Eu não tenho resistência a repetir trilhas, por princípio. Muitas e muitas vezes subi o Corcovado de Ubatuba, com o suor a empapar a roupa, observando a mudança que a altitude induz na vegetação e apreciando a paisagem espetacular que tamanha elevação, tão próxima do mar permite. Nessas décadas de pernadas que acumulo, reconheço que alguns trajetos demandam esforço físico bem superior à média. Por vezes, o que exacerba o desgaste é a altimetria somada, o frio intenso e cortante, a pouca disponibilidade d’agua, como no caso da Serra Fina Full, na qual atacamos todas as montanhas próximas à travessia clássica, mais que dobrando a altimetria do desafio. Em outros momentos, a vegetação espinescente e agreste se mostra o maior óbice, como no caso de algumas travessias na Serra do Mar do Paraná. Nessa serra, a maritimidade adiciona mais um complicador para o montanhismo com o tempo instável, sujeito a mudanças mais ou menos bruscas e frequentes. A visibilidade pode ficar bastante reduzida e, mesmo sem chuva, a combinação de orvalho na vegetação com trilhas mais fechadas faz com que o montanhista encharque as roupas com razoável frequência. Na travessia que irei relatar aqui, o “crux” a ser superado se apresenta no primeiro dia, com a chegada ao Marins, tendo passado pelo Focinho de Cão (Curiaco), Maria e Mariana.
A partir do Marins, concluir a travessia é “apenas” a questão de fazer a travessia clássica, em um dia e de cargueira. A distancia remanescente e o peso da cargueira tornam esse segundo dia desgastante, sem dúvida. Porém, ao cotejar com os esforços do primeiro dia, a percepção muda inteiramente. Apesar de que, ao acampar no Marins no primeiro pernoite, o montanhista já ter galgado 1 7 50 m na vert ical , respondendo por cerca de 70 % da altimetria total, enquanto caminha 47% dos 22,8 km dessa travessia. Não apenas a maior parte da subida se concentra no primeiro dia, mas a qualidade das subidas muda substancialmente. No dizer do Douglas: “afie as unhas, para subir precisa enfiar os dedos na terra como se fosse tatu, para escalar encosta acima”. Licenças poéticas à parte, até alcançar o Focinho de Cão, a subida é desse nível, mesmo. A inclinação arrefece um pouco, após o Focinho, mas a vegetação desse trecho compensa com sobra esse pequeno alento. Vejo que estou divagando, vamos por partes.
O Douglas me convencera a repetir a subida, agora com toda a equipe original. No afogadilho do abrir de uma janela de tempo bom, depois de tanto esperar, fizemos a primeira subida em trio: eu, Douglas e Kleyton. Na correria, por diversos motivos, restou de fora amigos que participaram do processo de conquista; gente que participara desde os preparativos para a primeira tentativa: Amanda, Guilherme, e Will. A nova incursão trazia oportunidade de termo o grupo completo e procuramos ajustar data para isso. Infelizmente, a Amanda se comprometera com uma travessia da Petrópolis – Teresópolis em um dia e não lhe seria possível postergar. Tentamos reprogramar a data, porém infelizmente não era mais possível conciliar as folgas, jornadas de trabalho para outra data. Buscamos a alternativa de alguém para “fazer as vezes” dela na travessia dos Arcanjos, mas a saúde da mãe dela deu uma fraquejada e a coisa ficou realmente inviável. Na travessia Petrópolis – Teresópolis, eles conseguiriam estar em SP na manhã de domingo. Nossa melhor previsão era madrugada de segunda. Paciência.
Do Paraná viria uma trupe de peso: Cláudio Macedo, Erick Fernando, Vilmar (Dindo), Guilherme Willian, partiriam na véspera para chegar na base do Marins a tempo de descansar umas boas horas antes do começo da pernada. De Cotia, 3 de 13 vinha o Rafael Santos, de São Paulo, o Douglas Garcia e o Willian Marcelino da Silva zinho. Para não dar margem ao azar, subi de Santos na véspera e pousei na casa dos meus pais. Providenciamos as reservas para o acampamento no cume do Marins e para a travessia Marins – Itaguaré.
Ao longo da sexta, recebemos informes da viagem dos amigos do Paraná e fizemos os ajustes finais nas mochilas. Eu subira alguns equipamentos extras, haja vista o intenso frio que se prometia para o final de semana. Peguei uma fita em anel fechado de 2 metros e um outra de 10 metros, tubular. Esses itens, mais cadeirinhas, mosquetões e escadas de fita me pareciam suficiente para os lances técnicos. Apesar de não entender como necessário, coloquei na mochila 60 metros de corda, por solicitação do Kleiton, corroborada pelo Douglas. Reiterei que não subiria aquele trambolho pelo peso desnecessário. Ao final, essa corda só pesaria na minha bagagem até a Pousada do Poço Curiaco, pois não subiria a serra nem na minha mochila nem na cargueira de ninguém.
Dia 1
Nos reunimos ao Kleiton no posto na entrada da cidade A conquista de uma travessia inédita, em um dos berços do montanhismo paulista, cobrou alto em esforço e entregou muito em aprendizado. Na primeira vez subimos com furadeira, ancoragens, marreta, cadeirinhas, cordas de diferente comprimentos, nessa vez, sabendo o que nós aguardava, tratamos de otimizar bem os equipamentos. Uns bons metros de fitas tubulares, mosquetões simples e uma escada de fita, com 6 degraus.
Às 0h41 do dia 14/6/2025 partimos da Pousada Poço do Curiaco, onde deixamos os veículos aos cuidados da D. Ofélia, simpática senhorinha e de seu f ilho Rivail, cruzamos o ribeirão Piquete pelas pedras, sem sequer molhar os calçados. Na outra margem, iniciamos uma longa e prudente subida pelo pasto, que se escarpava progressivamente.
Às 2h08 alcançamos a cerca de divisa dos pasto e passamos a seguir paralelos. Ao final do pasto, prosseguimos pela mata, buscando os tênues rastros das passagens anteriores encosta acima. A conversa fluía tranquila, os debutantes duvidando que levaríamos tantas horas até o cume do Focinho de Cão/Curiaco. Afinal, estava “logo ali”, quase ao alcance das mãos. Teriam naquela noite, mais uma lição de que, em montanhismo, os quilômetros podem ser bem enganadores.
As grandes folhas de samambaias apresentavam-se cobertas por fina geada, brilhando sob a luz das lanternas. Marcos de levantamentos topográficos costeavam nosso trajeto, tornando, ao menos por algum tempo, a p r o g r e s s ã o encosta acima menos árdua. O frio intenso fazia com que qualquer p a r a da para r e t o mada de f ô l e g o , contemplação ou alinhamento de progressão se m a n t i v e s s e a d st r i t a ao mínimo. O tremer dos corpos era sinal ineludível que a caminhada precisava ser retomada antes que a hipotermia que cada um enfrentava vencesse e nos obrigasse novamente, a bivacar sobre condições indignas, mas seguras. Seguimos pelo ombro, deixando escapar o ponto de saída pela esquerda para o pé da rocha. Algumas vintenas de metros acima, percebemos o erro, pois não era possível prosseguir pelo adiante. Retomamos sobre nossos passos até o desvio à esquerda, marcado com uma fita. Antes de prosseguir, tombei alguns galhos e bromélias no ramo “errado” dos rastros, tornando mais perceptível o desvio de direção da trilha.
Seguimos praticamente em nível até alcançar a região da base da pedra, onde passamos a fazer a subida usando com as mãos para dividir o esforço da subida. Era o prometido “afia as garras e sobe que nem tatu” que o Douglas adiantara nos dias antecedentes.
Dessa vez não chovia e a perspectiva era de um final de semana ensolarado, mas o arrebol do nascente não aliviava o frio ímpar que nos fustigava. As bromélias guardavam em suas rosáceas litros congelantes que, ao forçarmos a passagem, nos molhavam até os ossos. Nos parecia que o frio, mais que a brutal inclinação, era a paga que o Focinho de Cão exigia para permitir que o cumeássemos.
O nascer do sol trouxe consigo uma tortura adicional, a somar-se com o frio que enregelava nossas mãos e nos fazia tremer sem controle a cada vez que a parada se estendia por mais que alguns poucos minutos. Galgávamos a montanha pela sua face SUL, e o sol brilhava alvissareiro, mas permanecíamos nas sombras das encostas vizinhas que interceptavam seus raios e, com eles, o seu calor. Com o avançar montanha acima, em alguns momentos era possível estender os braços e expor uma das mãos ao calor que prometiam, enquanto com a outra mão se ancorava em algo mais confiável na vegetação. Em verdade, era algo mais psicológico que real.
Quando percebi que essas tentativas apenas me levavam a tremer ainda mais, pois o corpo todo ficava parado, à beira dos precipícios, sofrendo com o vento que, ainda que fraco, roubava o pouco calor que meu corpo conseguia produzir, decidi forcar o passo encosta acima, do jeito que fosse. Subi, subi cravando os dedos na terra, empregando bromélias e raizes como degraus, subi de joelhos, subi de tudo que é jeito, até alcançar a base da grande pedra na Face Leste, praticamente livre de vegetação. Era hora de dobrar para oeste e ganhar os metros f inais até o colo entre o Focinho de Cão e o conjunto Marins/Maria/Mariana.
Forcei o ritmo até o colo, deixei a cargueira, coloquei o critico nos bolsos e encarapitei, em companhia do Will até o cimo do monólito, onde eu, o Douglas e o Kleiton instalamos o tubo de cume e seu respectivo caderno, quando em 2023, na c onquista da travessia “A Monstruosa”, ligando a vila do Marins ao Itaguaré pela primeira vez. Pernada insana, que relatei aqui: Travessia Curiaco – Marins – Itaguaré – A monstruosaAltaMontanhahttps:// altamontanha.com › travessia… . No cume da imensa rocha, banhado pelo sol que agora aquecia de forma tão agradável, fiquei uns bons minutos apreciando a vista, enquanto aguardava que todos se juntassem para que verificássemos se algum outro insensato havia subido ali, desde junho/ 2023.
Com a trupe completa, removemos algumas das pedras que tanto suor nos custaram buscar para compor o totem que marca o cume e protege o tubo da degradação pela luz solar. Como decano do MDA, delegamos a honra de abrir o tubo de cume ao Douglas, enquanto eu fazia os registros. Nenhum registro. Ou não houvera passagem por ali nesses dois anos, ou quem o fizera, optara por não documentar sua passagem com registro no livro. Fizemos os devidos registros, acrescemos alguns saches de mel e um adesivo de aquecimento ao cobertores de emergência que colocamos nos tubos de cume para alguém que alcance esse ponto em um eventual perrengue e nos permitimos um bom tempo curtindo as impressionante vistas que esse cume proporciona, com o privilegiando olhar do conjunto Mariana-Marins-Maria pela sua face sul.
Da partida, às 0h40 até o primeiro cume da travessia foram 9 horas de intensa subida, com alguns trechos de vara-mato, superados com mais tranquilidade que em 2023. Até ali, havíamos percorrido apenas 5,2 km de trilha com uma altimetria de 910 metros. Ainda restava muito para darmos o primeiro dia por concluído. Após alguns minutos de puro ócio e deleite, às 11h23 retomamos o caminhar encosta acima, agora com a vegetação da crista variando entre a altura dos joelhos e dos quadris. Em diversos trechos, não se notava evidencias das passagens anteriores e seguimos revezando o voluntário que ia à frente escolhendo o melhor caminho. Corridas sazonais d’água, alinhamentos de plantas menos entrelaçadas ou trechos em que algum rastro anterior denotava a menor resistencia à passagem da trupe.
O revezar permitia que o “ponta” depois de 5, 10 ou 15 minutos cedesse o lugar a outro voluntário e descansasse por um tempo à rabeira do grupo, evitando quase todo o esforço de abrir passagem na intricada vegetação. Essa estratégia nos permitiu manter uma velocidade de progressão baixa, cerca de 0,4 km/h à custa de grande empenho de cada um. Lembrávamos que, mesmo o pior caminho pode ser vencido pela soma de infinitos passos, havíamos g al gado aquela encosta em 3, com c argueiras mais pesadas. Nesta ocasião, contávamos com uma equipe homogênea e muito forte, mas sabíamos que a subida seria lenta.
Tínhamos conosco o pessoal que fizera a ACE de 2024 em 5 dias, com paradas estratégicas para cochilos e alimentação. A faixa etária era variada: eu, Douglas e Macedo, cinquentões. Na sequência, o Kleiton com 44 primaveras. O trio Guilherme, Dindo e Will na faixa dos 30 – 35. Rafael beirando os 40 verões. Erick, nosso caçula, com “apenas” 26 outonos, já tem uma ACE no currículo. Às 14h40 alcançamos o platô ao lado do Mariana e nosso referencial deixou de ser apenas “pra cima”, era necessário achar um ponto, talvez o único ponto em que a muralha de rocha poderia ser galgada, com segurança, sem praticarmos uma escalada mais técnica. Sabíamos que o ponto existia, franqueando acesso ao colo entre o Mariana e o Maria. As chuvas haviam erodido a base da canaleta que precisaríamos galgar, de forma que, o “entrar no lance” exigia considerável exposição. Para fazê-lo de forma segura para um grupo mais numeroso, nosso pessoal com mais cancha de escaladas investiu longos minutos, prendendo fitas e trechos de cordas.
Chegamos “na base da via” às 15h55 e eu “entrei no lance” às 16h43, com o básico de fitas e cordas instaladas pelo Kleiton, Douglas e Will. Auxiliei os outros, formando uma pequena correia humana para subir cargueiras e somar apoios e pouco depois, às 17h todos estávamos em segurança no colo, onde deixamos as mochilas. Subi com os bolsos cheios: guloseimas nos bolsos, celular, comunicador satelital, duas lanternas de cabeça, caneta e adesivos do MDA. Do colo ao cume, onde o livro de cume permanece protegido em uma reentrância na rocha, foi cerca de 10 minutos, se tanto. Fizemos registros preciosos, apreciamos o por de sol por alguns minutos e iniciamos a descida, para retomar cargueiras e buscar o acesso ao cume do Maria.
Nesse momento, minha preocupação maior era com o avançado da hora, pois ainda havia muito a subir e nosso grupo, ainda que forte, era numeroso. Para mim, a equação parecia simples: muita gente, muitas horas, muita exposição, resultava em muito risco. Os muitos metros finais da subida do Marins, E isso se conseguíssemos espaço para montar nossas barracas no cume, o que no era garantido. Não fosse possível, já estava previsto prosseguirmos até as áreas de acampamento na base da montanha ou mesmo do Marinzinho. Havia uns ainda, sob efeito mais intenso da adrenalina, que consideravam adiantarmos a pernada do segundo dia e acamparmos nas áreas planas, já na região da Pedra Redonda.
Deixamos o colo Mariana – Maria às 17h35, perdendo um pouco de altura para seguir costeando a rocha até uma segunda canaleta que nos franqueou o acesso à base do Maria às 18h10. Avancei um pouco mais, em busca de um ponto que fosse abrigado do vento gelado que soprava. Fiquei atendo às lanternas dos amigos, para garantir que não ocorresse um desencontro. Às 18h40, com a equipe completa, seguimos para o terceiro cume do dia, deixando as cargueiras juntas e galgando os metros finais até o cume de ataque.
No cume do Maria, não nos detivemos muito tempo, pois a escuridão da noite não propiciava grandes visuais e o vento, que ali em cima incidia com força, nos fazia tremer de frio. Esse cume não dispõe de caixa/tubo de cume e, acredito que seria uma ação coerente por parte da gestão do MONA Mantiqueira instalar. Tornaria eventuais buscas mais assertivas, contribuindo para a segurança dos frequentadores e reduzindo os custos financeiros e ambientais de ações de buscas e resgate. Fica a sugestão e a oferta de apoio para uma eventual implementação.
Com o frio da noite a nos apresar o passo, deixamos as cargueiras às 18h44. Chegamos no cume registramos a passagem com algumas fotos às 19h e, às 19h12, novamente com as mochilas, iniciamos a ultima subida do dia, agora buscando o cume do Marins. Com as pernas sentindo o cansaço dos quase 1700 metros de altimetria, percorrendo 10,3 km em 18h30 de marcha quase contínua, fizemos uma verificação de entendimento quanto às próximas ações. Subiríamos de forma adensada, evitando que qualquer um ficasse muito à frente ou atrás do grupo. Essa medida era crucial para assegurar que não ocorreria perdidos e que eventual acidente fosse prontamente acudido ou mesmo alguma necessidade excepcional pudesse ser atendida da melhor forma.
A ligação Maria – Marins tem dois trechos mais técnicos, os quais superamos tirando as mochilas e fazendo os lances nos espremendo por entre as rochas, quase que “nascendo de novo” e depois uma curta chaminé. Para içar as cargueiras, utilizamos as fitas com uma corrente humana na parte alta para transportar a um ponto em que novamente pudéssemos vesti-las. Às 20h08 alcançamos o plato do cume e, às 20h25 eu já tinha definido onde montaria a minha barraca. Havia bastante espaço no cume mas o Macedo preferiu descer e montar a barraca dele na base, como soubemos na manhã seguinte. O pessoal do P ar aná trouxera a b undância d e mantimentos, mas a subida lhes roubara o apetite e o animo em cozinhar. Infelizmente, foram muitos os quilos de alimentos que passearam nas cargueiras desse povo.
Dia 2
Acordei cedo, como de praxe nas montanhas. Levantamos acampamento tarde, iniciando a caminhada apenas . O primeiro dia fora brutal: 1750 metros de altimetria, galgados em 19h30 de atividade ao longo de 10,6 km de trilha. Da altimetria total de 2550 metros, quase 70% fora superado. Os 800 metros restantes se diluem ao longo dos 12,2 quilômetros a serem percorridos. Com os corpos descansados da intensa subida da véspera e os números mais favoráveis, o dia 2 não assustava. Uma travessia intensa para ser efetuada com cargueira em um tempo que muitos, quando se arriscam a fazer em “apenas” um dia, o fazem de ataque, com mínimo peso. Mesmo assim, era uma questão de manter a atenção centrada, caminhar forte e não cometer grandes erros de navegação.
Kleiton tentando alguma magia ancestral para garantir o tempo aberto. O nascer do dia, com uma densa camada de nuvens sobre toda a região prometia muito sol e calor. Dispúnhamos de pouca água, mas o frescor matinal não a exigia. Ficamos um b om t e mpo apreciando o cume, conversando com o pessoal da Equipe ARCANJOS que subira o Marins, Maria e Mariana n aquele fim de s e mana. Eles, desceriam para a b ase Mar ins e retornariam a Sao P aul o, n ó s, estenderíamos um b om tanto a caminhada ainda. O mar de nuvens ao longe, na direção do Itaguaré estava sendo soprado com força em nossa direção, e muitos, ei inclusive, ainda que por um breve segundo, nos questionamos sobre a sanidade de iniciar a ligação Marins – Itaguaré com as ondas de nuvens se quebrando com tanta graça e poder. Avaliamos ainda uma ultima vez a previsão do tempo e, mesmo frente à inevitável incerta dos micro-climas das montanhas, nos tranquilizamos pelo elevado nível técnico do grupo e por contarmos com equipamentos.
Às 8h10 deixamos de protelar a partida e nos colocamos em marcha, descendo a grande laje rochosa que dá acesso à base do Marins, encontramos o Macedo que pernoitara, lindamente instalado, na base. Com a equipe novamente completa, apertamos o passo para a região do Marinzinho, onde faríamos nosso café da manhã. Às 8h40, paramos para o café na base do Marinzinho, onde uma pequena nascente ainda fornece água minimamente confiável. Preparamos café, suco e c hocolate quente para acompanhar pão com doce de leite, bolachas e biscoitos.
Retomamos o caminhar às 9h25, costeando a face norte do Marinzinho para subir ao seu cume. Nesse momento, alguns que subiam a frente se distanciaram e subi, em dupla com o Gui, por um rastro sem encontrar ninguém à frente até quase o cume. Minha impressão era deu que talvez tivesse “perdido” o acesso correto, quando na verdade o que fizemos foi pegar a primeira das linhas de subida consolidadas. Chegamos no cume às 9h50, fizemos os devidos registros e tocamos adiante, sob fortes ventos que arrastavam partes do mar de nuvens como grandes ondas sobre nós. Mesmo em movimento, o frio era intenso e as gotas d’água em suspensão, trazidas nas ondas, ameaçava molhar totalmente nossas roupas. Nas subidas, por vezes abríamos as aletas das jaquetas, para aliviar um pouco o calor e umidade nas roupas. O lance de corda, na descida, foi superado sem dificuldades. Apesar de exposto, era pequena fração do que havíamos lidado na véspera.
Fiz uma parada para aguardar os retardatários e aproveitei para cavar um buraco em uma florestinha de ombro, mais abrigada. Acabei por esquecer os bastões de caminhada, tendo que voltar uns bons minutos para recuperá-los. Avançando de forma cautelosa e constante, às 11h08 alcançamos a Pedra Redonda, onde f izemos o registro de passagem no livro de cume, uma pausa para descanso e contemplação antes de retomar a caminhada, às 12h06. Agora, restava para trilhar de cargueira, apenas os quilómetros até a base do Itaguaré (3,6 km) e depois até o campinho onde seríamos resgatados (3,3 km). Prosseguimos apreciando a tarde ensolarada, sem forçar o passo e, às 14h deixamos as cargueiras e tocamos para o cume do Itaguaré, de ataque, com os itens essenciais nos bolsos.
Retomamos as cargueiras e partimos para o trecho f inal, uma longa descida, até o campinho onde nosso resgate nos encontraria. Alguns do pessoal do Paraná tocaram na frente, em franca corrida montanha abaixo, de cargueira. O Rafa e o Will os acompanharam, disputando a liderança. O Kleiton fez o possível para não permitir que tomassem grande dianteira. O Macedo seguiu conosco, trocando ideia até que, uma boa meia hora depois pediu licença e apressou o passo montanha abaixo, buscando concluir sem precisar empregar lanterna. bons 20 minutos depois. Eu e o Douglas não alteramos significativamente o passo, terminando a pernada às 17h45, tendo mantido uma velocidade média de 2,7 km/h e consumindo 1h15 para percorrer os últimos 3,3 km.
Destaque para o ponto de pernoite. Nosso resgate foi combinado com o Clóvis, que inclusive l e v a r a u ma p e q u e n a geladeira de i s o por com refrigerantes e cerveja, para nossa grata e alegre surpresa. Na kombi, em segundos, cochilei para acordar apenas quando estávamos praticamente chegando de volta à pousada Curiaco para darmos a noticia da conclusão da pernada à D. Ofelia e ao seu filho, Rivail e recuperamos os carros para a viagem de volta. Não foi possível descer pra Santos naquela noite, de forma que pousei num hotelzinho ao lado da rodoviária do Jabaquara. O Douglas já deixara o Will em casa e seguiu para deixar o Rafa na residência dele antes de, f inalmente, deitar e descansar às 3h46. Nossos amigos do Paraná foram chegar 7h10 em Curitiba, no tempo exato de tomarem banho e tocarem para a labuta do dia.



























