Espero que você tenha lido logo antes sobre as baleias. Animais enormes e complexos, evoluíram a partir de 50 milhões de anos atrás, mas isso foi muito depois das tartarugas. Assim como as baleias, os quelônios tiveram uma origem terrestre, há 200 milhões de anos, quando eram semelhantes aos jabutis. Animais longevos, são um elo entre a vida dos tempos imemoriais e dos dias atuais.

Prancha do livro ‘Formas de Arte da Natureza’ do naturalista Ernst Haeckel (1834-1919).

Estrutura óssea da tartaruga.
As tartarugas marinhas digamos modernas são conhecidas desde antes de 150 milhões de anos atrás. Os dinossauros, que eram os senhores da natureza, desapareceram no fim do Jurássico, mas os quelônios tartarugas sobreviveram, protegidos por seus cascos espessos.
Seus ossos fundiram-se na carapaça, as patas tornaram-se nadadeiras, desenvolveram a capacidade de sobreviver às faltas de água e alimento, criaram uma notável capacidade de visão e de olfato, de mergulho e de navegação.
Antes consideradas répteis toscos e primitivos, hoje se sabe que as tartarugas evoluíram de uma forma única, animais peculiares com parentescos ainda enigmáticos com os lagartos, as aves, os crocodilos e até os dinossauros. Jamais algum animal vivo na natureza recorreu ao desenho ósseo das tartarugas.
Sete espécies sobreviveram até hoje, encontradas principalmente nos oceanos tropicais, sendo que duas delas têm distribuição restrita. As demais cinco são encontradas no Brasil.
Mas elas não são realmente nossas, pois são espécies migratórias, não pertencendo a nenhum país. Como dizem os burocratas da ciência, são um recurso compartilhado e sua preservação depende de ações efetivas de todos os países integrantes das suas rotas migratórias.

As cinco espécies de tartarugas que visitam o litoral brasileiro.

O ciclo de vida das tartarugas marinhas é peculiar, pois sempre usam as praias desertas do litoral para incubar seus ovos e sempre usam os oceanos para viverem e procriarem.
Note que as mães abandonam as crias na areia – a única possibilidade de proteção é a camuflagem dos ninhos. Quando os ovos eclodem na praia, é emocionante assisti-las rumando imediatamente para o mar. São tão pequenas e tão independentes.
Algumas sequer chegam às ondas e muitas são devoradas por aves marinhas, mamíferos e peixes. De cada mil filhotes, apenas um ou dois atingem a idade adulta. Mas, depois que isso acontece, poucos animais conseguem ameaçar os quelônios, à exceção de tubarões, orcas, onças pintadas – e o homem.

Ciclo de vida das tartarugas, mostrando a desova, a alimentação e a reprodução.
A partir daí, permanecem nos ambientes oceânicos e costeiros. No Atlântico Norte, migram para zonas de convergência das algas, que serão seu alimento, e lá passam a residir. No Atlântico Sul não se conhece onde permanecem no início da vida. Esses são chamados os anos perdidos, pois pouco se sabe deles.
Atingem a maturidade sexual entre 15 e 30 anos e vivem em média por 100 anos. Embora lentas no chão, possuem grande mobilidade na água. Mas suas longas vidas fazem com que sua sobrevivência não seja alta. Retornam sempre para a praia onde nasceram, e onde nascerão suas crias, a cada dois ou três anos. É uma espécie de poética, ou de determinismo, da sobrevivência.
Talvez se possa dizer que a maior fragilidade das tartarugas marinhas seja o seu processo de desova nas areias costeiras. Os ovos ficam expostos aos predadores, sem qualquer defesa. Além disso, a ocupação (frequentemente desordenada) de nosso litoral afetou a existência das áreas de desova.
O trânsito de veículos e a iluminação pública são grandes problemas, pois as jovens tartarugas nascem no crepúsculo e seguem a luz. As presenças de animais litorâneos, como cães, raposas ou lagartos, são outras ameaças. A captura das tartarugas e seus ovos evidentemente contribuiu para o risco de extinção.

As ameaças às tartarugas – as redes de captura.

A poluição do óleo.

Os anzóis de pesca

O nascimento nas praias.
No mar, o aprisionamento nas redes de pesca, o intenso trânsito oceânico, a poluição crescente e a extração de minerais continuam a expor as tartarugas ao risco de extinção. Mas, no alto mar, os conglomerados pesqueiros de camarões e de lagostas continuam a agir impunemente, ameaçando a importância da existência e preservação de tartarugas marinhas para o destino dos mundos, no dizer de Marcos Zurita.
Acho que é importante comentar sobre a interação dos quelônios com o meio ambiente. As tartarugas são sentinelas dos mares e se um ambiente está desequilibrado, as tartarugas também estarão. Como possuem uma série de relações e influências marinhas, as tartarugas são indicadoras da qualidade do ambiente.
Existe um fato fundamental sobre as tartarugas: a sua biomassa, em especial antigamente, quando eram muito numerosas. Veja que, nos mares do Caribe, foi estimado que diminuíram de milhões para milhares, ou seja, uma redução de um para mil. Sua biomassa talvez seja de 520 kg/hectare vs. 480 kg para peixes, 5 kg para lagartos e apenas 1 kg para aves.

Então, sua mera presença tem um forte impacto nas cadeias alimentares e energéticas dos oceanos. Contribuem para a dispersão e germinação de sementes, para o equilíbrio entre algas e corais, para a alimentação e proteção dos peixes que nadam ao redor, para a disponibilidade do cálcio e fósforo de suas carapaças.
Em solo, afetam a oferta de proteínas devido à predação de seus ovos, a limpeza de rios decorrente das escavações que praticam, a regulação dos campos de ervas e algas costeiras.
Dizem os biólogos que em um ambiente equilibrado e sem interferência humana, as tartarugas vivem bem e realizam seu ciclo de vida tranquilamente.
Para explicar a origem do Tamar, talvez seja melhor replicar o texto por eles publicado: Durante a expedição ao Atol das Rocas, em 1977, os estudantes (do curso de Oceanografia do RS) encontravam rastros e muita areia remexida , mas eles não se davam conta de que isso era produzido pelas tartarugas que subiam à praia para desovar, durante a madrugada. Em uma dessas noites, os pescadores que os acompanhavam mataram onze tartarugas de uma só vez. A imagem foi chocante para os que viram a cena.

A geração pioneira fundadora do Projeto Tamar, na visita histórica ao Atol das Rocas.
Surgiu daí o embrião da consciência ambiental em relação ao ambiente marinho. E aquela Faculdade de Oceanografia acabou formando toda uma geração pioneira de ambientalistas, pois os seus alunos passaram a se dedicar profissionalmente à conservação marinha. Durante dois anos, visitaram organizadamente todo nosso litoral, pesquisando a situação das tartarugas.
Em 1980, criaram o Projeto Tartarugas Marinhas. O nome Tamar surgiu das sílabas iniciais das palavras tartaruga marinha, abreviação que se tornou necessária na prática, pelo espaço restrito para as inscrições nas pequenas placas de metal usadas na identificação das tartarugas para diversos estudos.

Este projeto foi encampado pelo IBDF (futuro IBAMA), que o criou formalmente. Isto foi inevitável, pois cabe ao Estado a fiscalização e a normatização da proteção ambiental. Porém esta agência sofreu por décadas um processo de esvaziamento.
Para contornar a situação, foi estabelecida em 1988 a ONG Tamar, a quem cabe a ação administrativa, científica e financeira do projeto – ela responde por 60% das atividades.
O Tamar desenvolve ações de pesquisa, manejo e proteção das nossas tartarugas marinhas, além de atividades sociais, educação ambiental e geração de trabalho.
Praticam um modelo interessante de centros de visitação (primorosamente instalados nas orlas) e de fabricação de confecções e artesanatos (de ótima qualidade) pelas populações envolvidas no projeto.

O ciclo socioambiental praticado no Tamar.
Os resultados anunciados foram muito positivos, pois as populações das tartarugas se recuperaram, mais de 40 milhões delas foram protegidas, todo o ano milhões de crias são lançadas ao mar e foi criada uma percepção ambiental sobre a espécie, que é muito importante para a defesa de toda a natureza brasileira.
O nosso litoral é monitorado diretamente por 300 tartarugueiros, em várias comunidades onde quase duas mil pessoas acabam sendo envolvidas. A cada seis km temos um pescador responsável, para cada três pescadores um estagiário e, para cada três estagiários, um biólogo, diz Guy Marcovaldi, um dos fundadores do Tamar.
A grande visibilidade do Tamar e o avanço da consciência ambiental promoveram a mudança na legislação desde a década de 1970. A fauna é hoje considerada um bem da Nação, as tartarugas e seus ovos não podem mais ser capturados, elas estão incluídas nas espécies sob risco de extinção, é necessário o licenciamento ambiental nas ocupações litorâneas e os anzóis e redes devem obedecer a modelos seguros.

As bases do Tamar no litoral brasileiro, ao longo de 1.100 km de costa.
Acho curioso como determinados programas conservacionistas, como de araras, de micos, de peixes boi ou de papagaios, conseguem recursos, popularidade e resultados.
Na realidade, existe dentro da burocracia ambiental o chamado PAN, ou Plano de Ação Nacional para a conservação da fauna. São quase meia centena de programas, a nível de espécie ou de região, para a proteção de quase 900 espécies.

Quantidade de espécies contempladas por PANs em dezembro de 2021 (Fonte – ICMBio).
Se você perguntar qual a razão das enormes divulgação e sucesso do Tamar, eu repetiria duas de suas argumentações (levemente editadas):
Por que as tartarugas marinhas são consideradas espécies-bandeira? Como o urso panda e o mico leão dourado, as tartarugas marinhas são consideradas mundialmente espécies-bandeira, que se atribui às carismáticas espécies, que atraem a atenção das pessoas. São importantes para ajudar a difundir a mensagem conservacionista. Embaixadoras dos oceanos, através delas foi possível proteger milhares de outras espécies. Suas características e fisiologia as tornam seres únicos e unem cada vez mais pessoas para a sua conservação.

Por que é preciso proteger as tartarugas marinhas? Durante sua longa existência, uma tartaruga marinha leva e traz toneladas de nutrientes à sobrevivência de tantas outras formas de vida. Peixes, crustáceos e moluscos dependem dela para viver, assim como as formações de mangues, de bancos de areia, de gramas marinhas e de algas, de corais e de recifes. Proteger as tartarugas é, portanto, preservar a vida marinha e garantir a sobrevivência do planeta.
O Tamar vem crescendo e evoluindo há mais de quatro décadas e não deve ser incólume a críticas. Entretanto, apenas encontrei reclamações nas comunidades nordestinas sobre a hierarquia rígida, a falta de capacitação profissional e a concentração dos recursos no próprio projeto. O que suspeito ser natural. Não soube de nenhuma denúncia sobre o modelo institucional ou a especial relação com o ICMBio.

Tartarugas do tipo cabeçuda, verde e pente habitam os mares de Abrolhos (Fonte – wikimedia commons).
Se existe mágoa em relação ao Tamar, ela parece decorrer das realizações e não das carências do programa. A conscientização do público sobre a conservação das tartarugas foi uma conquista fundamental.
E as milhares de pessoas que uma vez assistiram a fuga para o mar das tartaruguinhas recém-nascidas, nas areias protegidas pelo Tamar, não mais esquecerão a maravilha que é a vida.












