“Já imaginou explorar o Vale oculto, abraçado pelos gigantes Pico Paraná, Ferraria e Taipabuçu?”
Um território esquecido entre gigantes, onde a natureza moldou abismos, quedas d’água e cristas que parecem erguer-se desde o início dos tempos. Um lugar ao mesmo tempo próximo e inatingível, conhecido apenas pelos que ousam olhar além do horizonte comum.

Serra do Ibitiraquire 1 – Vale do Rio Cotia coberta por nuvens, a direita o imponente Pico Ibitirati.
É 23 de julho de 2022.
O frio da manhã ainda se prende às rochas do Pico Ibitirati, enquanto as nuvens rasgam lentamente o céu, revelando a silhueta monumental das montanhas. Ali, sentado sobre um dos pontos mais isolados e selvagens dessa cadeia, surge um cenário digno dos grandes épicos da aventura.
À frente, dominando a paisagem, impõe-se o Pico Ferraria, com suas paredes íngremes e sombras profundas. À direita, desenha-se a desafiadora Crista Leste, uma muralha natural que se estende como um braço de pedra, guardando o vale abaixo.
Cada detalhe da paisagem parece esculpido pela paciência milenar dos ventos, das chuvas e do avançar inclemente do tempo.
Então, o inesperado acontece.
Entre o silêncio cortante das alturas, um som começa a emergir do fundo do vale: um rugido constante, poderoso, que ecoa como se a própria montanha respirasse. É o som de uma queda d’água, tão intenso e tão puro que parece carregar uma história inteira em cada gota que despenca. Não é apenas um barulho. É um chamado.
Um chamado para o desconhecido. Um chamado para um dos lugares mais “remotos e misteriosos” da Serra do Ibitiraquire. Naquele momento, o tempo parece desacelerar. O vento muda. A Montanha observa. E surge a pergunta que marca o início de toda grande aventura:
“E se fosse possível chegar até lá? E se pudéssemos cruzar aquele vale oculto e, a partir dele, conquistar o cume do Pico Paraná?”
Foi ali, sobre as pedras do Pico Ibitirati, diante da imensidão selvagem do Ferraria e da Crista Leste, que nasceu o desejo — não apenas de visitar um vale — mas de desvendar um mundo escondido entre colossos, um território moldado pela força da água e por trilhas que talvez ainda nem existissem.
Daquele momento surgiu um sonho: alcançar o cume do Pico Paraná pelo Vale do Rio Cotia, guiado pelo eco daquela queda d’água que, perdida entre as encostas, parecia sussurrar uma promessa antiga — a promessa de que ainda há lugares indomados esperando por aqueles que ousam responder ao chamado da montanha.
Na semana seguinte, 10 de agosto de 2022, a ideia que nascera no Ibitirati começou a ganhar forma concreta. Sentamos para estudar a região com mais seriedade e, com a ajuda do aplicativo Wikiloc, traçamos uma trilha de referência: a partir da Janela da Cotia e buscar, por dentro do vale, o cume do Pico Paraná. Era
apenas uma linha imaginada no mapa, mas já carregava um peso enorme: transformar aquele sonho em rota real.
A Jornada – 01 de setembro de 2022
E assim começou nossa primeira investida ao vale. Eu (Claudio), Jean e Nivaldo partimos da Fazenda Lírio do Vale em direção ao discoporto, onde montamos acampamento. A manhã seguiu tranquila; curtimos o lugar, cozinhamos, rimos, deixamos o tempo correr sem pressa. Era quase como se estivéssemos
guardando energia para o que viria.
Às 13h15, iniciamos o avanço rumo ao desconhecido. Nos primeiros minutos, a trilha surpreendeu: aberta, fitada, nítida – um convite. Criou-se até uma expectativa de que talvez o percurso estivesse “pré-existindo”, já tocado por outros montanhistas.
Mas essa ilusão durou pouco: cerca de 1 km após o discoporto, já subindo o Rio Cotia sentido Caratuva, a trilha simplesmente desapareceu. A partir dali, seria apenas mata virgem, intocada e espessa.
Dentro do Vale – O Som da Água
Seguimos margeando o Rio Cotia, no vale estreito cercado por paredões. A certa altura, continuar pelo leito tornou-se impossível. Adentramos a mata, subindo uma crista coberta por folhas, raízes suspensas, bambuzinhos e caraguatás. Cada passo exigia atenção; era um labirinto vivo.
Foi então que avistamos uma cachoeira magnífica, despencando de uma grota entre o Ibitirati e o União.
Ali descobrimos a origem do som de água que ouvimos semanas antes, lá do alto do Ibitirati. Usamos corda para descer até o rio e alcançar a queda principal. À direita, outra cachoeira surgia, alimentada pelo próprio Rio Cotia.
Foi um momento difícil de descrever. A sensação de estar em um lugar que quase ninguém jamais vira… isso mexe com a alma.
O Avanço Lento e o Anoitecer
A mata fechada e a inclinação cada vez maior tornaram a progressão lenta. O dia já começava a escurecer, e ainda havia muito para vencer. A meta era simples – chegar na trilha do Pico Paraná – mas o corpo já cobrava seu preço. Era como se estivéssemos “no bico do tuiuiú”, “só o pó da cueca”.
Seguimos até registrar a paisagem depois da cachoeira: à direita, o Pico Saci; à esquerda, a subida da Face Leste do Ferraria. Faltava pouco… e ao mesmo tempo faltava tudo. Restava cerca de 250 metros de altimetria.

Serra do Ibitiraquire 4 – Foto capturada depois da cachoeira – a direta vemos o Pico Saci e a esquerda fica a subida para o Ferraria Face-Leste.
Descemos novamente o vale, cruzamos o rio e iniciamos a subida rumo ao Pico Paraná. E então cometemos um erro. Não um erro bobo, pequeno, sem consequências. Eu falo do grande erro. Em vez de seguir pela direita, contornando o vale como previsto no mapa de referência, optamos pela esquerda – iludidos pela ideia de “sair direto no acampamento A2”.
Avançamos uns 200 metros de altimetria até sermos barrados por um paredão gigantesco. A teimosia ainda nos empurrou alguns metros adiante, mas logo chegamos a um lance com ângulo negativo – impossível de prosseguir. Só então aceitamos o inevitável: era preciso voltar.
A descida foi tensa, perigosa, delicada. Mas deu tudo certo. Fizemos uma pausa rápida para lanchar – restavam apenas dois pacotes de bolacha e um carbo gel – e decidimos abortar a missão. Estávamos fisicamente e mentalmente exaustos. Nivaldo chegou a adormecer em pé, como um pêndulo.
A Retirada – Uma Eternidade
Começamos a descer por volta das 19h30. A subida já havia sido difícil; a volta parecia interminável. Cada passo na mata densa era uma luta. Chegamos ao discoporto às 00h40, destruídos pela montanha, quase em estado de “decomposição”. Depois de um banho gelado e um lanche improvisado, apagamos.
Na manhã seguinte, acordamos tarde, ainda atordoados pelo desgaste. Como disse o Nivaldo:
“Eu fecho os olhos e só vejo bambu, água, lama e rocha.”
Voltamos para casa abatidos, com um sentimento de impotência. Mas junto desse peso, veio também a certeza: a vontade de alcançar o Pico Paraná pelo Vale do Rio Cotia só aumentara.
A Retomada da Missão (07 de setembro de 2022)
Depois da retirada difícil no dia 1º de setembro, não demorou muito para que a inquietação voltasse a bater. A sensação de inacabado era forte demais para ignorar. E foi assim que, no dia 07 de setembro de 2022, reforçamos nossa equipe: dessa vez éramos eu (Claudio), Jean, Nivaldo e Wellington.
Subimos pela trilha do Pico Paraná, já conhecida e marcada pelo fluxo constante de montanhistas, até o ponto onde faríamos a descida para o Vale dos Grampos. Ali começou a verdadeira missão do dia: abrir caminho na mata fechada, varando mato, nosso rascunho de rota na na mão, rumo ao mesmo ponto onde, na
semana anterior, tínhamos sido obrigados a abortar o avanço.
Desta vez, tudo parecia fluir. A equipe estava forte, motivada, alinhada. Gastamos cerca de 3 horas para concluir a descida e alcançar exatamente o local onde havíamos parado anteriormente. Ver aquele ponto novamente – mas agora pelo alto, pelo lado certo, pela rota certa – trouxe uma sensação de alívio, de missão parcialmente cumprida. Era como fechar um ciclo.
Depois de reencontrar o ponto crítico e consolidar a passagem na trilha, retomamos o caminho pela rota tradicional e, já que estávamos ali, fizemos um ataque rápido ao cume do Pico Paraná. O clima era de vitória, de retomada de confiança. Ao final da tarde, retornamos para a Fazenda Rio das Pedras, encerrando com sucesso
uma etapa importante dessa jornada pelo Vale do Rio Cotia.
Finalização da Rota (18/09/2022)
Equipe: Claudio, Jean, Nivaldo, Ricardo, Danielle e Dirlene.
Com a área já parcialmente conhecida e a trilha registrada no GPS, ampliamos a equipe para concretizar a passagem completa da rota e alcançar o cume novamente, percorrendo desta vez todo o caminho entre a Fazenda Rio da Pedras e o cume do Pico Paraná, a partir do Rio Cotia.
Quando convidamos os novos integrantes, deixamos claro o que os aguardava. Dissemos, sem exageros: “É diferente de tudo o que vocês já viram. Diferente do que vocês conseguem imaginar. Lá, o caminho é um mosaico de belezas e riscos. Ali, a beleza flerta com a tragédia a cada passo”
Naquele momento, essas palavras eram apenas uma promessa. Mas, em poucas horas, elas se materializariam diante dos olhos da equipe, ganhando forma em cada passo, cada paisagem e cada obstáculo do vale.
A caminhada começou às 03h30, partindo da Fazenda Rio das Pedras pela Picada do Cristóvão. Os objetivos estavam bem claros para todos:
• refazer o caminho completo,
• consolidar o novo caminho,
• finalizar a conexão do Vale do Rio Cotia com a rota principal do Pico Paraná.
• retornar a Fazenda Rio das Pedras com todos incólumes.
Às 07h, fizemos uma pausa para café e descanso no discoporto. Às 09h, seguimos rumo ao Pico Paraná.

Serra do Ibitiraquire 5 – Equipe: 1- Claudio 2- Jean 3-Danielle 4- Dirlene 5- Ricardo 6- Nivaldo – Vale do
Rio Cotia.
Na primeira hora do dia a caminhada foi leve possibilitando a contemplação das belas paisagens e das águas cristalinas que descia do rio. Após a cachoeira a caminhada ficou mais lenta, mesmo assim a progressão era positiva e satisfatória, o grupo se revezava na identificação e orientação do caminho. Os homens ficaram com
a atividade mais pesada de seguir a frente, dobrando mato e as mulheres faziam os registros do caminho.
Mesmo com o caminho já traçado ainda restava imensas dificuldades, subida íngreme, escorregadia e sem apoio para fazer ancoragem de equipamentos. Depois de vencer alguns obstáculos quase intransponíveis e faltando muito pouco para concluir, ocorreu um pequeno acidente.
Eu estava à frente e logo atrás a equipe, Jean, Dani, Ricardo, Dirlene e Nivaldo. Avançando numa parede íngreme e com muitas pedras soltas, Jean se apoiou em uma pedra que acabou deslizando e acertando a Dani, na cabeça. Como ela estava próxima ao Jean, o impacto não foi muito forte. Sentou-se por alguns segundos,
respirou fundo e continuou a caminhada. Às 17h20 finalizamos a conexão entre o Vale do Rio Cotia e a trilha principal que dá acesso ao Pico Paraná.

Serra do Ibitiraquire 6 – Imagem capturada do Wikloc, 1 – Cume do Getúlio, 2 – Placas de indicação, 3-
Taipabuçu, 4- Ferraria, 5- Ferraria Crista-Leste, 6- Picada do Cristóvão, 7- Discoporto, 8- Janela da Cotia, 9-
Vale do Rio Cotia, 10- Vale dos Grampos, 11- Pico Paraná.
Exaustos, mas profundamente satisfeitos, retornamos à Fazenda Rio das Pedras com o sentimento poderoso de missão cumprida.
Considerações Importantes e de Segurança
• Caminho desafiador.
• Trajeto muito difícil e altamente técnico.
• Recomendada apenas para montanhistas experientes.
• Pontos com risco de deslizamento.
• Com chuva, há risco de cabeça d’água e desmoronamentos.
• O Vale dos Grampos apresenta risco constante de queda de pedras.
• GPS costuma oscilar e/ou travar dentro do vale, em função do vale ser bastante escarpado.
• O Vale do Cotia corre entre grandes paredões, com risco natural de desabamento de rochas.
Conclusão
O que se iniciou como um eco distante no Ibitirati e se desenhou como um traço hipotético no mapa, hoje se inscreve de forma indelével na história da Serra do Ibitiraquire. A travessia pelo Vale do Rio Cotia transcendeu a curiosidade para se firmar como um propósito concretizado. Cada revés, desde a noite de 1º de setembro
até a perseverança estratégica dos dias seguintes e a travessia final, não foi um obstáculo, mas sim o cimento que ligou o sonho à realidade da montanha.
O Vale do Rio Cotia, revelado em sua essência, não é apenas um corredor geográfico; é um território de transição que devolve ao montanhista a lição de que a natureza, aqui, ainda é a única soberana. Ao cruzar esse vale, não apenas se conquistou uma trilha, conquistou-se, visceralmente, um entendimento profundo sobre
a lógica ancestral e esquecida da Serra.
A conexão final, às 17h20 de 18 de setembro, com o cume do Pico Paraná foi mais do que a conclusão de um percurso; foi a confirmação da persistência humana diante do que parecia impossível. Não se trata de um caminho fácil, nem comum, mas de uma conquista que se tornou testemunho da união, da ética e do respeito dos montanhistas que a desbravaram.
Deixo esse singelo registro de uma conquista que é geográfica e, acima de tudo, humana. Fica a lição de que a montanha se permite ser percorrida apenas quando o espírito está preparado. E, ecoando nos paredões e nas alturas do Ibitiraquire, permanece a mensagem mais poderosa: “a montanha sempre fala. A nós, cabe a coragem não apenas de ouvir, mas de responder com o próximo passo, sabendo que ainda há inúmeras histórias a serem escritas entre esses gigantes de pedra”.

















