Quero lhe falar sobre o Pantanal, uma das mais fascinantes paisagens brasileiras, e sobre um homem corajoso que lutou por ele e, depois de conhecê-lo por décadas, criou uma organização para proteger a sua natureza e o povo que dela vive.

O Pantanal pode ser entendido como uma savana árida e alagável, ocupando uma planície baixa. Situada no limite ocidental brasileiro, abarca também regiões paraguaias e bolivianas. Este espaço ondulado pertence à bacia do Rio Paraguai, com seus afluentes brasileiros da margem esquerda. É a lenta drenagem desses rios que causa o seu alagamento.

Relevo brasileiro, indicando a posição rebaixada do Pantanal.

Relevo esquemático do Pantanal, mostrando a planície baixa confinada pela serrania à volta.
É interessante como o relevo confina e define o Pantanal. Percorrendo suas bordas de leste a oeste, você encontrará a norte as Chapadas dos Parecis e dos Guimarães. Essa última formação se verga no sentido sul, juntando-se à de Maracaju, uma longa escarpa que contém todo o lado leste da depressão pantaneira, separando-a dos campos de pastoreio e de grãos.
Contornado o bordo leste, aparece a sul a Serra da Bodoquena, responsável por empurrar o Rio Paraguai para o oeste, estreitando a sua drenagem. Agora que chegamos à extremidade sul do Pantanal, vamos encontrar a oeste as depressões bolivianas e paraguaias, chamadas de Chaco, que criam sucessivos degraus que se elevam a oeste, confinando de novo o Pantanal.

Esquema dos limites do Pantanal.
De Corumbá, virando para o norte, surge a formidável Serra do Amolar, uma região íngreme e aquática, em que o perfil das montanhas emerge a partir da infinita planície inundada. É aqui que o contorno do Pantanal se fecha, no que talvez seja sua mais bela paisagem.

Diz-se que o Pantanal é um país aquático, com mais de 200 mil km², dos quais 60% no Brasil. Destes, cerca de dois terços pertencem ao MS e o restante, ao MT. Existe nele um peculiar ciclo das águas, um movimento envolvente que percorre e transforma gradualmente toda a paisagem.

No início das chuvas em outubro, as águas se concentram na borda leste, de onde fluem os rios. À medida que o verão prossegue até fevereiro, a área alagada avança pela metade esquerda. Mas, quando as chuvas começam a rarear em abril, a borda leste começa a secar e a inundação passa a ocupar o centro e o oeste. Na seca até agosto, a região úmida se estreita e caminha para a direita e, no fim do processo em setembro, fica restrita à faixa do sul.

O ciclo das águas no Pantanal.
O clima do Pantanal é quente e sobretudo úmido, devido à evaporação da água contida no solo. É ele que desenha suas duas estações: durante a seca (maio a setembro), a superfície enxuga e expande e, nas águas (outubro a abril), floresce e inunda. Esta alternância torna a paisagem móvel, com mudanças no volume e traçado das águas e formação de ilhas e cordilheiras de vegetação.
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Os solos pantaneiros são planos, áridos e pobres. Porém, ele é fertilizado pelas inundações anuais, que carreiam o húmus do planalto, depositando terras, plantas e sementes nas margens dos rios e das vazantes. São elas que renovam a escassa fertilidade dos solos.

A Bacia do Rio Paraguai, com suas principais regiões, o Planalto, o Pantanal e o Chaco.
O pantaneiro das fazendas de gado da região provém dos bandeirantes e nordestinos que se mesclaram com os índios, negros e paraguaios. Tem uma natureza nômade, diferente do sedentarismo da lavoura. São homens rudes e calmos, independentes e desconfiados.

Acostumados ao pulso anual de inundação e isolamento, costumam acordar cedo e cavalgar por longas horas. São conhecedores da natureza, praticam uma alimentação e indumentária próprias e mantêm uma relação de confiança entre si e com seus patrões. Mostram grande respeito pelos animais, evitando caçar as espécies silvestres.

Ângelo Rabelo é natural de Belo Horizonte, mas passou sua juventude em Corumbá, no Pantanal Sul, junto a seu pai militar. Formado pela Brigada Militar do Rio Grande do Sul, retornou a Corumbá para servir. Sua missão era o combate ao tráfico dos couros dos jacarés. Era a década de 1980 e Ângelo tinha então 24 anos. As operações ilícitas vinham aumentando, apesar da proibição existir há já uma década e meia.
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Ângelo estava embarcado quando foi atingido por um tiro no ombro. O balanço do barco o teria salvo. Já o barqueiro foi alvejado na cabeça e morreu. O bando assassino não só exterminava os animais, mas também ameaçava o povo ribeirinho para que não fosse denunciado. Só à noite Ângelo foi resgatado por um helicóptero no interior da floresta, em condições precárias sob uma forte hemorragia, mas sobreviveu.
Ele ficou hospitalizado por dois anos em São Paulo e passou por uma dezena de cirurgias para recuperar os movimentos do braço direito. Ao retornar a Corumbá, a corporação propôs aposentá-lo, mas ele insistiu em continuar combatendo o tráfico. Era canhoto e demonstrou que poderia manusear armas.

Ângelo Rabelo, com esculturas de onças pintadas ao fundo.
Depois que tudo acabou, ele disse: Foram quase dez anos de guerrilha. Em 1991 houve o último tiroteio e a caça ilegal foi afinal extinta. Quase cinco milhões de jacarés, duas mil onças pintadas e três mil araras azuis e vermelhas saíram do Pantanal para atender a demanda da moda na Europa. Que prazer pode ser esse, de exibir o couro, o pelo ou a pena de animais mortos para a fútil elegância urbana?

Ângelo Rabelo implantou a partir de 1986 a Polícia Ambiental no Mato Grosso do Sul, com os primeiros 80 homens treinados por ele. Nessa função ele comenta: Segui a partir daí repensando qual era o nosso papel. Fizemos contato com várias ONGs para entender como ser mais competente e usar o poder da polícia para a proteção da natureza.
Ele diz que o Pantanal é um dos poucos biomas em que a atuação humana não se deu à base de tratores e máquinas. O homem pantaneiro chega no lugar inóspito e, até hoje, se obriga a prestar atenção aos sinais do ambiente para que o seu negócio sobreviva, ou seja, ele não é predatório, como em tantas outras ocupações.

Aposentou-se em 1996 da corporação, mas não da proteção à natureza. Casou-se pela terceira vez no ano seguinte. Seus dois casamentos anteriores não sobreviveram à constante luta pelo meio ambiente. Sua terceira esposa é uma moça pantaneira, que compartilha seu trabalho. Ângelo tem cinco filhos, o último tendo sido adotado.
Em reconhecimento à sua atuação, recebeu depois de aposentado a patente de coronel. Reside desde há muito em Corumbá e passou os últimos 40 anos de sua vida em constante vivência com o Pantanal. Ele assistiu ao lento empobrecimento das fazendas pantaneiras, pela fragmentação sucessória e pelos desastres naturais.

Criou em 2002 o IHP – Instituto Homem Pantaneiro, para a conservação de 300 mil hectares na região da Serra do Amolar. Seu esforço continuou o da Fundação Ecotrópica, que lá criou pioneiramente a RPPN da Fazenda Acurizal. O IHP opera no corredor ecológico entre a Serra do Amolar e o PN Pantanal Mato-grossense, incluindo diversas reservas e fazendas no caminho. O Pantanal é um lugar onde a natureza definiu regras para o homem e não o homem para a natureza, diz Ângelo.

Considerado estranho e isolado, o Amolar abriga as lagoas e as serras a norte de Corumbá. É uma paisagem linda, a longa cadeia em granito e arenito misteriosamente elevando-se das águas que recobrem a planície. A seu lado ficam grandes parques naturais, no Brasil e na Bolívia, bem como destacamentos militares de fronteira. De todas as suas etnias indígenas originais, só sobreviveram os índios canoeiros guatós, que habitam uma das ilhas. Alguns chamam esta região fascinante e remota de Pantanal Profundo.

A planície inundada do Amolar.
Há vinte anos nascemos inspirados pelo homem pantaneiro, por suas histórias e, principalmente, pelo seu respeito à natureza. Pois o vaqueiro da região não mata os animais nativos, apenas os criados. E um dos programas do IHP é valorizar a memória e a cultura da população pantaneira.
Foram os fazendeiros pantaneiros que apoiaram a luta inicial de Ângelo contra o tráfico. Por isso o nome do IHP é uma homenagem a eles. Em 2004 foi criado o Moinho Cultural para ajudar as crianças e adolescentes necessitados, em termos de educação, conhecimento e cultura. Dirigido por Márcia Rolon, esposa de Ângelo, atualmente atende 500 jovens.

Em 2008, criou a Rede Amolar, uma parceria com as fazendas da região, para fomentar a conservação. O IHP desenvolve várias atividades: monitoramento e pesquisa ambiental, preservação das nascentes, proteção da fauna silvestre, em especial da onça pintada.

A Rede Amolar inclui uma dezena de áreas (inclusive o PN Pantanal Mato-grossense) ao norte de Corumbá, abrangendo 300 mil hectares.
O Pantanal passou por uma situação dramática, devido a dois eventos. A primeira pelas cheias do Rio Taquari, o mais instável dentre todos os afluentes do Paraguai, que ocorrem em média a cada 4 ou 5 anos. A segunda, pelos incêndios devastadores de 2020 – neste mesmo ano, coincidentemente, ocorreu a maior cheia deste século.
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Ele também procura criar emprego pleno e produtivo com trabalho decente para todos. Curiosamente, o programa Amolar Experience desenvolve o ecoturismo na região, ao planejar trilhas para visitação, em especial nas reservas particulares que arrendou.
Seu recente programa para a venda de créditos de carbono é baseado na onça pintada e no desmatamento evitado, diz ele. Tem o apoio de muitos artistas, que criaram esculturas deste felino. Elas têm sido leiloadas nos Estados Unidos para financiar as entidades conservacionistas.

Mesmo depois da recessão causada pela pandemia, pelos incêndios e pelas enchentes, o IHP se mantém como uma empresa importante, com ativos de US$ 500 mil e receitas anuais da ordem de US$ 1 milhão. E, sobretudo, pelo exemplo de vida de seu fundador e da rede de parcerias. Foi através dela que o IHP lançou em 2016 o programa Felinos Pantaneiros.

As organizações parceiras do IHP.
Uma das parcerias opera junto ao Projeto Jaguar, com atividades também na Colômbia, no Chile e no Peru. Jaguar é o nome em espanhol para a onça pintada, assim como puma é para a onça parda. Entre outros objetivos, procuram preservar as conexões naturais que formam o enorme corredor ecológico onde vivem esses felinos. Como dizem, si hay conexión, hay vida.

O IHP é hoje corresponsável pela gestão do imenso PN que existe entre os dois Estados da região. Seu Presidente comenta que: Essas duas décadas foram marcadas pelo desafio de entender mais o Pantanal, enfrentar grandes desafios que o colocavam em risco e também consolidar a história de um grande corredor de biodiversidade do centro-sul, na Serra do Amolar.

Proteger um Patrimônio Natural da Humanidade, que precisava de mais ajuda, dedicação, não só para a gestão, mas também para a ampliação, foi bastante desafiador. Todo esse esforço culmina, hoje, com a integração efetiva do Parque Nacional do Pantanal Mato-grossense.
O IHP está colaborando com o IcmBio no combate aos incêndios tão comuns na seca, no apoio logístico nessa área tão remota e na realização de pesquisas conjuntas. É um exemplo da expansão territorial do IHP, que pretende alcançar a vizinha Bolívia.

O perfil acidentado da Serra do Amolar. Será uma bela aventura atravessá-la um dia.
Aprendemos com o Pantanal e hoje somos produtores de natureza, diz Ângelo. Ele enxerga um grande destino na integração do homem com a vida silvestre. Aos 62 anos, esse homem prático e realizador não parece ter deixado de sonhar. Comenta sobre a travessia de quatro dias pela Serra do Amolar que está sendo agora imaginada. Se eu tiver forças, quem sabe um dia cruzarei com ele por lá.












