Baturité

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Não estou dirigindo, e então escrevo à medida que Alessandra e eu nos aproximamos por baixo do Maciço de Baturité. Noto que ele se apresenta de forma linear, com cristas alongadas e corcovas suaves, no sentido norte. Avisto as antenas do Pico Alto, acima das paredes rochosas que emergem da mata. O sopé da serra é ocupado por morrotes florestados e depois vem a encosta, já no maciço principal. A massa vegetal é impressionante, apesar de árvores no início medianas. Finalmente, penetramos estrada acima no topo e encontramos as bromélias, os coqueiros e a mata atlântica, junto com o frio que pela primeira vez sentimos no Nordeste.

Panorama do Maciço de Baturité (Fonte – Ymbu Agroflorestal).

Depois, leio um texto que diz, resumidamente: A maior parte da serra apresenta extensa e densa mata úmida, que faz da região um enclave úmido no meio do sertão, apreciado pela beleza cênica. O relevo funciona como barreira aos ventos, ali se estabelecendo um clima diferenciado. A umidade condiciona a formação do solo espesso e da floresta úmida. Eis, pois, a representação dessa paisagem singular, em contraste com os sertões circundantes do semiárido nordestino.

O Maciço de Baturité começou a ser povoado no século XVII, após a expulsão dos holandeses. Os povoados foram sendo fundados no século seguinte, quando os índios jenipapo e canindé foram dizimados. Ele inclui treze municípios cearenses, dos quais apenas 4 ou 5 são de fato serranos. Mesmo Baturité, a cidade mais populosa e centro comercial, chega à encosta da serra, não a seu interior.

A população regional soma 250 mil habitantes, mas as cidades são em geral bastante pobres. Mesmo a pequenina Guaramiranga é acanhada. Porém a região tinha sido muito rica (e, em especial, Baturité), quando do apogeu do café no século XIX. Hoje existe o cultivo de banana e de frutas na serra e a criação de gado no sertão.

Mapa da região do Maciço de Baturité.

O maciço é relativamente estreito, com talvez 50 km de comprimento e área de 600 km². Seu centro turístico é o vilarejo de Guaramiranga, que ocupa uma posição elevada, a 865 metros – você estará sempre subindo para chegar a ele e descendo ao sair dele. A mim pareceu o mais úmido e florestado dos municípios da serra, e também o mais gracioso.

Dentre as regiões turísticas não litorâneas do Ceará, suponho que Baturité seja a mais popular. Ela tem sido procurada pelo público de Fortaleza, distante apenas 100 km, para a construção de casas de veraneio. É visível que suas cristas têm sido desmatadas, porém até o momento apenas moderadamente. Existe desde a década de 1990 uma APA com 32 mil hectares, mas ainda falta um plano de zoneamento que garanta a integridade da serra.

Representação do Maciço de Baturité.

A rocha de Baturité é o mesmo granito de Uruburetama, porém com resultados muito diferentes. Não aparecem pedras expostas com desenhos peculiares, pois houve a formação de cristas, colinas e lombadas planas alongadas (também com presença de arenitos) e os altos são sempre recobertos por vegetação arbustiva. Neste aspecto, Baturité lembra os tabuleiros de Martins, região serrana no vizinho Rio Grande do Norte.

A vegetação exuberante da mata úmida de Baturité.

Mas a floresta do maciço é de todas que conheço no interior do Nordeste a mais exuberante. Há trechos de densa mata atlântica, com ipês e jatobás, e até mesmo espécies amazônicas, como os frondosos visgueiros e mungubas. Ela aparece às vezes associada à caatinga arbórea e arbustiva, que naturalmente predomina nas baixas e quentes altitudes do sertão.

Esses matos acolhem aves variadas, inclusive pernaltas, e mamíferos como a jaguatirica e o gato maracajá, o veado campeiro e catingueiro, o gambá e o bugio. Guaramiranga é um termo indígena que representa uma garça vermelha ou, como dizem na região, o uirapuru laranja. A cobertura vegetal e a ocupação ainda limitada na serra talvez permitam a sobrevivência da fauna.

(a) – O uirapuru-laranja.

(b) – O gato maracajá.

(c) – O saí verde.

(d) – O tamanduá mirim.

Num certo sentido, o maciço funciona como um refúgio ecológico, pelo menos enquanto a sua natureza resistir à ocupação humana. Pertence à bacia do Rio Aracoiaba – ele recebe os riachos serra abaixo e tem sua foz no Rio Choró, que deságua no mar depois de 200 km. Acredito que ambos sejam perenes. Aracoiaba é também nome do município onde está o formidável pontão da Pedra Aguda.

O turismo em Baturité costuma ser grandemente contemplativo, nesse aspecto sendo de novo distinto do de Uruburetama. Acredito que as três atrações mais visitadas sejam o Mosteiro dos Jesuítas, o Pico Alto e a Rota Verde do Café. O Mosteiro é um prédio amplo e elegante, onde funcionou um seminário a partir de sua construção no início do século XX. Funciona hoje como um hotel e local de retiro. Há duas conhecidas trilhas que partem dele.

O Mosteiro dos Jesuítas, voltado no alto da serra para a vila de Baturité

O Pico Alto é o terceiro mais elevado do Ceará, depois dos dois situados na Serra Branca. Sua parede voltada para o sertão é impressionante. É um local muito procurado, devido a seu fácil acesso pavimentado e seu estupendo panorama, especialmente no pôr do sol. É possível circular ao redor de suas antenas, com diferentes visuais do entorno.

O café teria sido pioneiramente introduzido no país em Baturité, pelo militar Francisco Palheta. Ele obteve as primeiras mudas na Guiana Francesa, levando-as ao Pará, de onde migraram para o Ceará.

Café arábica de sombra, teve grande sucesso, que permitiu aos filhos dos cafeicultores serem finamente educados no Rio de Janeiro. Seu acesso à cultura urbana os desinteressou do plantio, que acabou decaindo, sendo superado pelo Sudeste nos séculos XIX  e XX. Mas existem até hoje fazendas em quatro dos municípios da serra.

Este é o panorama visto da frente do Pico Alto, a 1.115 metros de altitude.

Entretanto, a presença desses três locais fáceis não significa a inexistência de trilhas longas. A região apresenta várias, principalmente voltadas para as cachoeiras. A seguir, um resumo dos principais percursos:

Principais Trilhas no Maciço de Baturité

Atrativos Local Distância Descrição
1.Cachoeira São Paulo Hotel Vale das Nuvens em Guaramiranga 4 km trilha média para cascata dentro da mata íngreme, com belos poços e corredeiras ao final
2.Poço da Veada Centro da cidade de Guaramiranga 6 km caminho acidentado e penoso com poço profundo na chegada
3.Cachoeira do Jitó Hotel Cantinho das Flores em Baturité 2 km trilha fácil na mata fechada, até uma delicada queda em patamares
4.Cachoeira Furada Comunidade Areia em Pacoti 9 km percurso complicado, com travessia de rio, passagem por caverna e resgate no final
5.Cachoeira Redonda Posto Saíra em Mulungu 3 km trilha média em antiga estrada na mata, com trecho ao longo do rio
6.Cachoeira da Escada Centro da vila de Mulungu 10 km trajeto íngreme na mata, com cachoeira com duas quedas
7.Cachoeiras do Cipó e do Perigo Rodovia Guaramiranga  a Baturité ½ km quedas turísticas com muita visitação e bons poços para banhos
8. Trilha do Caboclo Chalé Nosso Sítio em Pacoti 1½ km situada em parque de aventura, caminho suave que passa por velha casa de taipa
9. Trilha Mata de Cocais Mosteiro dos Jesuítas 3 km subida fácil dentro de mata de babaçu, com poço no final
10. Trilha da Caridade Mosteiro dos Jesuítas 3½ km rampa média em colina florestada, até as ruínas de antigo mosteiro, com ampla vista da região

 

Veja que há trilhas difíceis, com trechos úmidos e rochosos inseridos na mata ou com caminhos íngremes em colinas florestadas. Elas partem dos municípios de Guaramiranga, Pacoti (que é bem próximo), Baturité e Mulungu. Os acessos são relativamente rápidos, pois as vilas são conectadas por estradas pavimentadas.

(a) – Cachoeira do Sítio São Paulo, alcançada no final por trilha íngreme no interior da mata (Fonte – Divulgação).

(b) – A Cachoeira do Cipó em Guaramiranga é muito popular devido a seu acesso curto e fácil (Fonte – Divulgação).

Das cachoeiras, apenas a do Perigo é realmente alta, com 84 metros – sua vizinha Cipó não ultrapassa 35. Mas, mesmo quando a queda não é alta, costuma contar com bons poços para banho na sua corredeira ou na sua base. Junto com a paisagem verde, o clima ameno e as vistas panorâmicas, as águas de Baturité contribuem para o encanto desta bonita região serrana.

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Sobre o autor

Nasci no Rio, vivo em São Paulo, mas meu lugar é em Minas. Fui casado algumas vezes e quase nunca fiquei solteiro. Meus três filhos vieram do primeiro casamento. Estudei engenharia e depois administração, e percebi que nenhuma delas seria o meu destino. Mas esta segunda carreira trouxe boa recompensa, então não a abandonei. Até que um dia, resultado do acaso e da curiosidade, encontrei na natureza a minha vocação. E, nela, de início principalmente as montanhas. Hoje, elas são acompanhadas por um grande interesse pelos ambientes naturais. Então, acho que me transformei naquela figura antiga e genérica do naturalista.

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