Você visitará algumas regiões nordestinas que eram para mim desconhecidas. Será uma série de oito colunas, entre o Ceará e o Rio Grande do Norte.
Grandes Platôs Nordestinos
A Chapada Diamantina é o maior tabuleiro visitado no Nordeste. Mas existem outros e nesse artigo estarei considerando os demais dois que conheci. Tanto Ibiapaba no Ceará como Martins no Rio Grande do Norte apresentam altos e longos trechos serranos com os perfis aproximadamente planos dos tabuleiros. Isto torna a visitação em ambos muito popular e bem parecida.
Diferentemente de outras ocasiões, em que dei importância aos aspectos do relevo e da geografia, estarei aqui considerando especialmente a visitação turística, para a qual esses platôs são especialmente propícios.
Ibiapaba
Ibiapaba é uma das três regiões montanhosas do Ceará e a mais extensa e elevada delas. Desenvolve-se na extremidade noroeste do estado, já na sua longa e contestada divisa com o Piauí.
O trecho mais conhecido da Serra ou Chapada de Ibiapaba é aquele que percorre a sucessão de cidades cearenses, desde Croatá até Viçosa, numa extensão de talvez 130 km. É ao longo dele que aparecem as maiores altitudes e as mais exuberantes vegetações. É nele também que se concentra o turismo regional, à volta da Gruta de Ubajara.
Porém a visão mais impressionante de toda a parede de Ibiapaba ocorre antes para quem vem do sul, na região de Ipu. Como o vale que a contém é muito baixo, a apenas 250 metros, parece gigantesco o desnível até o áspero penhasco da serra, que surge imponente e inacessível. Esta visão dificilmente voltará a acontecer, devido às encostas florestadas da serra.

A Bica do Ipu vertendo do topo da Serra de Ibiapaba no Ceará (Fonte – Divulgação).
Mesmo a partir de 70 km ao sul você encontrará os perfis serranos, ora chamados de Serra Geral, ora de Cariris Novos. Inversamente, a formação prossegue por mais de 80 km a norte depois de Ipu, até Viçosa. Ela só se dispersará a partir da Serra de Ubatuba, talvez 40 km acima de Viçosa, a sua cidade turística mais ao norte. Faltou pouco, algo como meia centena de km, para que a serra finalmente alcançasse o mar do Piauí.
Assim, a Serra ou Chapada de Ibiapaba tem a meu ver cerca de 300 km, sendo a mais extensa do Nordeste (outras fontes indicam 200 km). Sua parte central e conhecida possui uma altitude média de 850 metros. Os trechos sul e norte são mais baixos, com talvez 700 metros. Que eu saiba, não existe nenhuma montanha conhecida associada à serra. O ponto culminante é indicado como 954 metros.

Mapa da Serra de Ibiapaba, na divisa interior do Ceará. O trecho visitado corresponde ao terço norte (Fonte – IBGE).
Mas Ibiapaba não é nem uma serra, nem uma chapada. Ela não apresenta as duas vertentes típicas das serras, e sim apenas uma, voltada a leste para o Ceará. E tampouco contém um platô completamente plano no topo de sua parede, orientado para o Piauí. Este na realidade é um suave declive, que avança a oeste. Desta forma, Ibiapaba é o que os geógrafos chamam de cuesta, uma forma de relevo bastante comum, que você já encontrou algumas vezes antes nos meus livros.
É uma região notável, com um pacote variado de rochas, desde a parede arenítica no Ceará até o planalto cristalino no Piauí. Como em todo o Nordeste, seu relevo foi formado a partir da ruptura do Continente Gondwana, quando o Atlântico veio a separar a América da África. O arenito fortemente compactado foi soerguido, formando a parede da Ibiapaba, que se sobrepôs à depressão sertaneja, composta pelas antigas rochas cristalinas encontradas em todo o Nordeste.
Ibiapaba é também singular pela vegetação. Na vertente leste, aparece uma mata atlântica frondosa e verdejante, com terrenos férteis aproveitados para o plantio de frutas, flores e hortaliças, além de cana de açúcar. Mas, no árido oeste, apresenta vegetações de carrasco e caatinga, com predominância da pecuária. Durante a seca, um lado permanecerá verde, mas o outro se converterá em ocre. Neste aspecto, lembra o Espinhaço.

Contrafortes florestados da Serra de Ibiapaba. Notar os topos aplainados da serra (Fonte – Didulgação).
Porém existem também zonas de transição, com feições de cerrado, de floresta amazônica e de mata dos cocais, compondo um intrigante mosaico vegetal. Não é especialmente rica em fauna, pois os terrenos altos, férteis e sombreados são bem ocupados e as depressões vazias são muito inóspitas. Assim, sobrou pouco espaço ou alimento para os animais.
Ibiapaba foi colonizada cedo, a partir do século XVI, por franceses e portugueses que aportaram na costa oceânica ao norte e desceram ao encontro dos índios tapuias e tabajaras – naturalmente exterminados. Houve no século XVIII um ciclo de mineração, seguido pelo desenvolvimento da agropecuária e, mais recentemente, pelo turismo. Nenhuma das cidades da região é de grande porte, as maiores sendo as vilas médias de Tianguá e Viçosa.

A Gruta de Ubajara teve sua infraestrutura renovada e é a maior atração regional (Fonte – Divulgação).
O maior atrativo regional é o PN de Ubajara, uma antiga reserva com área de 6 mil hectares. Sua gruta ocupa uma impressionante depressão, cercada por penhascos calcários e areníticos e servida por um peculiar bondinho suspenso. A caverna é de bom porte, com desenvolvimento de 2 mil metros, mas suas decorações sugestivas só podem ser admiradas nos 400 metros iniciais. Existem outras grutas nas proximidades, como Urso Fóssil e Morcego Branco. E trilhas que buscam as cachoeiras da parte baixa do Parque.
Os atrativos são basicamente os mirantes e as cachoeiras, o que decorre do relevo aplainado da serra. Você poderá encontrá-los em todos os municípios, desde Ubajara e São Benedito, até Tianguá e Viçosa. Há muitas cachoeiras, em especial no PN de Ubajara. O turismo é voltado para trilhas relativamente curtas e fáceis – ou seja, é mais um turismo de contemplação do que de aventura.

Pedra do Machado, um dos mirantes de visitação em Viçosa.
Só conheço duas outras reservas nesta região. Bem ao sul em Crateús existe a Reserva Natural Serra das Almas, cujos 6 mil hectares pertencem a uma ONG privada. Foi criada pela família proprietária da empresa das conhecidas Ceras Johnson. Seu fundador havia detectado a presença de carnaúbas na região, usadas como matéria prima, e o filho adquiriu as terras 65 anos depois. A Reserva possui alojamentos, painéis informativos, atividades de pesquisa e visitações frequentes.

PE das Carnaúbas, em Granja, no norte da Serra de Ibiapaba (Fonte – Divulgação).
No extremo norte, no município de Granja, foi criado o PE das Carnaúbas com 10 mil hectares, num belo vale circundado por serras. Apesar de estabelecido só cinco anos depois da Serra das Almas, não dispõe de qualquer instalação, conta com pouca divulgação e não apresenta visitação regular. É uma rica região de cerrado, floresta amazônica e mata atlântica, que algum dia a SEMA cearense abrirá ao público – aumentando e tornando ainda mais variada a área de visitação de Ibiapaba.
Martins
A região de Martins também está localizada numa extremidade estadual, no caso o limite sudoeste do Rio Grande do Norte. Considero nesta região tanto os platôs elevados e vizinhos de Martins e Portalegre, como a depressão dos serrotes de Patu, que é entretanto paisagisticamente bem distinta.

O Rio Grande do Norte possui duas principais regiões serranas. O Planalto da Borborema aparece no centro e o Alto Oeste na extremidade ocidental (Fonte – IBGE).
Porém, como pode ser visualizado no mapa, esta região é muito menor do que a de Ibiapaba – algo como 100 km² vs. 5.000 km² de área. A extensão de Ibiapaba é de pelo menos 200 km, comparada a não mais de 40 km no caso de Martins. Entretanto, ela é o principal centro do turismo serrano potiguar.
Ela é também menos elevada, variando nas altitudes máximas de 700 a 750 metros. Curiosamente, o ponto culminante do Estado é relativamente próximo, na extremidade oeste onde fica a Serra do Coqueiro, com 868 metros. Mas ela não apresenta visitação e nem sei se há acesso regular.
Gostaria de lembrar que a maior região montana do Estado são os 3.000 km² da Serra de Santana. Corresponde à presença do Planalto da Borborema no interior do Estado. Ela compõe uma sucessão algo confusa de cristas recobertas por bosques acima de 700 metros. É às vezes chamada de cordilheira, dada a sua extensão. Porém é apenas raramente visitada como atrativo serrano. Uma possível razão é a dificuldade de ascensão de suas encostas, apertadas e florestadas.

As diferentes redes de drenagem da bacia do Rio Apodi no oeste e no centro do Estado. A região plana do Apodi é calcária.
A região de Martins é chamada de Alto Oeste. Ela foi colonizada algo tardiamente, a partir do século XVIII. Todos os municípios derivaram de um só, Portalegre, assim chamado em referência a uma cidade portuguesa de mesmo nome. Ele surgiu pelo avanço dos currais de gado ligados à produção de carne de charque, ao longo da bacia do Rio Apodi-Mossoró. Foi ocupado por colonos portugueses, que expulsaram os índios paiacu. Muitos outras tribos foram sendo progressivamente afastadas – cariris, tarairius, panatis.
O outro município de importância no Alto Oeste é Pau dos Ferros. Devido à sua posição na planície ao invés da serra, concentrou o comércio regional – sua população equivale hoje à soma dos demais municípios citados neste texto. Ele foi percorrido por vaqueiros durante o ciclo do charque, que costumavam marcar com ferro em brasa o tronco de uma enorme oiticica que lhes servia de sombra durante seu repouso.
No início da colonização, só havia no oeste potiguar três povoados: Apodi, Portalegre e Pau dos Ferros. Já Martins começou a ser colonizado na mesma época, a partir de uma capela construída no alto da serra pelo fazendeiro Francisco Martins. A Serrinha dos Pintos é adjacente e se separou mais recentemente de Martins. Aliás, o Alto Oeste contém um grande número de pequenos municípios, em geral pobres e pouco povoados.

A Pedra do Sapo fica na borda da encosta de Martins, frontal á Gruta da Casa de Pedra (Fonte – Divulgação).
O principal acidente do relevo nordestino é o imenso Planalto da Borborema, que atravessa vários dos Estados nordestinos. Situado entre as zonas do agreste e do sertão, forma um platô de rochas cristalinas com talvez 95 mil km² que impede que a umidade marinha alcance a depressão sertaneja, tornando-a mais seca.
No extremo oeste do Rio Grande do Norte, o planalto foi sendo erodido sob a forma de mesas ou plataformas, que correspondem hoje aos platôs de Martins, dos Pintos e de Portalegre. Algumas formações ígneas residuais explicam os curiosos serrotes dispersos que decoram o baixo sertão, a exemplo da região de Patu. São estas quatro as regiões turísticas do Alto Oeste.

Mirante das Torres em Portalegre, debruçado sobre a depressão sertaneja (Fonte – Divulgação).
Lá você encontrará duas diferentes vegetações – a caatinga sertaneja e a mata atlântica serrana. Toda a região do sertão é ocupada pela caatinga resistente à seca, que perde as folhas e assume uma coloração ocre durante a estiagem – a exemplo das cactáceas, juremas, macambiras e imburanas. Nas áreas altas, a caatinga aparece consorciada com árvores e arbustos de maior porte, como o alecrim, o angico e o jatobá.
Assim como em Ibiapaba, os principais atrativos são os mirantes e as cachoeiras. Em Martins existem vários dos primeiros, acessíveis por veículo ou curta caminhada, o mais panorâmico deles sendo o do Canto da Serra. Da mesma forma, o Mirante das Torres em Portalegre. A Cachoeira do Pinga (95 metros) é a única perene no Estado, mas não é formosa. A Umaizeira é alcançada por uma trilha moderada e tem uma bela e rara disposição, vertendo em degraus encosta abaixo.

A Cachoeira da Umarizeira desce a Serra de Martins em degraus sucessivos, com bela vista da paisagem (Fonte – Divulgação).
Se na região de Ibiapaba o mar ancestral inundou o território pelo norte, na de Martins ele avançou pelo leste. Os esqueletos marinhos depositados e compactados formaram a rocha calcária. Ela recobre a Chapada do Apodi e chega até o oeste, misturando-se com o arenito e o granito predominante. Em muitos pontos, em especial logo abaixo de Martins, o calcário pode ser avistado.
Talvez a visita mais interessante da região seja a da Casa de Pedra, uma surpreendente gruta em mármore. Ela pode ser visitada a partir de uma estrada precária de terra ou de uma trilha íngreme de 2 hs descendo a encosta da serra. É uma caverna pequena que, ao ser atravessada, permite chegar a um cênico conjunto de pedras de mármore. Dizem ser a terceira maior desta rocha no país.

Interior da Casa de Pedra, cuja parte externa é uma formação em mármore.
Existem também lajedos, seja na Serrinha dos Pintos ou na Comunidade Quilombola do Jatobá em Patu. Neste caso, você poderá conhecer uma magnífica série de petroglifos gravados na superfície do lajedo. Entretanto, sem qualquer proteção (bem como sinalização ou identificação), estão expostos à destruição ao longo do tempo. Como é comum no Brasil, há vários sítios com pinturas rupestres, a exemplo da Furna do Pelado de Portalegre.

O maior maciço rochoso da região, e também o mais belo, é a Serra do Lima de Patu.
Patu (que significa platô em tupi) abriga a meu ver a mais extraordinária formação do Alto Oeste. Chamada de Serra do Lima, devido ao santuário com este nome lá construído, é um bloco contínuo de granito com um desenho abaulado e uma grande altitude. Você pode subi-lo até seus 600 metros por uma estradinha de terra. E contemplar da rampa de asa delta os sofridos sertões da vertente sul e, do cruzeiro que foi lá construído do outro lado, a cidade e os cênicos serrotes espalhados pela caatinga da sua encosta norte.












