O aumento expressivo no número de acidentes em áreas de montanha na França reacendeu o debate sobre quem deve arcar com os custos das operações de busca e resgate. Autoridades francesas estudam a possibilidade de aplicar multas pesadas a alpinistas e esquiadores que precisem ser socorridos após comportamento considerado imprudente. Essa é uma mudança significativa em um sistema historicamente baseado na gratuidade do serviço, assim como ocorre no Brasil.
Na semana passada, o Tribunal de Contas da França apresentou ao Senado um relatório detalhando o impacto financeiro das operações de resgate em montanha. Segundo o documento, uma única missão envolvendo helicóptero e equipes especializadas custa, em média, 10.780 euros (cerca de R$ 67.000), mais que o dobro do valor registrado há dez anos.
Segundo informações, em 2024, quase 10 mil operações de resgate foram realizadas no país, um aumento de 18% em comparação com 2018. O crescimento acompanha a popularização dos esportes de montanha, incluindo modalidades de maior risco como o montanhismo mais técnico e o esqui fora de pista. Aliado a isso está a instabilidade das condições de gelo em razão das mudanças climáticas, que têm tornado o ambiente ainda mais imprevisível.

O número de visitantes e resgates aumentou significativamente nos últimos anos nas montanhas da região. Foto: Hans / Pixabay
O relatório conclui que o atual modelo de resgate gratuito, financiado pelo poder público e executado principalmente por unidades especializadas da polícia e dos bombeiros, tornou-se insustentável.
A influência das redes sociais
Outra questão apontada pelas autoridades é um novo perfil de praticantes. Muitos visitantes, atraídos por imagens e relatos nas redes sociais, aventuram-se além de seus limites técnicos e físicos e sem equipamentos. Entre os casos que mais repercutiram estão tentativas solitárias de escalada no Matterhorn sem equipamento inadequado, ou a percepção de que a rota normal do Mont Blanc é uma caminhada acessível a qualquer turista bem condicionado.
Assim a proposta em discussão prevê a cobrança parcial ou total dos custos em situações de negligência grave. No entanto, definir critérios objetivos é um desafio. As condições nas montanhas mudam rapidamente, e decisões são frequentemente tomadas com base em avaliações subjetivas feitas pelos próprios praticantes.
Atualmente, os resgates na França são gratuitos tanto para moradores quanto para visitantes. A eventual cobrança representaria uma mudança estrutural na política pública de segurança em montanha.
Outros países já adotam modelos diferentes. Na Suíça, na Itália e em diversos destinos do Himalaia, o resgate é pago, independentemente da experiência do alpinista. Nesses locais, é obrigatório possuir seguro que cubra despesas de resgate e atendimento médico. Essa abordagem passa agora a ser considerada também pelas autoridades francesas.
Debate se estende à Espanha
Assim como na França, o resgate é tratado como serviço público gratuito na Espanha. Entretanto, em algumas regiões espanholas, patrulhas ligadas à polícia local têm respaldo legal para multar pessoas que se aventuram sem equipamento adequado ou que ignoram alertas meteorológicos. Ainda assim essas penalidades raramente são aplicadas.
Entidades de montanhismo alertam para possíveis efeitos colaterais da cobrança. Segundo associações ouvidas por veículos especializados, a imposição de taxas pode desencorajar praticantes feridos a acionar o resgate por receio dos custos, agravando quadros que poderiam ser resolvidos com atendimento imediato.
As estações de esqui
O aumento de acidentes não se limita ao montanhismo. Estações de esqui também enfrentam crescimento nas ocorrências. Em destinos como Val d’Isère, nos Alpes franceses, campanhas vêm sendo intensificadas para alertar sobre excesso de velocidade e comportamento imprudente nas pistas. Algumas áreas estudam inclusive limitar a velocidade em determinados trechos.
Os acidentes entre esquiadores cresceram 8% na França, número semelhante ao aumento do fluxo de visitantes. No entanto, as evacuações por helicóptero dispararam 40% no mesmo período, indicando um aumento significativo na gravidade dos incidentes.














