Eu tive uma existência litorânea anterior, quando navegava de lancha pelos mares da Baía de Sepetiba. É curioso como, tendo uma relação tão antiga com o mar, eu nunca tenha praticado mergulho. Mas depois fui viver longe da orla e descobri meu amor pela montanha. Então, se não procurei a profundidade, acabei achando a altitude.
Mas quero lhe contar sobre uma atividade que não sobe e pouco desce. Ela convive com lajedos e cavidades calcárias. Já conhecia desde há muito as cavernas, mas o primeiro lajedo importante só fui visitar na seca região do norte mineiro. E achei-o deslumbrante. Desde então eu os procuro, especialmente nos ambientes áridos ao norte.

A áspera vegetação no ambiente seco de Soledade.
Talvez o mais famoso deles seja o Lajedo de Soledade, próximo à cidade de Apodi (RN), não longe de Mossoró. Tenho sobre ele algumas histórias para contar.
Primeiro, sobre a formação deste território. Ele ocupa uma depressão formada no Período Cretáceo, 140 milhões de anos atrás. Inicialmente preenchida por sedimentos fluviais, foi depois invadida pelas águas rasas do mar, especialmente nas marés altas. Ao longo do tempo, foram sendo depositadas conchas e esqueletos marinhos, que se adensaram sob a forma de calcário, há 90 milhões de anos.
A área foi soerguida, fraturada e erodida para a espessura de apenas poucas centenas de metros no interior vs. quase um km no litoral, onde esta ação pouco a afetou. A exposição ao intemperismo esculpiu ravinas, cavernas e lajedos. O geólogo Eduardo Bagnoli diz: Essas estruturas, por acumularem águas nas estações chuvosas, há muito têm atraído tanto animais como o próprio homem, em busca de saciar sua sede e o seu espírito.

(a) – As pinturas mostram diferentes estilos, às vezes delicados e abstratos como nestes desenhos.

(b) – Outras vezes, a execução é mais forte e figurativa, como na figura da arara. E, ainda em outras, é mais simples e rústica.
O calcário guardou os fósseis das ostras, caramujos, algas e peixes que lá viveram. Mais tarde, preservou os vestígios da megafauna de gliptodontes e smilodons. E os homens que lá habitaram deixaram o registro de sua existência através de variadas e abundantes pinturas rupestres. Pertencem à Tradição Agreste e são datadas de 3 a 5 mil anos. Seus rabiscos ora nervosos ora suaves representam aves, répteis e peixes, bem como tapetes, círculos e barras. E também grafismos separados ou compostos, até hoje de difícil decifração.
Segundo, quero contar sobre seus habitantes originais, as várias etnias indígenas dos cariris, canindés, paiacus e tantas mais. Foram em tempos remotos expulsos pelos tupis do litoral nordeste e impedidos de avançar a oeste pelos jês – duas nações mais homogêneas e poderosas. Ficaram então ilhados no sertão, onde acabaram se adaptando à caatinga dos lajedos, chapadas e serrotes.
Deles o historiador Pedro Carrilhos fez o seguinte relato (resumido): Contam o tempo pelas luas, têm os agouros e ironias, como no cantar das aves e grunhir dos bichos, são muitos os feiticeiros que lhes adivinham os bens ou males que lhes hão de suceder, com os quais dão inteira fé. Correm um dia inteiro sem se cansarem, não têm ocupação na lavoura, não sabem dar notícia de sua progênie, casta ou descendência e os vemos andar em toda a parte ao rigor do tempo, sem casas, aldeias, nem jazigo ou lugar certo.

Índios guerreiros cariris em pintura do holandês Albert Eckout no século XVII.
São homens bem-dispostos, sadios; sem achaques e de largas vidas, mais ferozes do que as mesmas feras dos montes agrestes, porque a muitas levam vantagem. Onde quer que lhes anoiteça, dormem sobre a areia pura, sem sombra de árvore ou abrigo. Mas antes, no lugar mais descoberto e patente ao ar e céu, ali se deitam acendendo fogos que parecem lhes servem de alimento.
Esses índios ferozes que tanto encantaram nosso cronista foram sendo exterminados pelos criadores de gado. Eles avançaram para o interior a partir da segunda metade do século XVII, quando os holandeses já tinham sido afastados. Ao fim dele, só restavam os paiacus na região, assentados numa vila às margens da lagoa de Apodi. Transferidos para as terras devolutas ao sul, lá desapareceram, ainda em meados do século XIX, sem deixar mais vestígios do que a megafauna.
Terceiro, quero falar sobre o lajedo. É uma superfície de meros dois km² em rocha calcária, com superfície recoberta por lapiás (fraturas por dissolução da rocha) e presença de ravinas, cavernas, colinas e ressaltos, esculpidas durante milênios pela ação do tempo. A área preservada alcança hoje apenas 5% do total.

Lapiás na superfície do Lajedo.
A vila onde está situado chama-se Soledade, um distrito de Apodi. Talvez este nome tenha decorrido da natureza quente e hostil da região, que impressionou os primeiros colonizadores. Talvez tenha vindo do sentimento de solidão de um casal de escravos que foi separado quando do povoamento. Ela veio do Ceará com seu dono, abandonando seu amante para nunca mais revê-lo. Curiosamente, ela se chamava Solidôncia.
O primeiro relato conhecido, mencionando as pinturas antigas, constou da obra de 1796 do Padre Telles de Menezes. No século XIX, elas foram novamente referidas, associadas mais tarde ao estilo do sítio das Sete Cidades no Piauí (do que discordo). Foi só em meados do século XX que foram encontrados os primeiros fósseis da megafauna. Estudos de geologia e paleontologia foram feitos a seguir, colocando o lajedo em evidência.

Local de um rio seco, no interior do Lajedo. Note o desgaste das paredes.
Nas décadas de 1970-80, as rochas do lajedo eram irresponsavelmente dinamitadas para obtenção do calcário. No fim dos anos de 1980, a Petrobrás passou a se interessar pela região, à busca de petróleo. Seus geólogos Bagnoli e Bertani descreveram o acervo rupestre e procuraram protegê-lo com a execução de cercas, a construção de um Museu e a criação de uma Fundação na década de 1990.
A Petrobrás acabou se desligando do lajedo, mas houve o apoio do ICMBio na execução das atuais estruturas para visitação. Entretanto, o Lajedo de Soledade é até hoje apenas um sítio arqueológico, não sendo protegido por uma APA ou uma UC e sequer integrando o Geopark Seridó.
E, por último, quero lhe contar a história de Cláudio Sena. No ano de 1988, era um menino no meio da adolescência, quando os geólogos da Petrobrás percorriam a região e faziam palestras para educar a população. Essa ciência o deixou maravilhado e ele se tornou um guia mirim, exatamente como o que acompanhou e alegrou a minha visita.
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Entretanto, como Cláudio tinha alguma instrução, seu destino seria o de migrar para os centros maiores. Porém ele me disse que sentiu uma dívida para com os homens primitivos que haviam desenhado aquelas estranhas figuras nas paredes imemoriais. E, então, permaneceu. Na década seguinte, o Museu já existia e ele fez em 1996 um teste para tornar-se seu diretor. Mas Cláudio conta: Eu não queria ser diretor, queria ser guia.

O Museu Arqueológico de Soledade (Fonte – Robson Pires).

Claudio Sena fazendo o que mais gosta, contando histórias sobre os pintores do passado (Fonte – TV Brasil).
Em 2017 tornou-se presidente da Fundação criada para proteger o Lajedo, mas deixou o cargo, decepcionado com questões políticas. Cláudio é funcionário público, casado, com dois filhos. Toda a sua vida se passou em Soledade. Seu sonho é ampliar e documentar a área. E continuar formando novos guias e novos defensores do projeto. Como ele diz, que tenham amor pelo lajedo.












