Em um marco histórico para a conservação ambiental na América Latina, uma campanha mundial de arrecadação de fundos conseguiu comprar e proteger 133 000 hectares de território no Vale de Cochamó, um dos destinos mais emblemáticos para escaladores de grandes parede e amantes da natureza. A iniciativa, liderada por uma coalizão internacional, a Conserva Puchegüín, arrecadou mais de 78 milhões de dólares em doações de milhares de apoiadores de 21 países.
As terras adquiridas correspondem ao Fundo Puchegüín, a maior propriedade privada de Cochamó, na Região de Los Lagos. Esse território, que até então estava vulnerável a especulação imobiliária, projetos industriais de alto impacto e turismo não regulado, foi colocado à venda. Mas a mobilização civil conseguiu reverter a situação e garantir sua proteção para as gerações futuras.
Um “Yosemite” chileno salvo pela sociedade
Conhecido por suas imponentes paredes de granito cercadas por florestas milenares, rios e glaciares, o Vale de Cochamó é frequentemente comparado ao Vale de Yosemite, nos Estados Unidos. Esse cenário único atrai escaladores de várias partes do mundo, em busca das rotas de big wall que passam dos mil metros de extensão e aventuras em um ambiente natural praticamente intocado.
O esforço de conservação protege a biodiversidade local, que inclui bosques de alerce, espécies endemicas de animais como o monito-do-monte e da rara rã-de-Darwin além do veado-huemul, que figura no brasão nacional do Chile. Mas também assegura a continuidade das práticas culturais e modos de vida das comunidades que habitam a região.
Conservação além da proteção ambiental
Desde abril de 2024, a campanha tem mobilizado doadores, organizações ambientalistas e alpinistas do mundo todo. Ela contou inclusive com atletas renomados que visitaram a região para escalar e chamar a atenção para a causa.
O novo modelo de gestão, agora sob responsabilidade da Fundación Conserva Puchegüín, prevê que até 80 % da área seja destinada à conservação estrita, com o restante sendo usado de forma sustentável, incluindo atividades como ecoturismo e agricultura familiar. Além disso, a iniciativa faz parte de um ambicioso plano de criação de um corredor biológico de grande escala entre Chile e Argentina, conectando mais de 1,6 milhão de hectares de áreas protegidas.
Cochamó segue aberto e acessível
Embora grande parte do vale agora esteja sob proteção, o acesso público a suas belezas naturais continua uma prioridade. A organização Valle Cochamó, junto com os proprietários locais, trabalha para garantir que o acesso a rios, cascatas, áreas de escalada e trilhas permaneça gratuito, um direito amparado pela lei chilena, ao mesmo tempo em que promove o uso responsável do território por visitantes.














