos atrás. Mas não podemos, de fato, experimentá-los devido ás suas posições submersas. Quero lhe falar de outros dois colossos, as nossas maiores cordilheiras emersas: a mais alta delas nos Himalaias e a mais longa nos Andes.

I

Everest e Aconcágua.

Os gigantes da Ásia e América.

Mas acredito ser preferível introduzir antes o conceito de tectonismo. Já havia muito tempo que os cientistas não conseguiam explicar como a mesma geologia ou forma de relevo se reproduzia de maneira idêntica em diferentes continentes. Era também estranho que os mesmos fósseis animais ou vegetais fossem encontrados em regiões do planeta tão distantes entre si.

Chegou-se a acreditar que haveria alguma forma de comunicação subterrânea entre esses vestígios, como túneis ou passagens, que tivesse permitido a migração primeva das espécies. Mas foi o alemão Alfred Wegener quem teve uma intuição genial um século atrás, ao supor que eram surpreendentemente os continentes e não as espécies ou as rochas que migravam.

Ele supôs que no passado remoto as terras do planeta teriam formado um único corpo continental, chamado de Pangeia. Ao longo do tempo, Pangeia foi sendo sucessivamente fragmentada, gerando a atual distribuição dos continentes. Mas por que aconteceu essa separação? Porque, simplesmente, os continentes se moviam, afastando-se ou aproximando-se uns dos outros.

A deriva dos continentes ao longo do tempo geológico.

Ela explica como os fósseis podiam ser encontrados em continentes tão distantes.

Eles são menos densos do que as bacias marítimas e podem flutuar sobre o leito de rocha fundida sobre o qual estão assentados. Esta base é feita de magma móvel ou rocha fundida, pois o calor do interior da Terra a que esta está submetida causa um movimento de convecção, como o da água numa chaleira.

A crosta de Pangeia era fina e desigual, com linhas de fratura ao longo de suas placas sólidas. Através dela, foi impulsionado o movimento de tectonismo, ou seja, de movimentação dessas placas. Foi ele que formou as montanhas e os vales e que causou os terremotos e os vulcanismos. Como o deus hindu Shiva, que destrói e regenera, é o tectonismo que recicla o planeta. Um corpo sem tectonismo como a Lua é um corpo geologicamente morto.

São várias dezenas de placas, das quais meia dúzia de principais, encaixadas como num quebra-cabeça. Elas têm três tipos de movimento: convergente (de aproximação), divergente (de afastamento) e conservativo (ou paralelo).

No primeiro, geram dobramentos de que resultam cordilheiras e vales, como nos casos da Cordilheira dos Andes e da Falha de San Andreas na Califórnia. No segundo caso, abrem uma fenda que se alarga, como a que foi criada na formação do Oceano Atlântico. E, no terceiro, o atrito do deslizamento vertical ou horizontal dessas placas ocasiona terremotos, como no Chile e nas Filipinas.

As placas tectônicas e os movimentos a que estão sujeitas. Veja as ações entre placas oceânicas e continentais e entre duas placas continentais ou duas oceânicas.

Acho mais emocionante o choque entre placas continentais e oceânicas. Estas são mais densas, mergulham por baixo das primeiras e as soerguem, no que se chama de subducção. Enquanto a placa densa afunda de volta no magma, a outra se dobra, formando cadeias rochosas. No encontro entre duas placas oceânicas, a mais pesada delas afundará, gerando fossas. No choque entre duas placas continentais, ambas apenas se dobrarão.

O Brasil pertence à Placa Sul-Americana, com 32 a 44 milhões km². A maior placa é a do Pacífico, com 70 a 100 milhões km² (por alguma razão, seus tamanhos variam conforme as fontes). Nossa placa se move para oeste, no sentido do Pacífico, afastando-se portanto da Dorsal Meso-Atlântica.

Porém a posição central do país faz com que não seja afetado pelos movimentos tectônicos, que acontecem nas bordas e enfraquecem no centro. É por isso que nosso relevo é tão antigo e estável. Ao longo do tempo, a erosão rebaixou nossas montanhas, que não foram renovadas pelo tectonismo, sendo portanto pouco elevadas.

II

A Cordilheira dos Andes é um caso clássico de subducção, quando a Placa de Nazca chocou-se contra a Sul-Americana. Como a primeira era densa e oceânica, a segunda dobrou-se nos enrugamentos andinos. A Cordilheira teve uma origem relativamente recente, e segundo se suspeita estranhamente súbita, entre 40 e 85 milhões de anos (há teorias divergentes, para bem mais e bem menos).

Os Andes são formados pelo andesito, uma rocha vulcânica que veio do interior do magma, sendo portanto metamórfica. Formam a maior cordilheira do mundo, com 7 a 8 mil km que se estendem desde o Caribe até a Patagônia, numa área de 3 milhões km². Isto resultou da enorme extensão do empurrão da Placa de Nazca, que possui 10 milhões km². Os povos andinos que a habitam são descendentes dos incas, compondo etnias como os quéchuas e os aimarás do Peru, Bolívia, Chile e Argentina, bem como os ingas da Colômbia.

A cordilheira é às vezes muito estreita, como entre o Chile e a Argentina, por vezes abriga um enorme planalto entre seus braços distantes 700 km, como no Altiplano boliviano, e às vezes se ramifica nas formações oriental e ocidental, ao longo da Colômbia e da Venezuela. Existem lugares em que ocorrem três ou mais cordões, criando uma sucessão de vales elevados.

Os Andes têm uma altitude média de 4 mil metros e abrangem inúmeras cordilheiras locais, onde estão naturalmente os pontos culminantes de cada um dos sete países andinos:

País Cordilheira Ponto Culminante Altitude
Venezuela Mérida Pico Bolívar 4.981 m
Colômbia Sierra Nevada S. Marta Cristóbal Colón/Simón Bolívar 5.700 m
Equador Occidental Chimborazo 6.267 m
Peru Blanca Huascarán 6.768 m
Bolívia Occidental Sajama 6.542 m
Argentina Andes Aconcágua 6.962 m
Chile Andes Ojos del Salado 6.893 m

Nota: Há até hoje dúvida de qual é o ponto culminante da Colômbia, pois os dois picos são próximos. Existem suspeitas de que o Ojos del Salado seja mais elevado do que o Aconcágua.

A extensão  geográfica e a amplitude altimétrica dos Andes favoreceram uma variedade de climas e de vegetações. O clima varia do úmido ao semiárido ao desértico. Os Andes têm forte influência no clima do continente a oeste, bloqueando a umidade do Pacífico e favorecendo o clima desértico no interior. A leste, no sentido do Brasil, retêm a umidade do Atlântico sobre a Amazônia e ajudam a distribui-la ao sul da região.

Os rios que correm para o Pacífico não são tão extensos, devido à proximidade dos Andes ao litoral. Talvez apenas o Magdalena na Colômbia e o Orenoco na Venezuela sejam expressivos. Para os rios no sentido oposto, sua influência não é tão grande, pois os Andes encontram-se muito afastados do Atlântico. Mas vale lembrar os incríveis lagos andinos – entre vários, o Nahuel Huapi na Argentina, o Llanquihue no Chile e o Titicaca e Poopó na Bolívia. Em muitas situações, você pode fazer travessias entre eles.

Na cobertura vegetal predominam as estepes, porém existem formações arbustivas e até arbóreas, com os belos coigües e lengas. Nos países mais ao norte cresce uma exuberante floresta andina, mas ao sul predominam os panoramas desérticos. Esses ambientes acolhem os magníficos animais andinos, como os guanacos, os flamingos, os zorros colorados, os pumas e as águias chilenas.

Os esplêndidos animais andinos – llama.

Zorro.

Viscacha.

Condor.

Os panoramas andinos evoluem desde os esplêndidos Parque Nacionais de Torres del Paine e de Los Glaciares ao sul; o Deserto e a Puna de Atacama, deslumbrantes regiões argentinas e chilenas altas e áridas; o Salar de Uyuni com seu infinito planalto de sal, o Lago Titicaca, a mais alta bacia navegável do mundo, e o impressionante Altiplano recoberto por campos ocres, todos os três bolivianos; as geleiras e os vulcões dos trechos meridionais e equatorianos; as florestas colombianas e as yungas argentinas; e, sobretudo, as serranias como a Cordilheira Branca do Peru, a Avenida dos Vulcões do Equador, a Serra Nevada da Venezuela e a Cordilheira Real da Bolívia.

Os Andes abrigaram inúmeras civilizações antigas, durante algo como 45 séculos – Chavin, Nazca, Moche, Tiwanaku, Chimu. A maior delas foi naturalmente o Império Inca. Foi a derradeira entidade política andina antes da conquista espanhola. Era um mosaico de línguas, culturas e povos, que já se encontrava em decadência quando da chegada de Pizarro. Se o Império desapareceu, pelo menos sua capital Cuzco e sua fortaleza de Machu Picchu ainda podem ser apreciadas com assombro.

III

A origem da Cordilheira do Himalaia é recente, datando de algo como 40 milhões de anos. Ela resultou de uma fantástica travessia, quando a Placa Indo-Australiana migrou para o norte e se chocou com a gigantesca Placa Euroasiática – imagine, a primeira tinha 45 milhões de km² e a segunda, quase o dobro.

A placa que colidiu deslizou para baixo, empurrando a outra para cima e causando os dobramentos incrivelmente fraturados da cordilheira. A placa inferior continua se movendo, razão pela qual a cadeia eleva-se à razão de 5 milímetros/ano e mostra-se geologicamente ativa, com presença de terremotos – como o da década passada no Nepal.

O percurso de 60 milhões de anos e 6 mil km que fez a Placa Indo-Australiana chocar-se com a da Placa Euro-Asiática.

Os Himalaias compõem-se na realidade de três cadeias, evoluindo paralelamente de sul para norte: primeiro a do sopé da cordilheira ou Shivalik, depois a dos Pequenos Himalaias ou Himachal (com altitude média de 4 mil metros) e finalmente a dos Grandes Himalaias ou Himadri (com cerca de 6 mil metros médios). Isto significa que, em certas regiões, como no oeste na Cachemira, ela é muito mais larga do que em outras, como perto do Tibete, variando de leste a oeste de 150 a 400 km.

Visão dos Himalaias de uma plataforma espacial. Notar a variação de altitude entre as colinas iniciais, a cadeia central dos Pequenos Himalaias e finalmente os Grandes Himalaias ao norte.

O Himalaia é a mais alta cordilheira do planeta: veja que nos Andes há quase uma centena de picos acima de 6 mil metros; no Himalaia, há mais de cem além de 7 mil. Todos os quatorze picos com mais de 8 mil metros, eternamente ambicionados pelos alpinistas de altitude, são abrangidos pela cadeia estendida, desde o Everest até o Shishapangma. Na realidade, o conjunto da cordilheira inclui três outras formações, no interior ou na fronteira de sete países:

Cordilheira Países Pto. Culminante Altitude
Himalaia Butão, Nepal, Índia, China e Paquistão Everest 8.848 m
Karakorum Paquistão, China e                                         Índia K2 8.611 m
Indo Kush Paquistão, Afeganistão e Tajiquistão Tirich Mir 7.708 m
Pamir Paquistão, Afeganistão, China e Tajiquistão Kongur 7.649 m

 

A cordilheira é formada pelo granito, assentado sobre camadas de xisto e gnaisse – todas elas sendo rochas duras. Ela se espalha de oeste para leste, desde o Indo ao Bramaputra, formando um arco suave de cerca de 2.600 km de extensão, numa área de 600 mil km². Estes são grandes rios asiáticos que nascem nas terras altas do Tibete e fluem através do Paquistão e da Índia. Note que o Ganges, rio sagrado dos indianos, é um afluente do Bramaputra. Os maiores glaciares do mundo, como Siachen (China), Baltoro (Paquistão) e Khumbu (Nepal) encontram-se nessa região.

Os Himalaias ocupam o centro-sul da Ásia, ao norte das planícies indianas e ao sul dos desertos chineses.

Nada menos do que 2 bilhões de pessoas habitam as bacias fluviais originadas na cordilheira. Porém a população residente de fato na cadeia montanhosa é naturalmente pequena. O povo por excelência dos Himalaias são os sherpas budistas. Mas outras etnias da Índia ao Paquistão – baltis, bhots, dardos, sikins, tamangs, cachemires – praticam entre outras religiões principalmente o hinduismo e o islamismo.

Os sherpas emigraram do Tibete mais de ½ século atrás. Sua grande aptidão para a altitude pode ser explicada pela capacidade pulmonar ampliada e pelo gene super-atleta EPAS1. Ele favorece a produção da proteina da hemoglobina, permitindo o eficiente uso do oxigênio. Os sherpas são os guias preferenciais para a alta montanha, devido à sua lealdade, resistência e cordialidade.

O gigantesco gradiente de altitude acompanha desde as planícies aluviais da Índia e os férteis planaltos do Terai, até as florestas dos planaltos rochosos, as encostas florestadas do sopé da cadeia e a vegetação arbustiva e alpina das suas zonas elevadas, chegando por fim ao mundo de rocha e gelo das grandes altitudes.

Acho que o Butão, onde esse desnível é de todos o mais acentuado devido ao pequeno tamanho do  país, demonstra a notável diversidade dos Himalaias, a meu ver maior do que a nossa. Nas altitudes sobrevivem esses animais resistentes, estóicos e peludos, capazes de longos jejuns e de grandes tolerâncias ao frio, espécies raras de felinos, caprinos, antílopes e símios.

O yak criado pelos sherpas.

O arredio leopardo das neves.

O macaco langur dourado.

O faisão monal do Nepal.

O estranho antílope takin do Butão.

O raro e solitário panda vermelho.

O Himalaia influencia todo o clima da Ásia, ao protegê-la do frio polar que vem do norte e bloquear as chuvas de verão das monções sobre as zonas temperadas do sul. Entretanto, o derretimento dos gaciares pelo aquecimento global deverá interferir na alimentação dos rios na estação seca, já que são sua maior fonte de água. Os países da região poderão passar por ciclos de inundações seguidas de estiagens. Como em tantos outros lugares do mundo, inclusive o nosso.

O Himalaia talvez seja a mais bela região do planeta, com suas movimentadas e impossíveis cadeias nevadas; seus glaciares, lagos e rios de degelo, com colorações peculiares; sua natureza vegetal diversa, desde os ambientes subtropicais até os alpinos; seus inesquecíveis vilarejos remotos habitados por povos exóticos.

O Nepal provavelmente concentra o maior fluxo de visitantes, com os treks do Annapurna e do Everest e as regiões de Mustang e de Langtang. As montanhas e lagos do Ladakh indiano, os cênicos vales da Cachemira paquistanesa e o reino encantado do Butão são alguns esplêndidos atrativos. A Karakorum Highway (KKH) é a perigosa e espetacular estrada de 1.300 km passando por trechos da milenar Rota da Seda, entre China e Paquistão.  Mas você pode passar a vida caminhando pelos Himalaias sem nunca chegar a conhecê-lo completamente.

De suas escarpadas alturas, o Himalaia assistiu no sul ao desenvolvimento das civilizações asiáticas do Egito, da Mesopotâmia e da Pérsia, iniciadas 3 ½ milênios atrás. Ao norte, viu surgir mais tarde a do Tibete, matriz cultural dos sherpas. Mas a cultura que mais perto chegou do seu território teria sido a de Harapa, contemporânea às demais – a chamada Civilização do Indo. Ela foi mais extensa do que as outras, ocupando partes do Afeganistão, Índia e Paquistão.

Esse não é um livro de História, mas talvez seja interessante saber como Harapa declinou. Uma das várias razões foi que, como não conhecia a irrigação, seu suprimento de água dependia das monções. Porém estas diminuiram no tempo, tornando o clima mais seco e árido e levando a população a se dispersar para o leste, no sentido do Ganges. As monções erráticas contribuiram para ciclos de inundação e de estiagens que impediram a agricultura. Veja você como a vida se repete.

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Sobre o autor

Nasci no Rio, vivo em São Paulo, mas meu lugar é em Minas. Fui casado algumas vezes e quase nunca fiquei solteiro. Meus três filhos vieram do primeiro casamento. Estudei engenharia e depois administração, e percebi que nenhuma delas seria o meu destino. Mas esta segunda carreira trouxe boa recompensa, então não a abandonei. Até que um dia, resultado do acaso e da curiosidade, encontrei na natureza a minha vocação. E, nela, de início principalmente as montanhas. Hoje, elas são acompanhadas por um grande interesse pelos ambientes naturais. Então, acho que me transformei naquela figura antiga e genérica do naturalista.

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