Após o desaparecimento do jovem Roberto Faria Tomaz, de 19 anos, que passou cinco dias perdido na região do Pico Paraná, entramos em contato com a gestão do Parque Estadual Pico Paraná para saber quais medidas serão tomadas para reforçar a segurança dos visitantes e reduzir o risco de novos incidentes em trilhas e áreas remotas da unidade de conservação.
O caso reacendeu o debate sobre preparo, sinalização e controle de acesso em uma das montanhas mais altas e exigentes do Sul do Brasil. Em entrevista, a chefe da Unidade de Conservação do Parque Estadual Pico Paraná, Marina Rampim, detalhou as ações que já estão em andamento e as próximas etapas previstas.
Fechamento de acessos irregulares e novas placas
Entre as medidas imediatas, o Parque iniciou o fechamento de trilhas irregulares. “Já estamos providenciando o fechamento de acessos irregulares, inclusive daquele por onde o visitante Roberto se perdeu”, afirma Marina.
Paralelamente, está em curso a instalação de novas placas de sinalização e informação, com foco em orientar melhor os visitantes ao longo das trilhas autorizadas. O Parque também pretende ampliar as ações de educação ambiental e orientação ao visitante, especialmente para pessoas sem experiência em montanha.
Segundo a gestão, a divulgação de orientações voltadas à visitação segura está sendo intensificada por meio de canais oficiais.
Quanto ao descumprimento das regras, Marina destaca que o PUPe trouxe um ordenamento claro da visitação, com definição das trilhas permitidas. “Assim, qualquer ação ou omissão que desrespeite esse ordenamento está sujeita a sanções administrativas e penais, incluindo aplicação de multas. Ressalta-se que o acesso a áreas não autorizadas também configura infração passível de penalização”, explicou. O órgão já deixou claro em comunicado pelas redes sociais que o percurso que Roberto fez enquanto estava perdido não está autorizado para visitação pública.
Ampliação do controle de entrada
O Parque já conta com um sistema de cadastro prévio de visitantes, mas há planos para ampliar esse controle, especialmente nos acessos secundários. “Após a publicação do PUPe, foram iniciadas tratativas com as fazendas que possuem acessos secundários ao Parque, visando melhorar o controle de entrada, cada uma na sua possibilidade”, explica a chefe da Unidade.
Ao ser questionada, a gestora também afirma que o Plano de Manejo do Parque, elaborado recentemente, já começou a ser aplicado, com algumas ações previstas em execução. “Já foram instaladas algumas placas de sinalização e informação, as tratativas com as fazendas foram iniciadas e começamos o processo para estruturar o conselho gestor”, afirma. A expectativa é de que grande parte do Plano de Ação esteja implementada até a próxima temporada de montanha.

Pico Paraná no fundo visto desde o Tucum, por onde passa a Travessia das Fazendas. Foto: Hilton Benke
Papel de montanhistas e voluntários
O Clube Paranaense de Montanhismo (CPM), considerado padrinho do Pico Paraná, também possui estudos sobre áreas críticas e pontos de desorientação. Segundo a gestão, esse tipo de colaboração é importante, desde que alinhada com o Parque.
“Iniciativas voluntárias são sempre bem-vindas e valorizadas”, destaca Marina. Ela ressalta que a participação da sociedade amplia a rede de proteção e cuidado da unidade. Além disso “também contribui para a troca de experiências práticas, auxilia na busca de soluções para situações específicas — como o episódio recente — e fortalece a capacidade de atuação do Estado nas ações necessárias”.
Para montanhistas, guias, clubes e visitantes que desejam contribuir com a manutenção das trilhas ou com ações voltadas à segurança, a orientação é procurar previamente a gestão do Parque. “O ideal é entrar em contato com a gestão do Parque para alinhar as ações da melhor forma possível. Não recomendamos iniciativas isoladas”, afirma Marina.
“As intervenções devem ser analisadas caso a caso, de forma criteriosa, para evitar passivos ambientais ou prejuízos à Unidade de Conservação, sempre em consonância com o planejamento do Parque”, ressalta.
E para quem sonha em conhecer o Pico Paraná, Marina também deixa um recado. “Que realize esse sonho, mas com responsabilidade e precaução. Informe-se por meio de canais oficiais, prepare-se adequadamente, busque guias experientes sempre que possível e respeite o meio ambiente e o regramento do Parque. Não desista — mas faça isso de forma consciente e segura.”
Criticas da Federação de Montanhismo
Apesar das medidas tomadas pela gestão do parque, a Federação de Montanhismo Paranaense de Montanhismo (FEPAM) publicou uma nota criticando o Instituto Água e Terra, responsável pela administração de todas as Unidades de Conservação do Paraná, entre elas o Parque Estadual Pico Paraná. Na publicação a instituição também pediu o fim do fechamento discricionário de parques, o retorno dos conselhos consultivos, investimento em infraestrutura, gestão técnica e segurança jurídica com a regularização fundiária das Unidades de Conservação.
“O descaso do IAT com os parques de montanha e com o trabalho voluntario se tornou inaceitável, o órgão gestor toma decisões unilateralmente, estas decisões são tomadas por pessoas com pouquíssima experiência em gestão de UC e menos ainda em montanhismo pouco se importando com a opinião de outras instituições. O reflexo desta má gestão vem se acentuando nos últimos anos com o aumento nos casos de pessoas perdidas, vandalismo, degradação das trilhas e uso inadequado das áreas”, diz nota.
Projeto educativo é protocolado na Assembleia Legislativa
Paralelamente às ações adotadas pela gestão do Parque, um projeto de caráter educativo voltado à segurança em trilhas e montanhas no Paraná foi protocolado na Assembleia Legislativa do Estado.
A iniciativa é da deputada estadual Flávia Francischini e tem caráter exclusivamente educativo e informativo, sem criar punições, proibições ou restrições ao acesso às áreas naturais. O projeto prevê a criação de um Sistema Estadual de Informação e Orientação ao Usuário de Trilhas e Montanhas, reunindo dados oficiais como nível de dificuldade das trilhas, tempo médio de percurso, condições climáticas, pontos de risco e contatos de emergência. A proposta busca oferecer informações confiáveis para que visitantes possam planejar suas atividades de forma mais segura e consciente.














