Olmsted

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Houve uma época em que treinava exclusivamente corrida, para condicionamento aeróbico de altitude. Hoje minhas pretensões a montanhas nevadas têm recuado na medida do avanço da idade. Mas o que quero contar é outra história – como era monótono correr num parque urbano, sem árvores periféricas que me protegessem da cidade à volta.

Pois entendo que uma das funções da vegetação seria a de promover as sensações de afastamento da cidade e de imersão na natureza. Eu já havia encontrado esta proposta quando vivi fora do Brasil, em dois dos mais importantes sistemas de parques urbanos norte-americanos, de Boston e de Nova York. Ambos foram concebidos nos fins do século XIX por Frederick Law Olmsted. Este artigo, em parte baseado no texto de Charles Beveridge, é sobre este notável paisagista.

Olmsted pertenceu à oitava geração de uma família da Nova Inglaterra (Costa Leste dos EUA). Como não era incomum na época, estudou matérias díspares como engenharia, química, topografia e agricultura. E teve inúmeras ocupações, de jornalista, gerente de mineração, comerciante, editor de revista, administrador de fazenda. Mas foi sobretudo viajando pela Europa que conheceu, admirou e concebeu os parques urbanos dos quais foi talvez de todos o maior projetista.

Retrato de Frederick Law Olmsted (1822-1903) por volta dos 40 anos.

A nossa tradição latina coloca a praça como o centro da cidade – um espaço murado, construído, urbano e centralizado. Inversamente, o costume inglês faz do common, do espaço vazio, aberto e gramado, o centro da vila. Acho que foi a partir daí que Olmsted se debruçou sobre os cenários chamados naquela época de pastorais e pitorescos.

Os primeiros correspondiam aos gramados espaçosos e graciosamente ondulados – criadores de uma sensação de paz e de ordem. Os segundos, aos terrenos acidentados, recobertos por vegetação frondosa de árvores, arbustos e trepadeiras – geradores de um efeito de mistério e abundância.

Ambos os estilos contribuíam com uma certa qualidade de gradualismo e variedade, com uma situação ora de iluminação ora de obscuridade

Separação do tráfego de pedestres e de carruagens no Central Park de Nova York, sob o elegante desenho de Olmsted.

Olmsted aplicou o sistema da separação e da subordinação de forma consistente durante a sua obra. A subordinação acontecia pela cuidadosa construção das calçadas, ao atravessarem as paisagens de forma suave e sinuosa, conduzindo o visitante com naturalidade – assim, calçadas e visitantes eram subordinados à paisagem.

A separação ocorria principalmente pela segregação do trânsito de veículos através de passagens rebaixadas e pela construção de áreas apartadas das superfícies verdes para o lazer esportivo. Assim, seu trabalho não foi espontâneo ou intuitivo, mas metódico e planejado.

Durante trinta anos Olmsted desenvolveu seus projetos paisagísticos, com o objetivo de melhorar a qualidade de vida da América. E o que foram eles?

Eram sistemas integrados compostos por parques urbanos, com sua beleza cênica cuidadosamente projetada e preservada; por instalações para a recreação pública; por vias verdes de tráfego para conexões com a cidade; e pelas residências suburbanas, os escritórios corporativos ou os edifícios governamentais. Ou seja, o paisagismo a serviço do urbanismo de cidades que passavam então por surtos de crescimento.

Mapa do Colar Esmeralda, um cordão de áreas verdes interligadas que Olmsted projetou para a cidade de Boston. Talvez tenha sido então que concebeu seu desenho de parque linear.

Talvez o melhor exemplo seja o chamado Colar Esmeralda, uma cadeia de áreas verdes conectadas a vias de tráfego e canais fluviais em Boston. Com área de 450 hectares, tinha o aspecto de um colar verde à volta da península onde a cidade cresceu. Foi nele que Olmsted desenvolveu seu conceito de parque linear de conexão, entre calçadas, lagos, gramados e ruas, à semelhança do curso de um rio.

Mas a obra mais famosa foi o do Central Park de Nova York, seu primeiro grande projeto. Um trabalho gigantesco e dispendioso, numa área de 340 hectares então parcialmente habitada, na mais importante cidade do mundo. Além do paisagismo criativo, Olmsted criou o sistema de circulação separada entre pedestres e veículos, desviados para vias transversais.

O Central Park é procurado anualmente por 40 milhões de pessoas – compare com os 15 milhões que visitam os 160 hectares desenhados por Burle Max no Parque do Ibirapuera, nosso mais emblemático parque urbano. Talvez na América Latina só o Bosque de Chapultepec do México seja comparável: tem a mesma visitação do Ibirapuera, mas em quase 700 hectares.

O Central Park de Nova York à época de Olmsted. Notem a presença de altos prédios na sua borda, usufruindo de uma vista privilegiada

Olmsted concebeu inúmeros parques importantes, em Buffalo, Montreal e Detroit, o campus da Universidade de Stamford e os terrenos do Capitólio, que abrigam a sede do Congresso norte-americano. Projetou o paisagismo de bulevares e vias de tráfego rápido, de comunidades residenciais, grandes propriedades rurais e sedes de governo.

Acho que é interessante observar que Olmsted tinha um conjunto de convicções importantes para seu trabalho como paisagista. Para ele os parques tinham não só uma função natural, mas também educacional, social e urbanística. Você saberá num livro futuro que os parques de Burle Marx tinham, diferentemente, uma motivação estética e ambiental.

Olmsted enxergava nos parques bem mais do que meros campos verdes. Eram para ele locais de harmonia, de fuga, de regeneração. Lugares que contrastavam com a agressividade, o confinamento, a insalubridade dos ambientes urbanos – e onde todas as classes sociais poderiam se misturar na contemplação e no prazer da experiência bucólica.

Pode hoje parecer estranho, mas ele tinha altas expectativas sobre o impacto psicológico nos usuários de seus projetos. Achava que as caminhadas prazerosas produziriam uma sensação de pertencimento e tranquilidade. Isto aconteceria pela separação entre os diferentes cenários paisagísticos, de um lado, e os usos recreativos ou utilitários potencialmente conflitantes, de outro.

Olmsted disse que arquiteto é tão nobre (…) como aquele que, com uma concepção abrangente da beleza, esboça os contornos, escreve as cores e dirige as sombras de um desenho tão vasto que a Natureza será nele empregada por gerações. O homem que assim escreveu foi capaz por sua obra de democratizar a natureza.

Mas penso que o legado de Olmsted pode ser ampliado para uma outra escala. O seu conceito de parque urbano pode num certo sentido ser aplicado aos parques naturais e o seu desenho de vias de conexão pode ser comparado aos corredores ecológicos.

Foi há muito tempo que li sobre seu desejo de conectar entre si os parques, talvez atravessando todo o seu país. Para meu encanto, encontrei esta situação num pequeno país distante, o Butão. Nele todas as reservas naturais foram interligadas – se lá estivesse, Olmsted poderia caminhar de qualquer uma delas para todas as demais. Conheça a seguir que país é esse.

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Sobre o autor

Nasci no Rio, vivo em São Paulo, mas meu lugar é em Minas. Fui casado algumas vezes e quase nunca fiquei solteiro. Meus três filhos vieram do primeiro casamento. Estudei engenharia e depois administração, e percebi que nenhuma delas seria o meu destino. Mas esta segunda carreira trouxe boa recompensa, então não a abandonei. Até que um dia, resultado do acaso e da curiosidade, encontrei na natureza a minha vocação. E, nela, de início principalmente as montanhas. Hoje, elas são acompanhadas por um grande interesse pelos ambientes naturais. Então, acho que me transformei naquela figura antiga e genérica do naturalista.

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