Durante décadas, repetimos inumeras vezes, quase sem parar, que o Brasil é o país do futebol. A frase acabou virando identidade nacional, objeto de propaganda, orgulho e, às vezes, até uma prisão para os demais esportes. E ainda que o Brasil definitivamente não seja mais o país do futebol, esse esporte segue sendo uma paixão brasileira. Contudo, talvez ele já não seja suficiente para explicar tudo aquilo que o Brasil pode ser no mundo esportivo.
Um país enorme, de dimensões continentais, com belas montanhas, falésias e paredes gigantes, rampas, muitastérmicas, vento, juventude inquieta e uma cultura outdoor em expansão, pode ser também:
- O país da escalada!
- O país do parapente!
- O país da asa delta!
- O pais do Hike and Fly!
- O país dos esportes de montanha!
E talvez esse futuro esteja mais perto do q parece!!!
Nos últimos anos, a escalada brasileira deixou de ser apenas uma prática de nicho, restrita a pequenos grupos de apaixonados, para se tornar uma modalidade em crescimento real. A entrada da escalada no programa olímpico mudou a percepção do público, atraiu novos atletas, profissionalizou treinamentos e fortaleceu ginásios pelo país.
O q antes era visto por muitos como uma aventura alternativa passou a ser reconhecido como esporte de alto rendimento, com técnica, preparação física, estratégia, calendário competitivo e formação de base.
Curitiba já ocupa um lugar de destaque nessa transformação, qunado recebeu uma etapa da Copa do Mundo de Escalada, evento inédito na América Latina. Agora pense: quando uma cidade brasileira recebe alguns dos melhores escaladores do planeta, não está apenas sediando uma competição, mas sim dizendo para uma nova geração: esse esporte também é nosso!
E essa nova geração já está aparecendo…
Atletas brasileiros disputam mundiais juvenis, campeonatos Pan-Americanos, Sul-Americanos e eventos internacionais com resultados cada vez mais consistentes. Na escalada de velocidade, o país já quebra muitas barreiras importantes. No boulder e na escalada guiada, os brasileiros já começam a frequentar finais, pódios continentais e competições de alto nível. Na paraescalada, o Brasil também aparece com força, mostrando um dos caminhos mais bonitos do esporte moderno: inclusão, desempenho e superação no mesmo muro.
O voo livre, por sua vez, talvez seja um dos esportes em q o Brasil já é potência há muito tempo, embora nem sempre receba o reconhecimento q merece.
Enquanto o grande público olha para gramados e arquibancadas, pilotos brasileiros cruzam centenas de quilômetros sobre o interior do país, quebram com frequencia recordes mundiais, disputam campeonatos internacionais e transformam lugares como Quixadá, Tacima, Andradas, Castelo, Governador Valadares, Baixo Guandu, Brasília, Jaraguá, Sapiranga, Terra Rica, Araxá, Tangará e tantas outras cidades, que muitas veszes mal ouvimos falar, em referências mundiais dos esportes aéreos.
No parapente, o Brasil não está apenas crescendo, já é referência continental e internacional.
O crescimento do hike and fly talvez seja um dos símbolos mais fortes dessa nova fase. A modalidade une voo livre, montanhismo, corrida, estratégia e resistência, exatamente a interseção entre a montanha e o céu. E o Brasil já tem um nome abrindo caminho nesse cenário: Gabriel Jansen Rabello, o Gabe. Curitibano, escalador, ultramaratonista e piloto de parapente, ele se tornou o primeiro brasileiro a completar o X-Pyr, uma das provas mais difíceis do mundo, atravessando os Pirineus entre a Espanha e a França. Em 2025, foi o representante brasileiro no Red Bull X-Alps, a prova mais icônica do hike and fly mundial, cruzando os Alpes a pé e voando de parapente. Mesmo estreando entre os melhores do planeta e sendo relativamente novo no esporte, Gabe chegou a ocupar posições de destaque durante a prova, a liderando por dois dias e mostrou que o Brasil também pode competir em alto nível nessa modalidade extrema, q talvez seja uma das expressões mais completas dos esportes de montanha.
Nas competições tradicionais de parapente, o domínio brasileiro já é consolidado. Veja: Em 2024, no 6ºPan-Americano realizado no Pico do Gavião, em Andradas, o Brasil venceu no geral, no feminino e por equipes. Foi uma demonstração de força. Não apenas um bom resultado isolado, mas uma certeza: temos pilotos, temos lugares, temos organização e temos tradição.

Alexandre Dio Germani, Tiago Rodrigues Pereira e Túlio Subirá, no podium dominado por brasileiros no Pan de 2026.
Dois anos depois, em 2026, no 7º Campeonato Pan-Americano de Parapente FAI, realizado em Castelo, no Espírito Santo, o Brasil fezum repeteco do feito e ainda ampliou o domínio, alºem de ser novamente campeão por equipes, teve o melhor pilotos da competição, Alexandre Dio Germani, e ainda colocou Tiago Rodrigues Pereira e Túlio Subirá no pódio, formando um top 3 inteiramente brasileiro. No feminino, Marcella Uchoa também levou o título.
Ou seja: no mesmo campeonato, o Brasil venceu no individual masculino, no feminino e por equipes. Não foi apenas um bom resultado. Foi total domínio esportivo, uma verdadeira surra!
E isso aconteceu em casa, em Castelo, um dos grandes palcos do voo livre brasileiro, reforçando uma ideia que ainda parece ousada para quem olha de fora, mas já é evidente para quem vive o esporte: o Brasil não é promessa no parapente. O Brasil já é uma potência mundial.
Na asa delta, os feitos também impressionam. O Brasil acumula recordes de distância, títulos nacionais fortes e presença constante em mundiais. Aliás, o próximo mundial da Asa Deltas, será sediado no Brasil, na cidade de Andradas, no sul de Minas.

Os pilotos Marcelo Prieto “Cecéu”, Rafael Barros e Rafael Saladini quando quebraram o recorde mundial, voando 581,6 km!
O piloto q decola de uma rampa brasileira não está apenas praticando um esporte. Está dialogando com o relevo, com o calor, com o vento e com um território imenso, talvez um dos melhores do planeta para voar.
O mais curioso é q a escalada e o voo livre carregam uma vantagem q o futebol já não tem: ainda estão em construção no imaginário popular e nas conquistas.
Isso pode parecer uma fraqueza, mas é uma oportunidade.
O futebol brasileiro nasceu de clubes, campos de várzea, ídolos, rádio, televisão e uma narrativa nacional. A escalada e o voo livre podem crescer com ginásios, clubes, escolas, competições, turismo esportivo, redes sociais, transmissões digitais e uma geração que busca experiências mais intensas do q apenas assistir.
Há também uma mudança cultural acontecendo.
Crianças e adolescentes querem desafios diferentes. Adultos procuram saúde, natureza, comunidade e pertencimento. Famílias buscam atividades fora dos shoppings. O turismo de aventura cresce. As cidades começam a entender que esporte não é só estádio. E o Brasil, com sua geografia privilegiada, tem uma vantagem competitiva natural.
Temos falésias, montanhas, serras, cânions, campos, ventos, térmicas e clima.
Temos atletas talentosos.
Temos clubes, federações, confederações, escolas, ginásios, rampas, organizadores e empreendedores.
Temos eventos se profissionalizando, atletas se destacando e um público que começa a descobrir que aventura não é irresponsabilidade. Aventura pode ser educação, disciplina, segurança, técnica e projeto de vida.
Mas para q o Brasil se torne de fato uma potência ainda maior da escalada e do voo livre, não basta talento individual.
É preciso estrutura!
Mais centros de treinamento. Mais formação de base. Mais professores capacitados. Mais segurança jurídica para áreas de voo e escalada. Mais apoio a atletas. Mais mídia. Mais marcas envolvidas. Mais eventos bem organizados. Mais pontes entre esporte, turismo, educação e meio ambiente. Mais informação para os órgãos públicos, que insistem em ver esportes ditos de aventura, como algi de gente irresponsável, e inclsuive impedindo que menores pratiquem o esporte, como no caso do Parapente, onde a ANAC não permite o voo para menores de 18 anos.
O futebol se tornou gigante no Brasil pq foi contado todos os dias. A escalada e o voo livre também precisam ser contados. Precisam de histórias, personagens, transmissões, rankings, documentários, colunas, vídeos, patrocínios e ídolos.
O que não aparece, não inspira. E o que não inspira, não cresce.
Por isso, talvez a pergunta não seja se o Brasil deixou de ser o país do futebol. A pergunta melhor é: por que aceitar ser apenas isso?
Um país que tem crianças escalando em muros olímpicos, jovens disputando mundiais, pilotos cruzando 500 ou 600 quilômetros em voo livre, mulheres vencendo competições internacionais, atletas da paraescalada subindo ao pódio e cidades capazes de receber eventos mundiais, não pode continuar visto por uma lente tão estreita.
O Brasil pode não ser mais o país do futebol. Mas pode ser o país da escalada. Pode ser o país do parapente. Pode ser o país da asa delta. Pode ser o país de quem sobe, de quem voa, de quem descobre q o esporte também acontece na parede, na montanha, na rampa e no céu.
E, se depender das conquistas recentes, esse futuro já começou!











