No universo da escalada, tanto as vias guiadas quanto as linhas de boulder são classificadas de acordo com o grau de dificuldade — quanto mais difícil, maior o grau. Dentro dos conceitos éticos do esporte, considera-se que um escalador domina determinado grau quando consegue “mandar”, ou seja, escalar sem cair vias ou boulders dessa graduação logo na primeira tentativa.
Essa ascensão pode ocorrer no estilo “à vista”, quando o atleta escala sem qualquer informação prévia sobre a linha, ou em “flash”, quando há acesso a betas, dicas de outros escaladores ou até mesmo a observação de alguém executando o movimento. Ambas as abordagens são amplamente aceitas na comunidade.
Nos últimos meses, no entanto, uma nova tendência tem gerado debate: o uso de escadas ou Crashpads (colchonetes) empilhados para testar agarras específicas antes da tentativa em flash. A prática levanta questionamentos sobre os limites do que ainda pode ser considerado uma ascensão nesse estilo.
O tema ganhou ainda mais visibilidade após o posicionamento de Adam Ondra, um dos principais nomes da escalada mundial. O atleta revelou ter utilizado uma escada durante tentativas de flash em boulders de altíssimo nível, como Bügeleisen sit 8C ou Unison 8C (o equivalente ao V15 na graduação brasileira).
Mudança de opinião?
Segundo Ondra, sua visão sobre o assunto evoluiu ao longo do tempo. O atleta declarou em seu blog que sempre foi a favor de testar as agarras que estão ao alcance das mãos. Porém, ele mesmo acredita que isso favorece escaladores mais altos que conseguem alcançar mais longe. “Então, minha percepção mudou, pois também descobri que o flash de outros 8Cs foi feito com a ajuda de uma escada ou usando colchonetes para alcançar algumas das agarras . Então, adotei esse estilo também”, declarou.
Nos últimos meses, o escalador tcheco realizou ascensões em flash de quatro boulders graduados em 8C (V15) — atualmente o mais alto nível já atingido na modalidade — consolidando ainda mais seu domínio no grau. Entre eles estão Foundation’s Edge, Celestite, Lion’s Share e Emotional. Em algumas dessas linhas, como Deep Fake, Celestite, Lion’s Share e Emotional Landscapes, não houve necessidade de utilizar escadas para alcançar agarras.

O atleta comemorando ao conseguir chegar da última agarra de Emotional Landscape. Foto: Zan Lovenjak Sudar
Já em desafios como Bügeleisen sit e Unison, Ondra recorreu ao uso de escada, além de betas fornecidos por outros escaladores. Ainda assim, ele reconhece que há diferentes níveis de rigor dentro do estilo. “Ainda pode fazer sentido optar pelo flash puro, sem tocar em nenhuma agarra acima das agarras de partida, se você quiser manter seus padrões éticos extremamente elevados . Mas decidi tentar uma ascensão com escada e flash”, contou.
Durante a tentativa em Bügeleisen sit, o atleta acabou caindo a três agarras do topo, não conseguindo completar a ascensão em flash.
Apesar disso, Ondra segue reconhecendo o valor de abordagens mais puristas dentro da escalada. “Depois do lançamento do vídeo, conversei com Jules Marchaland , e ele me contou que fez Power Of Now Direct sem tocar em nada além das agarras de partida. O que torna a ascensão dele muito mais impressionante!”, declarou.
Com escada ou sem escalada, escalar um 8C continua sendo algo difícil. Mas a tendência é que comecemos a ver mais desse objeto em setores de escalada.
E você, escalador, o que acha?














