Geoparques

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Quando estava no Ceará anos atrás, vim a saber sobre o conceito de geoparque, que voltei a encontrar numa viagem ao Rio Grande do Norte. Depois, li que o Sul também teria seu geoparque. Então, procurei entender um pouco melhor esse conceito, que de alguma forma já conhecia na prática.

Os europeus e, curiosamente, os chineses operavam diversos geoparques por inspiração da UNESCO, órgão da ONU voltado para a educação e a cultura. Em 2004, as 25 unidades então existentes se reuniram para formar uma rede mundial cujos membros cooperassem entre si. Existem hoje cerca de 200 geoparques, distribuídos por quase 50 países.

Rede internacional de geoparques da UNESCO, concentrada na China e na Europa.

Segundo a UNESCO, um geoparque é uma área unificada onde locais e paisagens de importância geológica ou cultural são geridos numa conceção integrada de proteção, educação e desenvolvimento sustentável. Confesso que, até hoje, tenho suspeitas sobre esse tipo benevolente de desenvolvimento e que nunca enxerguei muita coerência nos geoparques que pude visitar.

O primeiro geoparque brasileiro surgiu na Chapada do Araripe, uma extensa área sedimentar de arenito, ocupada historicamente pelos índios cariri. Seu ambiente árido foi capaz de preservar inúmeros fósseis do Período Cretáceo, a cerca de 100 milhões de anos atrás – desde árvores e flores até peixes, répteis e até dinossauros.

São hoje dez sítios, alguns dos quais de importância geológica, outros de interesse paleológico e outros ainda de memória religiosa e cultural. A meu ver, há poucos sítios e nem todos são tão importantes.

Mapa do Geopark do Araripe do Ceará.

 

O Geopark Araripe abrange seis municípios cearenses, numa área de 3.800 km², contendo uma expressiva população de 550 mil pessoas, metade delas em Juazeiro do Norte. Sua sede é em Crato. Os atrativos são naturalmente distantes entre si e a mim parecem desconexos, como o precioso Museu de Paleontologia de Santana e o Memorial da Colina do Horto do Padre Cícero – comparados com a floresta petrificada de Missão Velha, a Cascata do Lameiro de Crato e a Ponte de Pedra de Nova Olinda.

(a) – A Floresta Petrificada.

(b) – As águas das Batateiras.

(c) – A Pedra Cariri.

(d) – E a Ponte de Pedra são quatro dos nove geosítios do Geopark.

Mas já se disse que a missão do geoparque seria (adaptado) relacionar as pessoas com seu território, agregando elementos de pertencimento e identidade, com respeito ao patrimônio natural e cultural, a inclusão social e a sustentabilidade. Esses objetivos estão aparentemente sendo perseguidos pela educação ambiental e os seminários; as oficinas, estágios e palestras; as visitas e os roteiros na natureza; a capacitação profissional e os estudos científicos.

(a) – O Santanaraptor do passado remoto.

(b) – E o Padre Cícero no passado recente, ambos são figuras emblemáticas do Geopark.

Durante cinco anos as comunidades do Seridó no Rio Grande do Norte desenvolveram um plano para criar lá um geoparque. Produziram um inventário do patrimônio, estabeleceram o diálogo com a população e pleitearam sua candidatura junto à UNESCO. Em 2022, quase dez anos depois, a região foi final e oficialmente aceita.

O Seridó, como o Araripe, é também uma chapada, porém com presença de rochas cristalinas. A região escolhida para o Geopark Seridó é formada por granitos antiquíssimos, com alguma presença de terrenos sedimentares e vulcânicos. Abrange 2.800 km² em seis municípios. O mais povoado deles é Currais Novos, que contribui com 40% da população de 115 mil pessoas e abriga a sua sede.

Mapa do Geopark Seridó.

Os atrativos escolhidos foram novamente diversificados: além de marcos geológicos ou geográficos como o Pico do Toró, o Vale Vulcânico e o Cânion dos Apertados, surgem também locais de interesse histórico (a Serra da Rajada, onde houve um massacre indígena), religioso (o Morro do Cruzeiro, local de peregrinação) ou econômico (o Açude Gargalheiras e a Mina Brejuí). São no seu conjunto mais interessantes do que os de Araripe.

(a) – O Poço dos Poscianos.

(b) – O Açude Gargalheiras.

(c) – O Morro do Cruzeiro.

(d) – E o Cânion dos Apertados.

Mas eu diria que o mais surpreendente geossítio entre todos é o de Xique-Xique, com rochas de todas as naturezas, onde o homem antigo executou há 9 mil anos notáveis painéis rupestres. Lá pequeninas imagens vermelhas cheias de animação como que devolvem com seus gestos as cenas vividas por aqueles que já morreram.

(a) – As pinturas rupestres de Xique Xique em Carnaúba de Dantas.

(b) – Pinturas de Xique-Xique.

Outras regiões no Brasil com atributos naturais entenderam que seria possível pleitear a chancela de um geoparque. Uma delas foi a dos cânions do Sul, entre o Rio Grande e Santa Catarina. Foi novamente um processo longo, com doze anos para o início do inventário, a formação do consórcio de municípios e a aprovação final da UNESCO.

Desta feita, são sete municípios, sendo três do RS e quatro de SC. A área do Geopark Caminhos dos Cânions do Sul é de 2.800 km², para uma população de 75 mil moradores, com sede em Praia Grande, SC. Praticamente todas as cidades são minúsculas, com exceção do balneário litorâneo de Torres, que corresponde a mais da metade do total.

Mapa do Geopark Caminho dos Cânions.

Os sítios serão principalmente dispostos ao longo da enorme escarpa onde as gargantas dos cânions foram sendo esculpidas pelos derrames basálticos e pela ação dos rios. A vegetação é a úmida mata atlântica, com presença de belas araucárias, e os rasteiros campos de cima.

Você já sabe, os geossítios serão tanto de interesse paisagístico e geológico, como científico e cultural. Evidentemente, os maravilhosos cânions de Itaimbezinho e Fortaleza foram incluídos, bem como furnas e morros, dunas e rios, mirantes e cachoeiras.

O Cânion Fortaleza, talvez o mais bonito do país (Fonte – wikimedia commons – Paula Aina Bueno).

O Morro do Carasal, uma caminhada confortável (Fonte – Geoparque Caminho dos Cânions).

Os critérios de aceitação desses projetos exigem ações no sentido da educação, do desenvolvimento, da pesquisa e da sustentabilidade. A cada quatro anos, a UNESCO revê a situação dos geoparques – eles podem obter o green ou yellow card, conforme a avaliação. Eventualmente, um geoparque relapso merecerá o red card e virá a ser descadastrado, depois de tanto esforço.

O Parque da Guarita de Torres a beira mar (Fonte – wikimedia commons).

O Rio Tigre Preto corre por baixo dos cânions (Fonte – toptripadventure.com.br).

Você deve estar curioso pela ausência dos famosos cânions catarinenses de Bom Jardim da Serra. A UNESCO impõe que todos os municípios participantes estejam conectados por estrada. Entretanto, esses cânions ocupam uma região de fato diferente – no futuro, um novo geoparque poderá surgir à volta de Bom Jardim, São Joaquim e Urubici. Lembro que, no caso do Seridó, um dos municípios não foi aceito e, por essa razão, a importante área de Caicó não pôde ser incluída.

O curioso é que a condição de geoparque não acarreta nenhuma vantagem financeira, fiscal ou ambiental. É apenas uma chancela, ou seja, um aval ou aprovação por um conhecido organismo supranacional. Como um título de nobreza. A que ninguém aparenta dar valor e que todos de fato desejam.

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Sobre o autor

Nasci no Rio, vivo em São Paulo, mas meu lugar é em Minas. Fui casado algumas vezes e quase nunca fiquei solteiro. Meus três filhos vieram do primeiro casamento. Estudei engenharia e depois administração, e percebi que nenhuma delas seria o meu destino. Mas esta segunda carreira trouxe boa recompensa, então não a abandonei. Até que um dia, resultado do acaso e da curiosidade, encontrei na natureza a minha vocação. E, nela, de início principalmente as montanhas. Hoje, elas são acompanhadas por um grande interesse pelos ambientes naturais. Então, acho que me transformei naquela figura antiga e genérica do naturalista.

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