Os escaladores Siebe Vanhee e Tommy Caldwell completaram a ascensão da Torre Central de Torres del Paine, no Chile, em exatas 24 horas. Após duas tentativas frustradas devido às condições adversas, a dupla alcançou o cume exatamente um dia depois de iniciar a escalada pela exigente Rota Sul-Africana, que percorre um impressionante sistema de diedros e fendas na face leste da montanha.
“No dia 13 de fevereiro, começamos às 3h20 da manhã e chegamos ao cume exatamente 24 horas depois, às 3h20 da manhã do dia 14 de fevereiro. Em seguida, fomos surpreendidos por uma forte nevasca e tivemos que fazer rapel por oito horas até a base. Essa é, sem dúvida, uma das minhas experiências mais épicas nas montanhas, e tenho muito orgulho de tê-la compartilhado com o Tommy, um parceiro de escalada realmente forte e que me apoiou muito”, relatou Vanhee dias depois.
O desafio assumido pelos dois era ambicioso: escalar a via integralmente em livre e em apenas um dia. A rota possui cerca de 1.200 metros de extensão, distribuídos em 28 enfiadas com dificuldades que chegam a 7b+ (o equivalente ao 8c no Brasil), sendo considerada uma das linhas mais emblemáticas do maciço de Torres del Paine.
Antes deles, apenas duas equipes haviam conseguido escalar toda a via em livre. A primeira ascensão sem o uso de equipamentos ou técnicas de progressão artificial foi realizada em 2009 por Sean Villanueva, Nico Favresse e Ben Ditto, que levaram 13 dias para concluir a empreitada. Já a segunda equipe formada por Tyler Karow, Cedar Christensen e Imanol Amundarian completou a via após 10 dias, em 2023.
As duas primeiras investidas de Vanhee e Caldwell foram interrompidas pelas condições climáticas extremas, características da Patagônia. Além dos riscos inerentes à escalada, a queda brusca de temperatura fez com que as fendas congelassem, tornando a progressão ainda mais delicada. Persistentes, os escaladores aguardaram uma curta janela de bom tempo para a tentativa derradeira.
A última tentativa
“Estrategicamente, está escalada foi talvez mais complexa do que outras que fiz na Patagônia. Positividade e vontade de tentar fizeram a diferença ”, disse Caldwell.
“Começamos um pouco mais devagar do que na nossa segunda tentativa, mas rapidamente recuperamos o ritmo quando chegamos às partes mais difíceis, as enfiadas 14 e 15”, revelou Vanhee em entrevista a revista Climber. “Apesar de ter escalado essa enfiada à vista na nossa segunda tentativa, Tommy escorregou na metade da via. Ele checou o movimento, desceu e completou a enfiada. Eu o segui e também completei — estávamos ambos um pouco nervosos”, contou sobre um dos momentos mais tensos da escalada.
Na segunda tentativa, a dupla havia alcançado a 21ª enfiada em 17 horas. Desta vez, a estratégia era atingir esse ponto o mais rápido possível e ainda superar os cerca de 300 metros finais até o cume.
Mesmo sob forte pressão de tempo, no qual nem mesmo havia margem para quedas ou longas tentativas em uma mesma enfiada, houve espaço para um breve momento de pausa. “Um dos melhores momentos da escalada: vestimos todas as nossas roupas, tiramos as sapatilhas de escalada depois de 19 horas e calçamos nossas botas de montanha leves. O ponto alto foi o líquido quente — cada um de nós bebeu um litro de eletrólitos e meio litro de café”, revelou Vanhee.
Nos trechos finais, considerados tecnicamente mais simples, a dupla manteve o foco. “Ao contrário da segunda tentativa, não quis comemorar até chegarmos ao cume. Mesmo o trecho mais curto e normalmente mais fácil pode se tornar um verdadeiro pesadelo quando há gelo nas fendas ou quando o vento aumenta em temperaturas já baixas”, afirmou.
Após uma rápida foto no topo e uma breve celebração, os dois iniciaram a longa sequência de rapéis sob baixíssima visibilidade, com vento forte levantando neve solta. “Encontrar as ancoragens foi uma verdadeira provação e levou um tempo perigosamente longo. Enquanto Tommy procurava, eu tentava me manter aquecido e acordado movendo todas as partes do meu corpo. Era difícil não parar, ficar imóvel ou até mesmo me encolher em posição fetal na ancoragem com os olhos fechados. Adormeci mais de uma vez. Felizmente, a luz do dia começou a aparecer e nossos corpos saíram desse estado lento e letárgico”, contou o escalador sobre a desgastante descida.
Oito horas após alcançar o cume, já sob o sol da manhã, a dupla retornou à base com a missão cumprida. Vanhee agradeceu ao parceiro Caldwell e a todos que o acompanharam durante as três semanas de expedição na Patagônia chilena, incluindo Mateus Tangeman e Felipe Tapia Nordenflycht, fotografos que acompanharam os escaladores durante toda a expedição.















