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Tradicional na Argentina

Escaladas em Arenales


Aventura de:

Em 2006 estive em Bariloche, na Patagônia Argentina para um projeto de escalada esportiva e uma passagem pelo Frey (escalada móvel). Meu intuito nesse período era desenvolver a escalada à vista nesse estilo, quando nessa época passei um 10ª, além de conhecer e aprender muito nas escaladas em fendas típicas das Agulhas Frey. Os locais que conheci são lindos e me fizeram querer voltar muitas vezes!!

:: Acompanhe este relato vendo Arenales no Google Earth pelo site Rumos: Navegação em Montanhas!

No ano seguinte já se ouvia falar bem de outro lugar perto de Mendoza, com mais aspecto de montanha, chamado Arenales. O notório grande número de brasileiros que ia com grande freqüência para o Frey passou a também ir para este lugar, trazendo grande empolgação. Desde essa época fiquei curioso... Acho inconscientemente guardava essa vontade de viajar pro exterior pra escalar nesse estilo. Tenho me dedicando mais às escaladas de parede e em móvel por aqui e percebo que tenho desfrutado mais. Então, depois da pilha dos amigos, voltar para Argentina para escalar no CAJON DE LOS ARENALES, seria muito natural! Continuava o prazer das escaladas à vista com o plus de serem em móvel e em paredes maiores! Então fomos eu e minha namorada, agora no início do ano, no início de fevereiro, na expectativa que ainda podíamos contar com o bom tempo do final da temporada.

Assim como Bariloche, a região de Mendoza desperta interesses naturais e culturais. Atualmente é considerada uma das melhores produtoras de vinhos da América do Sul. O clima é agradável e com escassas chuvas. A altitude e os solos pedregosos propiciam o plantio das melhores variedades de uvas finas do mundo! A gastronomia local e a visitação das bodegas atraem muitos turistas...ou seja, vale a pena passar um tempinho curtindo isso também.
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Voltando as escaladas, não tão conhecida quanto o Frey, Chalten e outros locais de escalada de lá, Arenales consegue reunir o que estes dois paraísos tem de melhor: fendas estéticas e técnicas, boa dose de logística nas aproximações e no rapel, além da orientação nas vias exigir um bom faro montanhístico por conta do escalador. Lá é preciso lidar com caminhada em cascalhos sem um caminho relativamente definido, escolha das faces que tocam mais sol, algumas vias com muitos blocos soltos além de uma quantidade de linhas de fendas, agulhas e corredores que se cruzam. A impressão que se tem quando se chega no meio do cânion é que todas montanhas são “meio” que uma parede só... só se vai descobrir as perspectivas, os vales, os corredores e as agulhas, quando se dirigir pra perto. A flora e fauna são particulares: lagartos com cores fortes, chinchilas, condores, algumas flores bem bonitas e, muitos, mas muitos espinhos. A variedade dos tons de cores da rocha, que vão do amarelo suave ao rosa, são bem bonitos também. A movimentação que se mescla bem entre entalamentos, oposições e diedros, torna tudo muito instigante! Procurando boas linhas, ainda há uma quantidade razoável de possíveis vias para se conquistar.
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Depois de ter passado uns dias em Mendoza, descansando um pouco da viagem de ônibus desde Buenos Aires e definindo o que comprar de mantimentos, fizemos contato com Yaguar, pessoa bem conhecida do local que leva o pessoal de carro até bem próximo do refúgio. Encontramos ele em Tunuyan e fizemos uma viagem calma, conversando bastante sobre muita coisa: desde sua vida, a escalada e os brasileiros que conhecia... falou até um pouco sobre seu envolvimento com teatro e política na época da ditadura na Argentina. , ,  ,
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Estávamos somente eu e minha namorada Carol, querendo logo chegar, encontrar possivelmente outros brasileiros ou conhecer outros escaladores locais, pra pegar boas infos e escalar muito! Logo de cara ninguém no local e tempo meio feio! Ficamos acampados em frente ao refúgio, uma construção que já está um pouco precária. Ali é onde se tem a alternativa de cozinhar, conversar e relaxar um pouco. , Existe também a possibilidade de se dormir ali, mas não parece muito limpo... Inclusive questões de higiene e alimentação são enfatizadas: a comida deve ser pendurada dentro do refúgio em função dos ratos e existem pás pra se enterrar as fezes. A parte cômoda é que logo ao lado passa o rio, relativamente forte e gelado, aonde podemos pegar água para cozinhar e tomar banho (use sabão biodegradável!)
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No dia seguinte o tempo piorou, mas vimos que havia gente. Eram dois brasileiros de Brasília que já estavam ali há um tempo. Disseram que tiveram pouca sorte. Ironicamente o tempo ficou bom no dia que eles estavam indo embora. , Mesmo assim eles foram bem amistosos e nos levaram antes na Parede de Mítria, aconselhando uma boa via chamada El condor Passa. Esse local, com as paredes de Mítria (predominando vias esportivas) e Muralha Central (mesclando móvel e esportivas) ficam logo antes da entrada do cânion, em frente ao controle de fronteira (Gendarmeria). É interessante mencionar que, partindo dali, há passeios a cavalo até o Chile, que está bem próximo! Bem, o clima estava totalmente diferente: sol, calorzinho e vento seco, que só na sombra se percebe que é frio... e notamos como era bem possível escalar confortável nessas condições. O sol, a luz do sol e a percepção de calor fizeram uma boa diferença pra mim. A temperatura da pedra e a parede toda iluminada dão uma grande confiança pra quem não está acostumado... Com o tempo, apreendendo a poupar energia se abrigando, se alimentando em pequenas quantidades, e não parando muito nas reuniões, as situações de clima ruim trabalham a calma de focar mais na escalada, no parceiro e menos no próprio desconforto físico.
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Partindo pra caminhar no dia seguinte com alguns planos na cabeça, tivemos dificuldade com o clima e com as indicações do guia quando fomos pra agulha Nuez, escalar a via Mujeres e Tequila. Estava bem enevoado e nem encontramos a base da via direito. A idéia então foi retornar pra paredes abaixo: Mitria e Muralha Central.
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A escalada nessas duas paredes foi entremeada com nossas idas para as agulhas do Cânion, em função de dias recuperação ou tempo meio instável. A rocha é bem sólida e em algumas partes até brilhosa de tão lisa. Fizemos boas vias em um setor com vias negativas e destacamos na Mítria a via Rosso de Serra (proteções fixas), com o terceiro e quarto esticões verticais de cor rosa inconfundível, e na Muralha Central a via Patrícia (móvel com paradas fixas), com entalamentos perfeitos no primeiro esticão e escalada variada até o final. Ambas de nível médio com esticões de 6º.
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Alguns dias depois chegaram outras pessoas e mais dois brasileiros, os paulistas Danilo e Igor. Eles já tinham ido lá mais vezes e nos deram boas dicas, vindo a fazer boas cordadas mais adiante. Reformulando as idéias de “o que era o quê” e aonde levaria aonde” partimos novamente para Mujeres e Tequila. Depois de passar pelo primeiro e segundo esticões com uma linha sem boa definição e de rocha ruim, vem o que buscamos desde a base: dois esticões de diedros técnicos positivos com visual que recompensa a chegada até ali! Apesar de não ser o cume da agulha, o visual é amplo e se pode ver bem a esquerda além do “cajon”!
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Começando a aclimatar as pernas, a leitura das agulhas e vias, e o modo de escalar, fomos pra via Carlos Daniel com os paulistas. Via regular, de tamanho médio, com alguns, porém bem definidos trechos de rocha instável. Foi uma das vias que mais gostei! Fica no final do cânion, mais precisamente no “tapon” (cascalho que escorre das montanhas dos dois lados fechando o cânion). Tem um esticão de sexto bem legal: fendas paralelas onde, em uma se escala, em outra se protege e “na terceira” nem se toca.. tudo na mesma linha.. hehe . Cume definido, pequeno e com visual de 360º, e o mais legal pra gente que ainda não tinha subido pras vias do Campanille alto: poder ver com relativa definição os corredores e as agulhas de cima!
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Novamente tivemos dois dias de tempo ruim... e a vontade de subir pras agulhas mais altas ia aumentando. Mas antes disso eu queria ver como me sairia em vias mais difíceis e técnicas na Muralha. Aproveitando a vontade do Danilo e Igor de conhecer a via Cinemacope, com esticões de 7º e 8º, fomos assim que o tempo melhorou. A via é show: aérea, rocha sólida com boas e constantes colocações, , contínuos entalamentos e quedas limpas em quase 100% da via. Podemos destacar o segundo esticão de 8º bem vertical e a travessia técnica de 6ºsup de baixo de um teto no antepenúltimo esticão. É interessante mencionar que existem ainda vias esportivas suavemente negativas acima de 9º, ao lado e na mesma parede, sendo variantes e independentes.
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O tempo corria entre dias de descanso, caminhadas curtas e então finalmente planejamos subir para as agulhas Charles Webis e Campanille alto. Apesar de a maioria das vias ali serem de 6 esticões, tomasse um tempo na aproximação e descida. A idéia foi escalar e deixar o equipo “malocado” (guardado), boa estratégia que é feita comumente pra subir leve no dia seguinte ou alguns dias depois. , Estava com a via Panqueques com dulce de leche na cabeça, que foi sugerida por amigos do Rio. Dessa vez sugeri aos paulistas que acharam a idéia interessante. , Como fomos em 3 o peso foi um pouco mais reduzido, e a caminhada, que é um pouco instável devido aos cascalhos e pedras soltas, foi razoável. Depois de passar pelo corredor principal que leva as duas agulhas, tem-se uma boa noção da parede.
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A via já começa bastante vertical, exigindo atenção na escolha da linha, um ótimo 6º variado. O segundo esticão começa tranqüilo e da metade pra cima vem o supra sumo da via: um 7º vertical, de insubstituíveis entalamentos de mãos e pés. A via tem outros trechos bem verticais e aéreos acima, com a agulha Campanille alto logo ao lado! Pude aproveitar bastante essa via e fiquei bem seguro quanto as minhas condições físicas e psicológicas. Danilo e Igor também estavam se aclimatando e se preparando para outras vias. Terminamos a via motivados pra escalar no dia seguinte!.. iríamos descer leve, cedo e com calma. No refúgio, Carolina estava curiosa pra saber como tinha sido. No dia seguinte estávamos planejando ir pra via Armônica.
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Com a visão que tive do Campanille alto, a impressão que tive da parede era que a via seria curta...mas sabia também que teria “zig-zags” e platôs, que tomam tempo. Fizemos a caminhada com bom ritmo e tempo ótimo. A maioria dos esticões gira em torno de 5º com algumas passagens mais técnicas. No final do primeiro terço da via o tempo nublou, mas não fez frio. À medida que subíamos percebia que Carol estava indo bem e isso me tirava um pouco da apreensão. Faltando 3 esticões já estávamos curtindo bem! , Carol mandou tranquilo o esticão chave de 6º e aí era só “ir pro abraço”.. literalmente ..rs. , Fomos presenteados com o rapel no sol, com o único empecilho de prender a corda justamente na primeira descida. O restante foi sem problemas. Na caminhada de volta vimos o pôr de sol mais bonito da viagem!
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Bem, foram ao todo 20 dias. Apesar de começarmos a aproveitar mesmo o local a partir do décimo dia, e ficarmos no gostinho de escalar mais as agulhas mais altas, o balanço geral foi muito bom. Além da escolha das vias terem sido na maioria das vezes proveitosa, foram muitas caminhadas relaxantes e maneiras, muitos banhos (mas muitos mesmo! Tem gente que não consegue.. rsrs) gelados ao sol, algumas granolas especiais e comidas liofilizadas que nos foram deixadas e, é claro, ter a oportunidade de conversar com gente da Colômbia e da Argentina.

De vez em quando ficamos sabendo de grandes locais pra se escalar na América do Sul. , Muitos estão sendo desenvolvidos recentemente aqui no Brasil, na Argentina, no Peru, na Venezuela, etc. É importante salientar esse valor! Em locais como o que estivemos fica sempre germinando a vontade de voltar... pra repetir boas vias e entrar em muitas outras! Termina a temporada de lá, começa a de cá!

Agradecimento especial aos apoios: Equinox, Verticale e Edelweiss



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