Muito mais do que equipamentos cor-de-rosa: tecnologia também é equidade no montanhismo

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Até meados dos anos 1990 e início dos anos 2000, a maior parte dos equipamentos de montanhismo e escalada era desenvolvida considerando o corpo masculino como padrão. Na prática, isso significava que mulheres que praticavam esses esportes precisavam utilizar equipamentos projetados para homens, muitas vezes apenas em numerações menores ou tamanhos reduzidos.

Junko Tabei foi a primeira montanhista mulher a completar os 7 cumes em 1992. Foto: divulgação.

Com o aumento da participação feminina nas atividades de montanha a partir da década de 1990, esse cenário começou a mudar. O crescimento do número de praticantes chamou a atenção da indústria outdoor, que passou a investir no desenvolvimento de tecnologias e modelagens voltadas especificamente para mulheres.

Lynn Hill foi uma das maiores escaladoras dos anos 1990. Foto: Divulgação

Mais do que lançar produtos em cores consideradas “femininas”, o avanço representou uma mudança importante: equipamentos projetados para se adaptar melhor à anatomia feminina passaram a oferecer mais conforto, segurança e desempenho, contribuindo também para ampliar a equidade de gênero em esportes tradicionalmente dominados por homens.

Confira alguns exemplos de equipamentos que surgiram nesse contexto e ajudaram a tornar o montanhismo e a escalada mais acessíveis para mulheres.

Polarite Women – Salewa

Entre as décadas de 1990 e 2000, embora já existissem roupas tecnológicas para atividades de montanha, a maioria ainda era produzida em formato unissex, seguindo o padrão da indústria outdoor da época.

Foi nesse período que começaram a surgir coleções com modelagem feminina específica, levando em conta diferenças anatômicas importantes como proporção entre quadril e cintura, largura dos ombros e comprimento de mangas e pernas. A Salewa acompanhou essa mudança ao lançar versões femininas de suas roupas térmicas em fleece na linha Polarite.

Modelo vintage muito confortável porém com mais tecidos na cintura e mangas. Foto: Salewa

As peças mantinham o mesmo material técnico utilizado nas versões masculinas, mas apresentavam adaptações importantes, como cintura mais ajustada, maior espaço na região do quadril e proporções diferentes entre busto, cintura e ombros.

O comprimento frontal e traseiro também foi adaptado para oferecer melhor cobertura lombar e permitir um ajuste mais anatômico durante movimentos típicos de atividades de montanha. Mais do que uma questão estética, essas mudanças evitavam um problema comum das roupas unissex da época: excesso de tecido no tronco ou aperto na região do quadril.

Com uma modelagem mais adequada ao corpo feminino, as peças ajudavam a reduzir o volume de tecido sob mochilas e equipamentos, melhorando o conforto e a mobilidade em trilhas e escaladas.

Modelos atuais mais ajustados ao corpo permitem maior flexibilidade quando utilizados com mochila ou outros equipamentos. Foto: Salewa.

Mythos Lady – La Sportiva

A primeira sapatilha de escalada como conhecemos hoje surgiu em 1978. Durante décadas, porém, praticamente todos os modelos disponíveis no mercado foram projetados considerando a anatomia do pé masculino.

Foi somente nos anos 2000 que começaram a surgir versões realmente desenvolvidas para mulheres. Em 2003, a marca italiana La Sportiva lançou a La Sportiva Mythos Lady, versão feminina da clássica La Sportiva Mythos.

Sapatilha Mythos Eco Woman. Foto: La Sportiva.

A Mythos Lady ou Mythos WS ainda é um clássico entre as sapatilhas para escalada. Foto: La Sportiva

O modelo foi criado para atender a uma demanda crescente de escaladoras por sapatilhas com ajuste mais adequado à anatomia do pé feminino.

Entre as principais diferenças estavam a forma mais estreita, o volume interno reduzido e uma sola de borracha ligeiramente mais macia, projetada para oferecer melhor fricção e adaptação ao peso corporal geralmente menor das escaladoras.

Essas mudanças levam em conta diferenças anatômicas entre pés masculinos e femininos. Estudos de design de calçados mostram que, em média, pés femininos apresentam calcanhar mais estreito, menor volume interno e proporção diferente entre antepé e calcanhar.

Nos modelos unissex utilizados até então, era comum que a sapatilha ficasse folgada no calcanhar, algo que pode comprometer a precisão e a segurança durante a escalada.

Transalp Lady – Ferrino

Outro equipamento que passou por adaptações importantes foi a mochila de trekking. Até o início dos anos 2000, a maioria das mochilas técnicas era projetada considerando proporções corporais masculinas, o que muitas vezes gerava desconforto e até risco de lesões para mulheres durante longas caminhadas ou expedições.

As mochilas atuais contam com ajuste importantes para não machucar o corpo feminino. Foto: Ferrino.

Nesse contexto, a marca italiana Ferrino começou a desenvolver mochilas específicas para mulheres, incluindo modelos como a Ferrino Transalp Lady.

Essas mochilas passaram a incorporar ajustes importantes, como costas mais curtas, alças de ombro mais estreitas e contornadas — evitando pressão na região do busto — e cintos abdominais adaptados à morfologia feminina.

Além disso, o volume interno e a distribuição de carga foram redesenhados para oferecer maior estabilidade e conforto durante caminhadas de longa duração.

Atualmente, essas características estão presentes em diversos modelos da marca, como as mochilas Ferrino Finisterre Lady, Ferrino Durance Lady e Ferrino Agile Lady, projetadas especificamente para se ajustar à anatomia feminina.

Equipamento também é inclusão

O desenvolvimento de equipamentos específicos para mulheres representa um passo importante na busca por maior equidade de gênero nos esportes de montanha.

Quando roupas, calçados e mochilas são projetados considerando diferentes anatomias, o resultado não é apenas maior conforto, mas também mais segurança, melhor desempenho e maior permanência das mulheres em atividades como escalada, trekking e montanhismo.

Mais do que uma mudança estética, a evolução desses equipamentos mostra como tecnologia e design podem contribuir para tornar os esportes de natureza mais inclusivos e acessíveis para todos.

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Sobre o autor

Maruza Silvério é jornalista formada na PUCPR de Curitiba. Apaixonada pela natureza, principalmente pela fauna e pelas montanhas. Montanhista e escaladora desde 2013, fez do morro do Anhangava seu principal local de constantes treinos e contato intenso com a natureza. Acumula experiências como o curso básico de escalada e curso de auto resgate e técnicas verticais, além de estar em constante aperfeiçoamento. Gosta principalmente de escaladas tradicionais e grandes paredes. Mantém o montanhismo e a escalada como processo terapêutico para a vida e sonha em continuar escalando pelo Brasil e mundo a fora até ficar velhinha.

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