Uruburetama

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Se você é montanhista ou escalador no Sul ou no Sudeste, não despreze essa região, apenas por pertencer às terras baixas do Nordeste. Ela é simplesmente esplêndida. Não são acessos distantes nem paredes grandes, nem talvez difíceis. Mas o visual é diferente e grandioso. Conheça esse outro granito, menor e modesto, e sinta o prazer da descoberta e da conquista.

Uruburetama

Este estranho nome representa um formidável maciço rochoso no interior do Ceará, a apenas 150 km de Fortaleza. Na realidade, este é o menor dos três principais municípios que o contêm, os demais sendo Itapajé e Itapipoca, tendo todos os da ampla região à volta se originado deste último.

Uruburetama significa terra de urubus, pois essas eram aves comuns na região. É uma formação relativamente grande, com 45 km lineares e superfície de talvez 1.200 km². Quero avisar que uso neste artigo este nome sonoro tanto no sentido do maciço em geral como do município em particular.

Localização do Maciço de Uruburetama. A área escura representa os granitos datados de 0.5 a 1.0 bilhão de anos.

O território teve uma ocupação relativamente tardia, a partir do século XVIII, associada às sesmarias da Capitania do Siará. O relevo acidentado e o solo pobre não contribuíram para o crescimento da agricultura. As atividades mais comuns foram a pecuária nos campos e o plantio da banana nas serras. As cidades têm até hoje porte pequeno ou médio e são um tanto pobres e feiosas.

A relativa proximidade ao litoral indica que as formações rochosas são granitos associados ao Planalto da Borborema, que constituiu o embasamento cristalino de quase todo o Nordeste. O intemperismo que resultou das agudas oscilações do clima recente, a partir dos últimos três milhões de anos, afetou a cobertura da serra, desnudando seus picos nos mais variados formatos.

Panorama das serras do Maciço de Uruburetama. Embora com um sentido E-W predominante, elas apresentam direções variadas.

É assim que Uruburetama exibe rochas intensamente fraturadas, com incríveis formatos de pontões, pirâmides, domos e penhascos. Elas se sobrepõem às cristas florestadas de estreitos vales profundos, muitas vezes com orientações divergentes. A meu ver, só a Serra de Coquinhos tem uma direção coerente, correndo retilínea de Itapajé a Itapipoca. O maciço dificilmente acolherá um dia uma rampa de asa delta, pois o vento caprichoso roda em todas as direções.

É numa das suaves corcovas dessa mesma Serra de Coquinhos que se encontra a Pedra da Boa Vista, ponto culminante do maciço, com 1.080 metros. É o quarto mais elevado do Ceará. Os dois primeiros ficam na Serra Branca de Catunda, no sertão central do Estado. Curiosamente, seus 1.155 metros podem ser alcançados por uma confortável caminhada inferior a um km.

(a) – Pedra do Frade, a mais conhecida formação do maciço.

(b) – Pedras do Frade e da Freira vistas da encosta de Itapajé.

A mais conhecida montanha é a Pedra do Frade, na realidade um conjunto de frade e freira, que aparenta um monge com um capuz. Ela é avistada de Itapajé numa impressionante verticalidade, que até parece religiosa, na encosta alta da serra. Na sua base a 865 metros existe um refúgio, acessível por 9 km de estrada precária a partir da cidade. A parede de 220 metros teria sido conquistada na década passada por Ricardo Damito.

Damito me disse que sua via, aberta em 2003, é uma 8a A1, portanto com considerável dificuldade. Desde então, não voltou a ser escalada. A parede ao lado, chamada de Freira, contém duas vias, de natureza esportiva. A mim parece incrível que paredes desta importância tenham recebido tão escassa atenção.

Há um problema recorrente em Uruburetama: devido ao relevo acidentado, as estradas de acesso a muitas das pedras podem se tornar impraticáveis fora da estação seca. Dois exemplos são as Pedras do Damião e do Cágado, que podem exigir caminhadas mais longas nos períodos chuvosos. As duas são belas formações no granito cinza claro local.

(a) – Aproximação da Pedra do Damião, vizinha ao Frade.

(b) – Visual da Pedra do Cágado, contemplando o Açude Quandu.

Ao percorrer a região, você notará que sua vegetação evolui do campo para a mata. O sertão de Itapajé é recoberto pela caatinga baixa de arbustos espinhentos. Na serra ainda aparece uma caatinga alta, que abre espaço para a mata atlântica mais úmida de Uruburetama. Este município no centro do maciço permanece verde o ano todo.

A seguir em Itapipoca, a mata diminui, assume aspecto de cerrado, volta de novo a ser sertão, que finalmente encontra o mar. Por isto, Itapipoca é chamada de a cidade dos três climas – serra, sertão e praia.

Os diferentes biomas trazem uma grande riqueza vegetal. Você encontrará tanto barrigudas e aroeiras como angicos e mulungus, junto com cactos, juremas, bromélias e orquídeas – e até mesmo árvores de mangue. E passará do clima ameno e sombreado da serra para o calor intenso da caatinga aberta.

O periquito da cara suja, ameaçado de extinção, é uma espécie endêmica das matas úmidas de Uruburetama Uruburetama (fonte – Divulgação).

A bacia principal é a do Rio Mundaú, um pequeno curso isolado que corre para o mar. Sua foz está dentro de uma APA, que procura proteger as dunas e os manguezais. A região conta com três açudes, o principal sendo o da Gameleira. Os outros dois são o Poço Verde e o Quandu (nome de um porco espinho), todos muito bonitos.

Muito da fauna original se dispersou devido ao desmatamento pelo plantio das bananeiras. Mas são ainda reportadas raposas, gambás, gatos silvestres, veados, preguiças e até alguma onça parda, na companhia de aves e cobras. Algumas das primeiras são avoantes, ou seja, migratórias. À medida que o cultivo da banana recuou, a mata tem avançado – talvez junto, ao longo do tempo, com as espécies expulsas.

(a) – Começo da trilha para a Pedra Apertada Hora (Fonte – Divulgação).

(b) – No cume da Pedra da Bulandeira, com o Frade e o Damião ao fundo, na vertente oposta do vale.

(c) – Pedra da Bandeira, que se lança diretamente a partir da planície sertaneja.

(d) – Início da via do Itapicu, uma das mais exigentes da região (Fonte – Divulgação).

Procurei resumir abaixo as características das principais pedras de Uruburetama. Devo avisar que, embora tenha avistado todas elas, só subi em metade. Agradeço a UBR Trilha pelo apoio e informação, foi surpreendente encontrar nesta região de turismo escasso uma atividade tão bem estruturada.

Detalhes das Principais Pedras do Maciço de Uruburetama

Pedra Altitude Distância Ascensão
1.Frade¹ 1.080 m 6 km

zero

565 m

zero

2.Damião² 860 m 6½ km

2½ km

615 m

150 m

3.Caveira 750 m  6 km 480 m
4.Boa Vista³ 930 m 1 km 90 m
5.Bulandeira 940 m 3 km 250 m
6.Bandeira 480 m 2½ km 250 m
7.Cágado4 950 m

 

3½ km

1½ km

310 m

200 m

8.Boa Vista5 1.080 m 3 km 300 m
9.Apertada Hora 740 m 2½ km 585 m
10.Itapicu 890 m 1½ km 250 m
11.Itacoatiara 860 m 1 km 100 m
12.Assunção 860 m 1½ km 280 m

Notas:   

  1. A partir da CE-168 ou por estrada até o sopé da pedra.
  2. A partir da vila de Itapajé ou do sítio da Luisinha na serra.
  3. Boa Vista do bairro do Retiro em Itapajé.
  4. Com maior ou menor aproximação por estrada.
  5. Boa Vista na Serra dos Coquinhos de Itapajé.

Como você pode notar, as trilhas são em geral curtas, mas nem pense que sejam fáceis, devido aos aclives e às irregularidades. Existem travessias, a principal sendo os 16 km de Camará a Itapajé. O clima me pareceu mutável, com formação de nuvens e chuviscos, apesar da minha visita durante a estiagem. A região não é protegida por unidades de conservação e sequer existe uma APA envolvendo o maciço todo.

(a) – Visual dos altos da Pedra Rajada, em Maranguape, CE (Fonte – Divulgação).

(b) – Furna dos Ossos em Tejuçuoca, ao sul de Uruburetama (Fonte – Divulgação).

(c) – Platô na Pedra do Itapicu onde é possível acampar (Fonte – Divulgação).

A visitação é limitada, porém dirigida ao público jovem que prefere acampar. Ou seja, é de fato um turismo de aventura. Não cheguei a conhecer todo o espaço serrano, apenas seus três principais núcleos. Mas em municípios vizinhos, com nomes impressionantes como Maranguape, Irauçuba, Tejuçuoca e Tururu, existem interessantes formações rochosas esperando por sua visita.

(a) – Trecho da estranha Pedra Ferrada, com antigas pinturas rupestres (Fonte – Divulgação).

(b) – Elas têm um raro estilo tosco e nervoso (Fonte – Divulgação).

Porém todo este cenário tem em Itapipoca uma exceção, devido à extensão e situação do município, que é o triplo em tamanho dos dois demais somados. Há aqui dois aspectos interessantes. O primeiro é a existência de pinturas rupestres da Tradição Nordeste. Existe um conjunto um tanto limitado na Serra de Arapari, onde aliás a povoação se iniciou.

Mas a principal atração são as antigas figuras (dizem que com 12 mil anos) na estranha Pedra Ferrada. É um grande bloco rochoso elevado, a cerca de 250 metros, em região de caatinga. A trilha um tanto confusa em mata rala tem 4 km, mas infelizmente não estava acessível.

São oito painéis onde as pinturas estão alojadas em buracos esculpidos pela água. É importante que este sítio único venha a ser preservado, para controlar as pichações idiotas e as ações dos insetos, aves e morcegos.

(a) – Sítio das Lajinhas, lajedo com tanques de água pluvial e fósseis da megafauna.

(b) – Lençóis Baleenses na Praia da Baleia, onde encalhou uma jovem jubarte na década passada.

Existem em Itapipoca vestígios da megafauna nordestina, como mastodontes, tigres dentes de sabre e gliptodontes, num curioso lajedo onde as cavidades acumulam belos poços de águas pluviais. Ele num cenário muito bonito, tendo a serra distante ao fundo.

E há também nada menos do que 32 km de litoral, e especialmente a Praia da Baleia. Embora não seja especialmente bonita, ela acaba sendo a principal atração de toda a região. Ficam nas proximidades os 32 mil hectares da Terra Indígena Tremembé.

E, paralelamente à praia, o espetáculo deslumbrante e surreal do conjunto de dunas, chamado ironicamente de Lençóis Baleenses. Não são longos, apenas 14 km, mas são realmente deslumbrantes.

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Sobre o autor

Nasci no Rio, vivo em São Paulo, mas meu lugar é em Minas. Fui casado algumas vezes e quase nunca fiquei solteiro. Meus três filhos vieram do primeiro casamento. Estudei engenharia e depois administração, e percebi que nenhuma delas seria o meu destino. Mas esta segunda carreira trouxe boa recompensa, então não a abandonei. Até que um dia, resultado do acaso e da curiosidade, encontrei na natureza a minha vocação. E, nela, de início principalmente as montanhas. Hoje, elas são acompanhadas por um grande interesse pelos ambientes naturais. Então, acho que me transformei naquela figura antiga e genérica do naturalista.

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