O maciço de Torres del Paine, na Patagônia chilena, é reconhecido mundialmente pela beleza de suas montanhas e também pelas condições climáticas extremas que frequentemente desafiam montanhistas e escaladores. Foi nesse cenário que o trio de escaladores estadunidenses formado por Miles Moser, Trevor Anthes e Harry Kinnard decidiu abrir uma nova via. Com a proposta de criar uma linha mais acessível para escalada em livre, a conquista foi realizada nessa temporada na Torre Central do maciço.
Para concretizar o projeto, a equipe passou 70 noites pendurados na parede (41 entre o final de 2025 e o início de 2026 e outras 29 durante a temporada de 2024). Nesse período, dormiram em portaledges suspensos na montanha, derreteram gelo para cozinhar e se hidratar e enfrentaram tempestades e nevascas com ventos que ultrapassaram 100 km/h.
Um projeto iniciado há mais de uma década
O projeto de abrir essa linha começou a tomar forma há cerca de dois anos. No entanto, a ideia de explorar essa parede remonta a muito mais tempo. Segundo Moser, o sonho de abrir uma rota nesse local surgiu há aproximadamente 13 anos.
Em 2024, ele iniciou a primeira tentativa ao lado dos escaladores Hugo Perez, Kellen McGrath e Trevor Anthes. Durante 30 dias de escalada, a equipe conseguiu avançar até a 17ª enfiada da rota. No entanto, uma forte nevasca obrigou o grupo a encerrar a expedição.
“Chegamos à 17ª enfiada antes de sermos forçados a recuar devido a algumas das piores condições climáticas que já enfrentei em meus 20 anos de pioneirismo em grandes paredes. O que esses caras passaram juntos foi inacreditável, e o que eles conquistaram foi ainda mais notável com temperaturas de -7°C. Removemos tudo da parede e, infelizmente, voltamos para casa naquela temporada”, detalhou Moser.
Retorno à Patagônia
Em dezembro de 2025, Moser e Anthes retornaram à Patagônia para dar continuidade ao projeto, desta vez acompanhados por Harry Kinnard. A nova investida resultou em mais 42 dias na montanha, novamente sob as duras condições climáticas características da região com tempestades que voltaram a impor desafios a mais à equipe.
Segundo Moser, em determinado momento, as barracas utilizadas pelos escaladores ficaram soterradas pela neve e pelo gelo por cinco dias consecutivos, e o grupo chegou a considerar abandonar a tentativa devido à escassez de água. Os montanhistas também precisaram permanecer dez dias parados na parede, aguardando uma janela de bom tempo que permitisse avançar com segurança até o cume.
“E que aventura foi essa! Longa demais, na minha opinião, mas conseguimos. Criei uma rota da qual me orgulho muito, e tenho certeza de que todas as equipes subsequentes ficarão impressionadas com a magia e o estilo da escalada que encontrarão. Harry Kinnard fez um trabalho incrível desbravando os trechos e sendo um verdadeiro guerreiro. Trevor, como sempre, um verdadeiro exemplo de perseverança, aguentou firme e fez um ótimo trabalho garantindo que eu não fizesse nenhuma besteira”, escreveu Moser.
A nova rota
A linha aberta pelos escaladores segue pela face leste da Torre Central, com cerca de metade do percurso vertical ou levemente negativo. Apesar da inclinação exigente, o trio acredita que seja possível escalar toda a rota em livre.
Além de estabelecer o trajeto e instalar ancoragens fixas, os escaladores também realizaram um intenso trabalho de limpeza da parede, removendo blocos soltos e outros perigos naturais. O objetivo, segundo a equipe, era justamente criar uma linha que pudesse ser escalada em livre por futuras cordadas.
Batizada de Paradigm Shift (“Mudança de Paradigma”), a nova via possui 36 enfiadas e recebeu graduação sugerida de 7C francês, equivalente aproximadamente ao 9a no Brasil. Do total de lances, 29 são completamente inéditos, enquanto outros sete se conectam à histórica rota Bonnington-Williams, aberta em 1963.
Ao final do projeto, Moser agradeceu aos parceiros de escalada que o acompanharam nas duas etapas da conquista, além de familiares e amigos que contribuíram de diversas formas — preparando comida, emprestando equipamentos e ajudando no monitoramento das condições meteorológicas durante a expedição.
















