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Entrevista

Jorge Soto, o maior caminhante do Brasil


Categoria: Personalidades

A história nos mostra que o Brasil é um país que tem ótimos montanhistas nascidos em outros países. Coincidência ou não, até hoje o país tem importantes nomes que se encaixam neste perfil e o Jorge Soto é certamente uma destas pessoas que mais se destaca.

Nascido no Chile e criado em São Paulo, Soto é hoje um dos maiores caminhantes brasileiros, mas sua contribuição não é só essa. Soto é um investigador de caminhos, procurando e achando diversas trilhas e travessias esquecidas pelos montanhistas mais jovens. Ele revive a memória da época em que ir pro mato significavam grandes desafios e aventuras.

Além de reabrir caminhos, ele ainda é responsável por descobrir novos, como a trilha do pouco conhecido Pico da Mariana, aberto recentemente por ele e pelo Angelo Geron Neto. Fazendo um montanhismo original de auto superação, , Soto não busca os holofotes das montanhas famosas, vai atrás de seu próprio montanhismo, sempre divulgado com relatos inteligentes e bem humorados, que o AltaMontanha não se cansa em publicar.

Sincero e não adepto à idéias do politicamente correto, ele é tido muitas vezes como uma pessoa polêmica, pois neste resgate ao montanhismo original, muitas vezes tem que passar por áreas proibidas de parques. Apesar dos problemas com autoridades ambientais (que já ameaçaram processá-lo), ele diz que o real problema está nos próprios montanhistas que aceitam as limitações.

Debochado, ele diz que não liga para as críticas e gosta mesmo é de uma boa perrengue, programada, é claro! Numa destas perrengues (não programadas), dizem que ele adquiriu uma terceira nádega, após voar em um barranco e ter a queda amortecida por árvores no vale da ilusão no Petar.

Confira a entrevista e conheça mais sobre este grande figura, o Jorge Soto:

1) Soto, conte mais sobre sua vida, com quantos anos veio morar no Brasil e por que você veio parar aqui?
Pergunte pro meu pai, q trouxe a família à tiracolo na sua transferência de trampo aqui pro Brasil, no final dos anos 70. Vim pra cá com , 7 anos, e por isso me considero “mais brasileiro” q chileno. Mas parece q isso não basta porque todo mundo crê q vim aqui de contrabando, fugindo da ditadura do Pinochet. Q seja então, embora se afirmasse categoricamente , q já não levei borrachadas dos “carabineros” estaria mentindo..
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2) O que foi que te levou a fazer caminhadas, conte um pouco de sua trajetória?

O q me levou pras pernadas foi tanto a falta de grana como do q fazer na vida. Recém formado (Comunicação Social, em 93) e desempregado, topei o convite de um amigo (chefe-escoteiro) num feriado de Páscoa e fui parar em Itatiaia numa trip q nunca vou esquecer, onde deu tudo errado e passei o maior perrengue. Mas foi o suficiente pra ser amor á primeira vista! No mesmo ano vieram a Petrô-Terê e o Petar, q envernizaram de vez minha paixão pelo mato. As mochiladas internacionais vieram somente anos depois, q alias julgo experiências obrigatórias a qualquer um pois expandem nosso conceito de “viver a vida”, q aqui se restringe à rotininha entediante e quadrada do dia-dia..

3) Todo mundo pergunta, como o Jorge Soto consegue estar o tempo todo na montanha? Qual é seu segredo?

Ué, planejamento! Se o Todo Poderoso descansou no sétimo dia eu utilizo esse mesmo dia pra ir no mato. Basta se programar, independente da previsão meteorológica. Ate pq se for pra depender apenas de tempo bom vc não sai de casa nunca. E cá entre nós, as melhores historias numa roda de amigos são as perrengosas. Mas me refiro ao perrengue calculado, já q uma vez q quase fui pro saco ando mais cauteloso q antes. E pq minhas 7 vidas já expiraram faz tempo..
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4) Conte como foi esta experiência de quase ir pro saco?

 ,Foi naquela ocasião em q despenquei de mais de 30m de um paredão, no Petar.. se não fossem os primeiros-socorros prestados pelo meu parceiro de travessia naquela vez eu tava ferrado, pois nos encontrávamos no meio do nada e lugar nenhum.

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5) Onde você acha melhor caminhar, no Brasil ou no Chile. Quais são as diferenças que um trekkeiro no Chile e no Brasil encontra para praticar suas atividades?

Meu, todo mundo me pergunta isso! Mas todo local tem seu charme e atrativos peculiares, não tem como escolher este ou aquele. É o mesmo q perguntar q filho vc prefere. Mas sou assumidamente apaixonado pelas serras tupiniquins. Já montanhei pela Patagônia, Peru, Bolivia, etc.. mas minha pira são as serras daqui, q mesmo de dimensões acanhadas se comparadas aos Andes, guardam uma diversidade geográfica incrível tanto em suas formas (Mantiqueira, Espinhaço, Serra dos Orgãos etc), como pela rica natureza em volta (Serra do Mar, Graciosa, Marumbi, etc) e cultura característica q concentram (Bocaina, Serra Geral, Caparaó, etc).
Já a diferença pro esporte no Chile (ou Argentina) é q lá já existe uma cultura montanhista arraigada faz tempo, por conta dos Andes logo ao lado, portanto há uma infra e suporte de td espécie nesse aspecto. Agora no Brasil isso não existe pq , essa cultura é recente e sazonal, movida também por modismos comerciais.
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6) Você então acha que o Brasil tem uma cultura avançada de montanhismo e trekking? Ou ainda estamos engatinhando?

Como mencionei acima, o Brasil engatinha nesse aspecto. A cultura montanhista se limita apenas a grupos específicos, centros excursionistas, clubes ou federações. Mas o resto da população só tem noção disso qdo rola, por exemplo, a “Adventure Fair” ...
Qdo iniciei nesta vida recordo q entrei pro CAP (clube alpino paulista) pra encontrar “semelhantes” mas o q senti foi apenas uma blindagem rigorosa pra quem não fosse da “panela” já formada, só me dirigiam a palavra qdo era pra vender algum curso. Como buscava apenas integração e não q me enfiassem um curso goela abaixo tal qual a obrigatoriedade de guia, pulei fora! Não sei se ainda é assim mas essa foi a impressão imediata q tive desses grupos organizados, supostamente pra atender a classe montanhista. Desde então sempre me meti no mato ou montanha por conta, sem vinculo a clube ou federação alguma. Não vejo necessidade e mto menos razão pra isso, pelo menos pra mim. Longe de generalizar, tb reconheço q tem quem faz um trabalho serio indo atrás de nova regulamentacão nos parques, organiza mutirões ou batalha na abertura de trilhas em áreas de conservacao, etc. Mas o q mais vejo são centros onde as reuniões de pauta não vão alem de combinar bebedeiras, chás-de-bebê ou churrascos. E a filiação a grupos e federações tem q ser quinem a obrigatoriedade de guia, ou seja, opcional.
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7) Certa vez você falou numa lista de discussão que já tinha “dado o cambau” num parque estadual para fazer uma trilha e foi extremamente criticado. O que você achou de pessoas que sofrem do mesmo problema que você, te criticar duramente por que se revoltou contra regras do parque que proíbe?
Tô cagando pra quem me critica. Faço apenas valer meu legitimo direito de ir e vir. Sei q ta cheio de “trekkeiro de teclado” por ai se multiplicando feito lemingues por listas e foruns, e são justamente esses desocupados q nunca sujaram uma bota q adoram jogar lenha na fogueria pra depois tirarem da reta apenas pra ver o pau comer solto, de camarote, no conforto e segurança q o écran proporciona. Cuzões. Mas é aquela coisa, pois neste restrito mundo montanhista vc sente o cheiro (forte) de dor-de-cotovelo de longe. Já me disseram q me promovo divulgando relatos, mas peralá.. entao qual a função de uma lista de discussão? Ficar na moita e chupinhar informação, como mtos fazem? Pq não participar então e ser pro-ativo? Divulgo meus relatos desde bem antes do surgimento da net apenas a meios destinados justamente pra troca de experiências e infos correlatas. Se pelo menos faturasse algo com isso quiçá esse argumento tivesse algum respaldo, mas então volto à triste conclusão (outra vez) da dor-de-cotovelo! Minto, pq se for pensar de fato eu faturei sim com essa “auto-promocão” , mas sob a forma de bons contatos e amizades no meio q perduram ate hoje.

8) Você já teve problemas com autoridades ambientais por caminhar em locais onde não é permitido nos parques?

Claro, já levei alguns puxões-de-orelha, duas palmatórias e uma ameaça de processo. Mas na maior parte das vezes com uma boa conversa chega-se a um acordo satisfatório. Na verdade as autoridades ambientais não são o problema maior, mas o q me incomoda mais são algumas mentalidades tacanhas e mesquinhas no próprio meio montanhista. Sei de várias figurinhas carimbadas q não dividem informação com ninguém, nem por ordens expressas do alto comando sob pseudo-pretextos eco-conservacionistas. Pelamor, ne? E q fazem de seus pequenos paraísos ecológicos extensão fechada do próprio quintal, seu pequeno feudo particular. Parabéns. Já fui expulso de varias listas e fóruns por “ser do contra” e dizer o q penso, mas francamente já passei da idade de ficar afagando o ego ou concordando caninamente com este ou aquele moderador.
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9) Fazendo um diagnóstico do trekking e montanhismo no Brasil de hoje, qual é o prognóstico que vocês para um futuro breve?
Acho q falta uma renovação pra dar um gás ao montanhismo como um todo, q parece ter estagnado. O q mais vejo é gente comentando apenas feitios e façanhas antigas, mas não vejo ninguém fazer algo novo. Teve uma geração inteira fortemente influenciada pelo gde Sergio Beck, mas bastou ele sumir do mapa q td essa galera ficou órfã, aparentemente sem rumo. Não vejo ninguém metendo mais as caras com ousadia buscando novas rotas, mas o q vejo permanentemente é gente se repetindo á exaustão. Vc abre uma carta topografica ou ate mesmo um Guia 4 Rodas e apresentam-se enormes espaços vazios entre duas localidades conhecidas. Sera q ninguém pára pra pensar, analisar ou estudar o q haverá neles? Pesquise os relevos, cristas vizinhas, rios e trate de interliga-los com os atrativos locais e pronto... acabou de criar uma travessia! Não custa nada. Na verdade eu ate vejo coisa nova, pois tem o Elcio (PR), Toinho (MG), Mamute e Angelo (SP), Junior (RJ), etc.. mas são pessoas contadas numa mão só, sinal q a coisa anda meio estagnada mesmo.
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10) Quais são seus projetos futuros de montanha?

Projetos? Não sei o q seja isso.. Td rola em cima da hora mesmo! Sou quinem o Zeca Pagodinho, pois alem de apreciar uma boa cerva deixo apenas a vida me levar.. Quem sabe vá visitar minha irmã q mora na Suécia, e aproveite a deixa pra mochilar por terras escandinavas.. Vejamos.
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11) Qual é o recado que você dá para as pessoas que estão começando?
Que simplesmente meta as caras por conta própria e se aventure onde seja q for, sem receio. A internet democratizou informação ate então restrita à máfia das agencias de ecoturismo. Portanto lá vc encontra tudo q vc precisa. Basta digitar algum destino no Google q já surgem trocentos roteiros mastigados. Basta so vc dar o primeiro passo em colocar algum à prova. Se ainda faltar coragem pra isso, filie-se a alguma lista de discussão ou clube montanhista mais próximo de sua residência ate ganhar confiança pra dar seus próprios passos sozinho. O surgimento do Google earth facilitou as coisas exponencialmente tb e por ai vai. Só fica em casa quem quer. Portanto vá montanhar sem medo, pois viver aventuras perrengosas é roubar tempo da morte com garbo e elegância.




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