Sozinho na parede: italiano realiza ascensão inédita na Torre Central de Paine

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O Parque Nacional Torres del Paine foi um dos grandes destaques da última temporada de montanhismo na América do Sul, reunindo importantes conquistas em suas montanhas emblemáticas. Entre elas, a ascensão inédita em estilo solitário da Torre Central de Paine, realizada pelo alpinista italiano Stefano Ragazzo.

As três torres icônicas de Torres del Paine. Foto: Luis Andrade / Pexels

Stephano comemorando a conquista. Foto: @menino.stefano

Ragazzo entrou para a história da escalada mundial ao se tornar o primeiro a completar sozinho a ascensão da montanha, pela via Riders on the Storm. Ele utilizou apenas sistemas de auto segurança, na via que é considerada uma das grandes referências da escalada em grandes paredes no mundo.

A linha, aberta em 1991 por Kurt Albert, Wolfgang Güllich, Bernd Arnold, Norbert Bätz e Peter Dittrich, permaneceu por décadas como um dos maiores desafios da escalada em livre. A via só foi completamente encadenada nesse estilo mais de 30 anos depois, em fevereiro de 2024, pelos belgas Nico Favresse, Sean Villanueva e Siebe Vanhee. No mesmo ano, Sean Villanueva, escalou a via Kearney-Knight na Torre Central em solo como parte da travessia Doble M, passando por todos os picos do maciço.

Com cerca de 1.200 metros de desnível ao longo da face leste da Torre Central, a via apresenta dificuldades constantes, alto nível de exposição e riscos significativos, especialmente pela queda de rochas. Poucos escaladores no mundo já se aventuraram nessa rota. No caso de Ragazzo, foram 15 dias sozinho na parede, dentro de uma expedição que durou aproximadamente dois meses.

Mesmo após perder parte do equipamento em uma tempestade ele seguiu até o cume. Foto: @menino.stefano

Durante esse período, o alpinista enfrentou condições extremas, incluindo tempestades intensas, perda de equipamentos e alimentos, além de sofrer um congelamento nos pés.

Em relato publicado em suas redes sociais, o italiano descreveu o impacto a experiência. “Uma mistura de emoções e sensações tem me atingido nos últimos dias, tanto no corpo quanto na alma. A dor do congelamento nos meus pés é suficiente para me lembrar que não faz tanto tempo assim desde que pisei o chão em 7 de março, após 15 dias sozinho na face leste da Torre Central de Paine, onde, pela primeira vez na vida, lutei por algo mais do que um cume: pela minha vida, ou melhor, por um único pensamento, o desejo de voltar para os braços da minha namorada. Esse pensamento me manteve vivo e provavelmente foi o principal motivo pelo qual consigo escrever estas palavras hoje”, disse.

O escalador também relatou um dos momentos mais críticos da ascensão, quando uma forte tempestade comprometeu sua estrutura de permanência na parede. “Sempre tentei evitar falar sobre as coisas ruins que aconteceram lá em cima, mas desta vez, quando a lona da minha plataforma suspensa voou e a plataforma virou durante uma tempestade terrível, perdendo parte do equipamento e da comida, com as minhas pernas presas nas correias… pensei que tudo tinha acabado, para ser honesto. Lutei com todas as minhas forças. Passei a noite inteira acampado em uma pequena saliência, pendurado na corda, esperando a tempestade passar, mexendo os pés constantemente por causa do frio e segurando a parte de cima do meu saco de dormir para mantê-lo aquecido. Não havia como subir ou descer: todo o meu equipamento estava nas estruturas acima de mim. Meu saco de dormir estava tão molhado que parecia mais um lençol. Eu literalmente sobrevivi. A manhã chegou com uma janela de bom tempo”, escreveu.

Após superar os desafios, Ragazzo também destacou a importância do apoio recebido e das palavras de seu treinador, que serviram como motivação durante os momentos mais difíceis. “Meu treinador, Seth Keena, me disse antes de partirmos: “Mergulhe fundo em si mesmo”. Ele finalizou o seu relato agradecendo a todos que ajudaram durante essa aventura.

Ragazzo é um alpinista e guia de montanha italiano e também atua como palestrante. Com 35 anos de idade, ele já é reconhecido por seu estilo técnico, exploratório e frequentemente em solo nas grandes paredes do mundo. Entre seus principais feitos estão a primeira ascensão solo com corda da via “Eternal Flame” na Nameless Tower (Paquistão) uma via de mais de mil metros de extensão a mais de seis mil metros de altitude, e a escalada solo da clássica “The Nose”, com seus quase 900 metros de extensão no El Capitan em Yosemite (EUA).

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Sobre o autor

Maruza Silvério é jornalista formada na PUCPR de Curitiba. Apaixonada pela natureza, principalmente pela fauna e pelas montanhas. Montanhista e escaladora desde 2013, fez do morro do Anhangava seu principal local de constantes treinos e contato intenso com a natureza. Acumula experiências como o curso básico de escalada e curso de auto resgate e técnicas verticais, além de estar em constante aperfeiçoamento. Gosta principalmente de escaladas tradicionais e grandes paredes. Mantém o montanhismo e a escalada como processo terapêutico para a vida e sonha em continuar escalando pelo Brasil e mundo a fora até ficar velhinha.

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