Serrotes

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O arenito é uma rocha surpreendente, em que a chuva e o vento esculpem diferentes formas expressivas. As rochas areníticas parecem contar histórias, como se tivessem estado vivas durante algum passado próximo. Esses relatos ecoam dos perfis rochosos que falam através de sua geometria delicada. Talvez os arenitos sejam rochas aéreas, pois têm uma leveza que parece alçá-las acima do solo.

(a) – Arenito – Vale do Monumento (EUA) (Fonte – Divulgação).

(b) – Granito – Monólito de Quixadá (CE).

Não costumamos associar tais manifestações aos granitos. Como rochas forjadas no denso e quente interior da Terra, possuem formas compactas, nada expressivas. Se contassem alguma história, seria sobre o escuro e ancestral passado geológico. Porém às vezes pode surgir uma aparência nova, diferente nos granitos: ela costuma acontecer através dos serrotes ou monólitos. Apesar de sua rigidez, neles o granito se contorce em expressões únicas, comparáveis às do arenito.

É sobre eles que quero lhe contar. Existe no sertão central do Ceará uma região muito peculiar. Nela, antiquíssimas intrusões graníticas afloraram a partir de ½ bilhão de anos atrás, acima da superfície baixa e plana do sertão. São chamados de relevos residuais, pois resistiram à erosão que aplainou todo o seu entorno entre ciclos de chuva e seca. Eles se destacam com surpreendentes desenhos de estranha beleza, formando um exótico cenário rochoso na áspera caatinga. Eles são os serrotes de Quixadá.

O serrote da Pedra da Galinha, o mais conhecido da região.

Foi a pecuária que atraiu os primeiros colonos para Quixadá no século XVIII, época um tanto tardia devido à sua situação remota no interior do Ceará. Os índios jenipapo e canindé foram inicialmente catequizados, depois miscigenados e por fim expropriados com o avanço do gado – do qual se tornaram vaqueiros. Mais tarde, o cultivo do algodão trouxe relativa prosperidade e Quixadá foi emancipada de Quixeramobim. Hoje ela é o principal centro comercial do sertão central cearense.

(a) – Estes são os chamados currais ou jardins de pedras.

(b) – Currais ou jardins de pedras.

É uma região muito quente, com máximas próximas a 40⁰C, e muito plana, inferior a 200 metros. É recoberta pela dura caatinga baixa e arbustiva, só ocorrendo vegetação arbórea na Serra de Santo Estêvão. Seus solos são rasos e secos, costumam encharcar na chuva e ressecar na estiagem. Banhada pelo Rio Sitiá, pertence à bacia do Banabiú, que forma um açude e é um curso importante no Estado, maior afluente do Jaguaribe.

O fato notável sobre Quixadá é a existência de 260 km², ao longo de 25 km no sentido SW-NE, de um conjunto de rochas com perfis sugestivos. Eles formam o que os geólogos chamam de batólito, ou seja, uma grande massa rochosa intrusiva. Esse batólito é ligado ao de Quixeramobim, a 50 km de distância.

Eles aparecem tanto isolados como reunidos no que são chamados de currais ou jardins de pedras. Não são pedras extensas ou elevadas, pouco ultrapassando a altura de 100 metros. Mas sua presença dispersa na planície é surpreendente e os variados desenhos que assumem é notável. São mais de meia centena deles, sólidos fantasmas de uma geologia improvável.

No início do século, foi criada lá uma reserva com cerca de 30 mil hectares, batizada como Monumento Natural dos Monólitos de Quixadá. Um MONA tem por objetivo preservar um elemento natural único, raro e belo, ainda que pequeno e limitado. Exemplos conhecidos são a Pedra do Baú (SP), o Morro do Pão de Açúcar (RJ), a Gruta do Rei do Mato (MG) e o Vale dos Dinossauros (PB).

Suaves formas abauladas dos monólitos de Quixadá.

Mais tarde, a reserva foi tombada pelo IPHAN, sob o comentário (resumido) de que seja por sua beleza contagiante, seja pela aparência extraordinária, singular, bizarra ou curiosa e também pela forte representatividade desse conjunto nas formações similares em outras partes do país, seja por sua localização privilegiada e em destaque na paisagem, seja por constituir magnífico exemplo deste tipo de afloramento rochoso, merece ser protegido por tombamento.

Apesar desta avaliação, não me parece haver preocupação com a conservação da área, que não se encontra cercada, fiscalizada ou sequer sinalizada. O acesso é livre, existindo dezenas de trilhas interessantes, em geral curtas, praticadas pelos visitantes entre as rochas. Um dos mais importantes monólitos encontra-se completamente dentro da área urbana, é a Pedra do Cruzeiro.

A Pedra do Cruzeiro fica no centro e é usada nas festividades de Quixadá (Fonte – doity.com.br).

O espaço presta-se também ao cicloturismo e ao voo livre. Este é curiosamente realizado a partir de um santuário, localizado no Morro do Urucu, a 550 metros de altitude. O calor do sertão é absorvido pelas rochas, formando uma bolha de ar que resulta em esplêndidas correntes térmicas. Elas são impulsionadas pelo forte vento da região.

Hoje o Havaí do voo livre é Quixadá, diz um praticante. Apesar de Quixadá ser baixo e plano, a partir de lá são atingidas enormes distâncias, em longos voos que chegam em mais de cinco horas até o Piauí – e o recorde mundial, acima de 400 km, pertence a Quixadá.

Queria terminar mencionando o Açude do Cedro, que Dom Pedro II queria construir, mas foi de fato realizado em Quixadá durante a República. Ele foi uma importante obra de combate contra a seca. Não estão distantes os enormes açudes de Orós e Castanhão, o maior do país.

 

O Açude do Cedro com a Pedra da Galinha ao fundo.

Até por sua elegante construção, o Cedro é maravilhoso, seu espelho azul chegando até a grama da encosta da Pedra da Galinha, o mais notável serrote da região. Contemplar a mágica e serena água tão escassa e a figura impossível da rocha no alto da barragem é uma experiência muito especial.

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Sobre o autor

Nasci no Rio, vivo em São Paulo, mas meu lugar é em Minas. Fui casado algumas vezes e quase nunca fiquei solteiro. Meus três filhos vieram do primeiro casamento. Estudei engenharia e depois administração, e percebi que nenhuma delas seria o meu destino. Mas esta segunda carreira trouxe boa recompensa, então não a abandonei. Até que um dia, resultado do acaso e da curiosidade, encontrei na natureza a minha vocação. E, nela, de início principalmente as montanhas. Hoje, elas são acompanhadas por um grande interesse pelos ambientes naturais. Então, acho que me transformei naquela figura antiga e genérica do naturalista.

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