Vale do Cacatu: montanhista experiente fala sobre um dos trechos mais hostis da Serra do Mar e os riscos de subestimar a montanha

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A história de Roberto Farias Tomas ganhou destaque nacional nesta semana após o jovem passar cinco dias desaparecido na Serra do Mar paranaense. O fato de ele ter sobrevivido sem equipamentos adequados em meio à mata chama atenção por ser incomum e é considerado praticamente inédito até mesmo no contexto do montanhismo brasileiro.

Poucas pessoas já conseguiram descer o Vale do Cacatu, um dos ambientes mais isolados, técnicos e perigosos da Serra do Mar paranaense. Encaixado entre o Pico Paraná e o Caratuva, as duas montanhas mais altas do Sul do Brasil, o vale reúne desnível extremo, progressão sem trilhas, terreno instável e isolamento absoluto. Antes de Roberto, apenas duas equipes de montanhistas experientes haviam percorrido toda a sua extensão. A primeira, formada pelos montanhistas Lauro, Gustavo e Giancarlo Castanharo, realizou a travessia em 1997, ao longo de três dias.

A segunda descida completa ocorreu em janeiro de 2003, realizada pelos montanhistas Elcio Douglas Ferreira e Paulo Fernando Marinho, em uma travessia de dois dias. Na época, a incursão aconteceu em um contexto dramático: o desaparecimento do turista Alexandre Maoski, de 28 anos, no Pico Paraná, que já somava dez dias de buscas sem sucesso.

Elcio e Paulo em 2003. Foto: Elcio Douglas.

“Diferentemente de outras investidas na Serra do Mar, nas quais praticávamos montanhismo exploratório, desta vez o objetivo era outro. A incursão ocorreu em um contexto de apreensão, motivado pelo desaparecimento de um turista na região do Pico Paraná”, relata Elcio.

A tentativa de investigação do Vale do Cacatu ocorreu em pleno verão, sob chuvas intensas e praticamente contínuas, condições semelhantes às enfrentadas por Roberto. Segundo Elcio, após alcançar a nascente do rio Cacatu, a progressão tornou-se lenta, técnica e extremamente perigosa. O montanhista explica que o leito do rio é formado por enormes blocos de rocha, piscinas profundas e corredeiras violentas, enquanto as margens são compostas por barrancos instáveis, gretas e árvores mortas.

Foto: Elcio Douglas.

“O terreno era extremamente hostil. No leito, enormes rochas do tamanho de pequenas casas e inúmeras piscinas profundas dificultavam brutalmente a progressão. As margens eram compostas por gretas, barrancos instáveis e esqueletos de árvores mortas”, descreve.

“O rio é tecnicamente perigoso e imprevisível, sobretudo no verão, quando chuvas intensas transformam corredeiras em verdadeiras quedas d’água. Nos trechos mais íngremes, o deslocamento se torna extremamente arriscado, com alto potencial de acidentes graves ou fatais. Nos trechos menos inclinados, enormes blocos rochosos e poços profundos inviabilizam a progressão pelo leito, enquanto as margens, tomadas por gretas e árvores mortas, também não oferecem alternativa segura”, contou.

Além da ausência total de trilhas e do isolamento, o Vale do Cacatu se caracteriza pela presença constante de obstáculos que elevam significativamente o risco de acidentes. “ Houve uma passagem particularmente perigosa: uma rampa inclinada, extremamente lisa, transversal ao rio, por onde escorria um filete de água que desembocava no vazio e caía diretamente no Cacatu. Não havia como contornar. A única solução foi se arriscar naquela travessia tenebrosa, onde um simples escorregão significaria o fim. Superar essa rampa foi um enorme alívio”, afirma.

Um dos trechos de corredeiras e lajes escorregadias. Foto: Elcio Douglas

Isolamento total e desgaste físico extremo

Para Elcio, percorrer o Vale do Cacatu impõe não apenas desafios técnicos, mas também psicológicos. Ele descreve o ambiente como sombrio, com nevoeiro constante, ausência de visuais e uma sensação permanente de confinamento.

“A atmosfera era sombria e fantasmagórica, intensificada pelo nevoeiro denso e pela chuva constante. Os perigos estavam presentes o tempo todo, sem trégua”, relata o montanhista.

Elcio relembra que, mesmo com toda a experiência acumulada, após mais de onze horas de progressão em um único dia, com apenas meia hora de descanso, a dupla ainda se encontrava a cerca de 500 metros de altitude, distante da saída do vale. No dia seguinte, a constatação foi alarmante: em uma hora de deslocamento, haviam descido apenas 30 metros de desnível.

A saída só foi possível após encontrarem uma trilha precária em cotas mais baixas do vale, que os conduziu até a PR-340, nas proximidades do posto da Polícia Ambiental. “Estávamos imundos e exaustos, mas tínhamos saído ilesos de uma roubada medonha”, resume Elcio.

Um vale que não admite erros

Segundo o montanhista, o Vale do Cacatu se diferencia de outros vales da Serra do Mar pela combinação extrema de fatores adversos. “Trata-se de um vale gigantesco, encaixado entre as maiores elevações do Sul do Brasil — Pico Paraná (1.877 m) e Caratuva (1.850 m) — cujo desfecho ocorre literalmente ao nível do mar. Esse contraste gera um desnível brutal ao longo de cerca de 15 km”, explica.

Os riscos vão muito além da possibilidade de encontro com animais peçonhentos. Quedas, escorregões, fraturas, desorientação, enxurradas repentinas e esgotamento físico severo são ameaças constantes. “No conjunto, o Vale do Cacatu impõe um ambiente onde pequenos erros têm consequências grandes, e a margem para recuperação é mínima”, alerta.

Parte alta do vale do Cacatu. Foto: Élcio Douglas

Embora seja tecnicamente possível transpor o vale sem o uso de equipamentos de escalada ou rapel, Elcio reforça que isso só é viável para quem possui ampla experiência em montanhismo e navegação, além de exigir grande esforço físico mesmo para praticantes habituados a atividades extenuantes.

“Há ainda os perigos associados ao esgotamento físico, como lesões musculares, cãibras e colapsos por fadiga, frequentemente agravados por alimentação inadequada e esforço prolongado. Em períodos de chuva, o risco de enxurradas repentinas nas cabeceiras do rio amplia ainda mais o grau de exposição”, lembrou Elcio.

Turismo de montanha e falta de preparo

Para Elcio, muitos acidentes e desaparecimentos na região estão ligados à confusão entre montanhismo e turismo de montanha, agravada pela busca por validação nas redes sociais.

“Os erros mais comuns… não são cometidos por montanhistas propriamente ditos, mas por turistas de montanha”, diz. Ele destaca ainda um erro clássico e recorrente: abandonar trilhas consolidadas na descida por acreditar que qualquer caminho que desce leva à saída. “Acreditar que toda volta é descida” é, segundo ele, um dos equívocos mais perigosos em ambientes como o Pico Paraná e seus vales.

Respeito, preparo e humildade

Ao avaliar casos de desaparecimento no Pico Paraná, Elcio é categórico ao defender uma mudança de postura. “Montanha não é palco para selfies nem fábrica de likes”, afirma. Ele também não recomenda a trilha do Pico Paraná para iniciantes.

“Antes dele, faça várias investidas em trilhas mais acessíveis, evoluindo de forma gradual. Montanhas como o Anhangava e o Morro do Canal são ótimas escolas, pois apresentam situações semelhantes, porém em percursos mais curtos e controláveis”, sugeriu.

Elcio reforça ainda a importância do planejamento e da informação. “Frequentar a montanha exige propósito, preparo e consciência. Informação técnica, treinamento adequado e escolha criteriosa de companheiros com experiência e condicionamento compatíveis não são opcionais. Planejar inclui entender a época correta — o verão, em especial, aumenta drasticamente os riscos — e assumir que tudo pode dar errado, estando preparado para isso com equipamentos básicos de segurança, como iluminação extra, manta térmica, primeiros socorros e alimentação energética”, explicou. “O objetivo deve ser se tornar montanhista, não apenas turista de montanha”, aconselha.

E conclui com um alerta fundamental para quem se aventura em ambientes remotos: “Nunca esqueça: o cume é, no mínimo, metade do caminho. O erro não está em voltar, está em insistir”.

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Sobre o autor

Maruza Silvério é jornalista formada na PUCPR de Curitiba. Apaixonada pela natureza, principalmente pela fauna e pelas montanhas. Montanhista e escaladora desde 2013, fez do morro do Anhangava seu principal local de constantes treinos e contato intenso com a natureza. Acumula experiências como o curso básico de escalada e curso de auto resgate e técnicas verticais, além de estar em constante aperfeiçoamento. Gosta principalmente de escaladas tradicionais e grandes paredes. Mantém o montanhismo e a escalada como processo terapêutico para a vida e sonha em continuar escalando pelo Brasil e mundo a fora até ficar velhinha.

7 Comentários

  1. Rogerio Alexandre em

    Cirúrgico, como se diz atualmente. A meta da atividade precisa ser ser ir e voltar, em segurança. Acumular histórias, conhecimentos e alegrias, vencendo desafios de forma gradual é o caminho que grandes Montanhistas trilham, como o próprio Elcio e o Vitamina, decano das serras paranaenses.

    • Elcio Douglas Ferreira em

      Ele foi encontrado um dia depois que voltamos. Estava nas encostas do Itapiroca, sem vida, e com a perna quebrada. Nossa dedução de descer o vale do Cacatu, considerava que as alternativas mais óbvias, já haviam sido varridas. Afirmação feita pelos próprios bombeiros, inclusive. Afinal, as buscas já duravam mais de 10 dias.

  2. Getulio Vogetta em

    Antes do atual perdido (Roberto) se sabe de pelo menos outros seis ou sete equipes que já percorreram o Vale do Cacatu em toda a sua extensão, além dos dois grupos citados, então não se trata de algo tão “inédito” como propalado na matéria.
    O local é sim de uma grande complexidade em termos de progressão e é bom lembrar que não se trata de uma trilha consolidada, mas de um vara mato e canionismo técnico. A divulgação deste tipo de percurso serve apenas para gerar mais sensacionalismo sobre a área e instigar outros a tentarem repetir o feito, muitas vezes se colocando em risco.

  3. Excelente, importante salientar os grandes riscos que possui num lugar pouco frequentado, e sem muitas opções de passagem. Outro local na região que poderia listar como uma roubada medonha, é o Vale do Rio Cotia, que liga o mesmo ponto na trilha para o Pico Paraná onde é início (ou fim) para o Vale do Cacatu, até a Janela do Cotia (dali continua uma trilha mais aberta). Fizemos (Diego Monteiro, Titai, e eu) essa trilha subindo no domingo, buscando o Roberto caso ele tivesse tido uma queda para esse lado ao norte. Saímos da Fazenda Lírio do Vale e finalizamos no IAT Fazenda Rio das Pedras 14h depois, exaustos. Apesar de ter uma trilha, está muito precária, com muitas árvores caídas, alguns pontos de enxurrada que levou parte da trilha, e outros tantos já sem demarcação e alto grau de risco.

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