A busca pela foto perfeita (muitas vezes destinada às redes sociais) tem levado a um número crescente de acidentes fatais, não só no Brasil, mas ao redor do mundo todo, especialmente em ambientes naturais. Um estudo publicado na revista científica Journal of Travel Medicine acende um alerta: tirar selfies em locais de risco já se tornou um problema de saúde pública global.
Intitulado “Selfie-related deaths using web epidemiological intelligence tool (2008–2021): a cross-sectional study”, o trabalho foi conduzido por Manuel Linares, Laura Santos, Joaquín Santos, Cristina Juesas, Miguel Górgolas e José-Manuel Ramos-Rincón e analisou dados coletados ao longo de 13 anos e meio.
De acordo com o estudo, foram registrados 379 mortes em 292 incidentes relacionados a selfies entre 2008 e 2021. O número cresceu significativamente ao longo dos anos, passando de apenas três casos em 2013 para um pico de 68 mortes em 2019.
Apesar de uma queda em 2020, atribuída à pandemia de Covid-19 e à redução das viagens, os dados voltaram a subir em 2021, indicando que o fenômeno permanece relevante.
Jovens são as principais vítimas e ambientes naturais são o principal cenário
A pesquisa mostra que a idade média das vítimas é de 24,4 anos, com maior incidência entre adolescentes e jovens adultos. Cerca de 60% das vítimas são homens, embora estudos indiquem que mulheres tiram mais selfies — um contraste que levanta questionamentos sobre comportamento de risco.
Ambientes naturais aparecem como palco frequente dessas tragédias. Entre as principais causas de morte estão: quedas de altura (49,9%), incluindo penhascos e cachoeiras; acidentes de transporte (28,4%), muitos envolvendo trens; e afogamentos (13,5%).
As quedas em locais elevados — típicas de trilhas, mirantes e montanhas — lideram o ranking, evidenciando o perigo de buscar ângulos extremos para fotos.
Turistas mais vulneráveis
O estudo também aponta diferenças entre moradores locais e viajantes. Cerca de 37% das vítimas eram turistas, que tendem a assumir mais riscos, especialmente em busca de imagens “impactantes”.
Segundo os autores, esse comportamento está associado ao desejo de “parecer descolado” nas redes sociais e obter engajamento por meio de curtidas e comentários.
A maior parte das mortes foi registrada na Índia (26,4%), seguida pelos Estados Unidos (10,3%) e Rússia (8,7%). O Brasil também aparece na lista, com 17 casos registrados no período analisado.
Os pesquisadores destacam que, apesar de relativamente recente, o fenômeno das mortes por selfies tem crescido de forma consistente e ainda recebe pouca atenção na literatura científica e nas políticas de prevenção.
Eles recomendam que profissionais de turismo e saúde orientem viajantes sobre práticas seguras, além de sugerirem campanhas educativas e sinalização em áreas de risco.
“Os viajantes estão assumindo riscos perigosos que não podem ser justificados pelo número de seguidores no Instagram que possam ganhar”, alertam os autores.












