Reuni nesta coluna alguns relatos passados na Serra do Mar, seja a norte ou a sul de São Paulo, seja ainda no litoral ou no interior do Rio de Janeiro. Foram travessias antigas e talvez alguns dos caminhos de hoje tenham mudado. Mas a natureza continua lá.
A Serra do Mar: do Guaraú ao Caledônia
A Serra do Mar: Essa magnífica formação acompanha nosso litoral, ao longo dos mais de mil km que separam Santa Catarina do Rio de Janeiro.
Em alguns trechos, como em Ubatuba (SP) ou Paraty (RJ), ela se apresenta como uma parede vertical próxima à praia. Em outros, mostra-se descontínua e afastada da costa, como nas regiões do Vale do Itajaí (SC) e da Juréia (SP).
Sua densa e íngreme vegetação a torna sempre difícil de ser transposta: durante a colonização do Brasil, foi um grande obstáculo ao acesso a nosso interior. Um muro que separava o litoral do planalto.
Recebe diversas denominações locais: Serra da Graciosa no Paraná, de Paranapiacaba em São Paulo e dos Órgãos no Rio, todas elas com seus aspectos próprios.

Morro do Guaraú visto da Praia, Peruíbe, SP (Fonte – Divulgação).
Suas altitudes nunca são em geral extremas, mesmo porque ela parte do mar, pouco ultrapassando os 1.000 m. As exceções são o trecho da Bocaina entre São José do Barreiro (RJ) e Bananal (SP) e a região dos Três Picos na serra fluminense, em ambos os casos com altitudes acima dos 2.000 m.
A Serra do Mar apresenta com frequência o mau hábito de interromper o litoral, seccionando suas praias. É exatamente isto que acontece com a Baixada Santista, que termina em Peruíbe aos pés da Serra de Itatins. Do outro lado, ao sul, estende-se a Juréia e, mais além, as regiões costeiras de Iguape e Cananéia.
O Guaraú entre a Baixada e a Juréia: O morro que bloqueia este litoral chama-se Guaraú e é facilmente visível por quem se aproxima da cidade pela rodovia: uma grande massa, uma corcova doce, fechando a planície costeira.
Sua trilha ocorre inteiramente dentro de mata, porém com dois aspectos diferentes: é muito larga e atravessada por raízes até o alto – é das mais bonitas que conheço, com aquele silêncio úmido tão típico da Serra do Mar.

Mata Atlântica na trilha do Guaraú, Peruíbe, SP (Fonte – Mochileiros.com).
Como ela é fechada, só ao atingir o alto 1½ horas depois, você terá possibilidade de vista, na altitude de 600 m. E esta será uma bela surpresa, pois há duas vistas – e totalmente distintas!
Ao norte, a enorme extensão da Baixada Santista, plana e habitada, banhada por um mar retilíneo. Ao sul, o relevo acidentado, a densa vegetação e as praias recortadas da Juréia.
Ao retornar, você pode prosseguir na estrada costeira e conhecer a pequena e simpática Praia do Guaraú, que você dividirá com surfistas. Ou então, o tobogã da bela e gelada Cachoeira Paraíso.
Os Vales de Mogi: A Serra do Mar paulista é protegida por um enorme Parque Estadual. É no seu trecho correspondente à capital que existem grandes e antigos caminhos do planalto até o litoral, partindo da pitoresca vila de Paranapiacaba (SP).
Os dois principais são os do Vale do Mogi e do Quilombo, com duração de 5 a 6 horas cada, que descem até Cubatão pelas calhas destes rios. É impressionante a diferença entre a vegetação empobrecida e contaminada nas encostas voltadas para Cubatão e a mata exuberante nas serras, protegidas da poluição da cidade.

Aqueduto do Rio Itatinga, Mogi Bertioga, Núcleo Itutinga, PE Serra do Mar, SP (Fonte – Divulgação).
Há ainda pelo menos duas trilhas notáveis no percurso Mogi-Bertioga. Uma delas parte do Parque das Neblinas, uma RPPN que acompanha o manso vale do Rio Itatinga, até chegar a uma surpreendente represa no alto da serra, percorrer um magnífico aqueduto e se precipitar por um histórico caminho calçado até a planície litorânea.
O segundo caminho da Mogi-Bertioga é bem mais selvagem, começando na rodovia de mesmo nome, acompanhando o vale do Rio Itapanhaú e visitando a formidável Cachoeira do Elefante, até chegar 6 horas depois na úmida baixada santista. Uma experiência única, na trilha íngreme, no calor úmido e na natureza poderosa.

Vista da Cachoeira do Elefante, Mogi-Bertioga, SP (Fonte: Panoramio).
Caraguá-Ubatuba e o Corcovado: Quando você percorre a Rio-Santos a partir de Caraguatatuba (SP), não pode deixar de notar a parede que acompanha o litoral, impressionante por sua verticalidade e vegetação. Um dos locais mais bonitos da Serra do Mar fica exatamente neste trecho, é o Pico do Corcovado.
Já escrevi sobre o Corcovado, uma montanha para mim especial, com a mais bela trilha em toda a Serra do Mar. Na verdade, existem dois longos caminhos, um externo pela Praia Dura e outro interno pela calha do Rio Paraibuna. E eles se encontram exatamente no cume, a 1.180 m – em ambos os casos, lhe tomarão umas 4 horas de ida.
Para mim, o cume do Corcovado é como se fosse um enclave, dentro da abundância da Serra do Mar. Ele é sóbrio, pequeno e seco – um espaço duramente conquistado no isolamento exclusivo da altura.

Crista da Serra do Mar com o Pico do Corcovado, Ubatuba, SP (Fonte – Divulgação).
Entretanto, a parede que contém o Corcovado (cujo nome é Serra do Indaiá) só continua até uma distância após Ubatuba, pois passa então a correr rumo norte, afastando-se do litoral e dispersando-se nas encostas do planalto.
Neste trecho, a Serra do Mar passa a ter um perfil confuso de picos isolados, que você poderá observar a partir da Enseada de Ubatumirim, já perto da divisa com o Rio de Janeiro.
Os caminhos mais interessantes de descida da serra são os percursos históricos que ligavam o planalto ao litoral. Um deles é a Trilha dos Tropeiros, onde você caminhará dentro de uma vala sob a sombra da floresta exuberante, até alcançar a planície de Caraguá, 2½ horas depois.

Trilha dos Tropeiros, Caraguatatuba, SP (Fonte – PESM).
O outro é a Trilha da Mococa, um trajeto sinuoso de talvez 5 horas no interior da mata fechada, com um amplo mirante de todo o litoral norte no seu início. Ela termina na pequena Praia da Mococa, já no fim do município de Caraguatatuba.
Ao longo deste litoral, se você já não a viu, pouco depois sua atenção será tomada por uma montanha de corpo vertical e cume arredondado, mais elevada que as pedras à sua volta. Este é o Pico do Cuscuzeiro.
O Cuscuzeiro: Não se engane, o afastamento do litoral faz com que ele não pareça alto. Mas mede 1.275 m, mais do que uma centena de metros acima do Corcovado, que, entretanto, parece tão mais elevado.
É que o Cuscuzeiro fica afastado quase 20 km da costa. Ele faz parte de uma formação chamada de Serra de Parati, que também inclui o respeitável Pico do Corisco.

Pico do Cuscuzeiro entre Ubatuba e Paraty.
Agora que você sabe disto, repare que o Cuscuzeiro pode ser visto desde muito longe. Em particular, do alto que separa as Praias da Enseada e das Toninhas em Ubatuba. Se você perdeu este local, pare no belvedere do Posto de Polícia perto da longa Praia de Itamambuca, a bonita vista é a mesma, só que bem mais próxima.
O caminho para o Cuscuzeiro parte da Vila do Corisco, cuja estrada de acesso acontece logo antes do trevo para Paraty na Rio-Santos. Começa num trecho da enorme Trilha do Corisco, da qual falarei em seguida.
Após um início regular, você passará um bom tempo subindo por fortes rampas, tropeçando em cipós, cortando galhos, evitando espinhos e enroscando-se em bambus. Você chegará numa encosta de pedras e capim, onde terminará sua viagem.
Após 4 horas de travessia, talvez você se sinta frustrado por não estar descansando num belo cume plano, e sim numa encosta um tanto irregular e incômoda.
Quando fiz o Cuscuzeiro, não tive o benefício de um dia claro, mas lá de cima a vista alcança Paraty e as praias próximas e, na direção oposta, as elevações movimentadas das serras do Mar e da Bocaina, mais altas do que o Cuscuzeiro.
O Caminho do Corisco: O Cuscuzeiro fica entre dois parques, o PN da Serra da Bocaina (RJ) e o PE da Serra do Mar (SP) – ambos são grandes e antigos. Este último é dividido em quase uma dezena de diferentes núcleos.

Casa da Farinha, Piciguaba, SP (Fonte – tripadvisor).
Acho o Núcleo Picinguaba o mais interessante dentre todos. Nele fica a conhecida Casa da Farinha, próxima aos belos poços do Rio da Fazenda, vale a pena deixar a Rio-Santos para conhecê-la.
É deste local que parte um antigo caminho, chamado de Trilha do Corisco. Antes da Rio-Santos, ele era usado pela população da Vila de Picinguaba para ir até Paraty. Tempos antigos, de uma população pobre que vivia dos frutos da natureza e que viu invadido o seu espaço.

Rio da Fazenda na trilha do Corisco, Ubatuba, SP (Fonte – Divulgação).
Esta trilha segue pelo vale do Rio da Fazenda, passa no Poço da Rasa e sobe até o divisor com o Rio Corisquinho, descendo até a Vila do Corisco, já na planície de Paraty. Conheço mais de dois terços da trilha, é um típico percurso na Serra do Mar, bastante úmido, frondoso e fechado.
É uma região de incrível biodiversidade. Você encontrará nas partes baixas belas bromélias, samambaias e orquídeas. Caminhará embaixo do frondoso dossel da mata atlântica, como o dos jequitibás logo no início e do jequitibá no Poço da Rasa. E passará por rios e poços pedregosos de águas tão limpas, onde poderá mergulhar e refrescar-se.
É um caminho longo, que vai exigir talvez 8 horas dentro da mata. No período chuvoso ele é fechado, pois os caudais podem torná-lo perigoso. Mas é uma experiência única, onde você sentirá toda a exuberância dessa nossa natureza tropical.

Vegetação na Trilha do Corisco, Ubatuba-Paraty (Fonte – Kairós).
A Trilha do Ouro, Joatinga e o Frade: O antigo caminho da Trilha do Ouro foi usado para escoar o ouro mineiro e o café paulista até o porto de Paraty. Devido ao tráfego intenso, ela foi calçada com pedras, cujos vestígios ainda podem ser encontrados.
É uma jornada longa e sombreada de 50 km, feita em dois a três dias, desde São José do Barreiro no Vale do Paraíba até Mambucaba no litoral fluminense.
Há belas cachoeiras no caminho: a delicada Santo Izidro, a deliciosa Posses e a gigantesca Veados. Você sempre estará em contato com a abundante vegetação, seja nos campos ou nas encostas da Bocaina. Assim, não será um caminho de grande alcance visual.

Cachoeira de Santo Izidro, Bocaina, RJ (Fonte – Internet).
As escarpas da Serra do Mar prosseguem até o Rio de Janeiro. Em Paraty, ela se afasta do litoral, ressurgindo, porém, lá ao fundo nos belos desenhos da Pedra da Macela, na surpreendente altitude de 1.840 m.
Paraty é a porta de entrada para uma caminhada clássica: os três dias da volta de 40 km da Península da Joatinga. Nas suas extremidades, dois locais irreais: o condomínio milionário de Laranjeiras e o magnífico Saco do Mamanguá.

A Praia de Martim de Sá na Joatinga, RJ (Fonte – Mochileiros.com).
E, no seu interior, simpáticas vilas caiçaras, praias paradisíacas, uma mata atlântica opulenta e duas montanhas de longo acesso (serão 4 horas de ida): os Picos da Jamanta e do Cairuçu, com cerca de 1.100 m.
Mas a formação mais interessante, já na região de Angra dos Reis, é a formidável Pedra do Frade, que já relatei nesta coluna. Seu sedutor corpo cilíndrico emerge acima da encosta, parecendo desafiar a sua conquista – que poderá lhe tomar umas 6 horas de subida.

Pedra do Frade na Bocaina (Fonte – Mochileiros.com).
Mas o cume (a 1.575 m) é uma corcova acolhedora, de onde você verá o suave desenho da praia e, mais além, os perfis recortados no rumo do Rio. Quem sabe o paraíso não seja muito diferente.
Cunhambebe: Este é o mais novo Parque Estadual carioca. Abrange principalmente as encostas altas dos municípios costeiros de Angra dos Reis e Mangaratiba (RJ), bem como as áreas das divisas destes com o planalto. Fora as cachoeiras, seu setor mais interessante é o da Serra das Três Orelhas, assim chamada devido às três corcovas rochosas que aparecem em sucessão.
Perto dela existem três belas montanhas: as Pedras Chata e do Fogo e o Bico do Papagaio, todas acima de 1.500m. A Pedra Chata é mais conhecida, com uma subida de 2½ horas. O acesso ao Papagaio é também relativamente rápido. Já o caminho da Pedra do Fogo é mais longo e incerto, sua subida podendo demandar até 5 horas.

A Pedra Chata, PE de Cunhambebe, Lídice, RJ (Fonte – Divulgação).
Do alto das pedras, há uma linda vista da superfície do mar, que envolve a Restinga de Marambaia e banha a planície de Porto Belo; na outra direção, a vista alcança as Três Orelhas e o sertão de Rio Claro. Esses visuais são sempre mansos, com essa viagem visual entre as encostas verdes e próximas e o horizonte infinito do céu e do mar.
Se você tiver disposição, tente a Travessia Lídice-Angra. Serão quase 45 km pelo leito da antiga ferrovia que ligava as duas vilas.
Os Órgãos e a Serra Carioca: No Rio de Janeiro, a Serra do Mar é chamada de Serra dos Órgãos. Talvez seja este o mais impressionante trecho de toda essa formação, devido às suas escarpas dramáticas, das quais o maior representante é o Dedo de Deus. Seus 1.690 m foram conquistados por montanhistas de Teresópolis em 1912, na época o mais extraordinário feito do montanhismo brasileiro.

O incrível perfil do Dedo de Deus na Serra dos Órgãos, RJ (Fonte – blogdescalada.com).
Esta região é abraçada pelo PN da Serra dos Órgãos, que contém uma esplêndida coleção de montanhas. Seu ponto culminante é a Pedra do Sino (2.265 m). Eu a fiz por 4 horas de ida numa manhã terrivelmente quente no início da primavera.
O acesso começa a partir do último estacionamento do Parque em Teresópolis. É uma longa rota, com um aclive suave dentro da mata contínua. Você passará por duas clareiras, tão planas e estranhas, antes de encontrar os rochosos dos altos.
O cume é espaçoso e dotado de bela vista, com a ampla baía azul à frente, o escarpado Castelo do Açu à direita e toda a crista ao alcance do olhar. A curiosa formação à sua frente é o Garrafão, cuja subida é um tanto técnica.

Pedra do Sino ao fundo e Garrafão à frente, PN Serra dos Órgãos, RJ (Fonte – ecoturismobrasil.com.br).
O Sino é um ponto intermediário da Travessia Petro-Teres, que durante dois a três dias percorre por 30 km a esplêndida crista dos Órgãos. É um caminho maravilhoso, considerado um dos mais exemplares do Brasil.
A Pedra do Sino, de tão fácil acesso, abriga, entretanto, algumas das mais complicadas rotas de escalada do País, como Terra de Gigantes e Franco Brasileira.
Mas o Parque é dotado de muitas outras escaladas notáveis, como a Agulha do Diabo, o Escalavrado e o Dedo de Nossa Senhora. Essas pedras têm em comum perfis expostos e desafiadores, contemplando o azul e o verde da natureza.
Os Três Picos: A Serra do Mar apresenta uma importante extensão interiorana, que alcança os municípios serranos do Rio. Eles formam o esplêndido PE dos Três Picos, o maior do Estado.
Assim como Itatiaia, possui duas partes contrastantes: de um lado, as terras baixas e florestadas, com muitos rios, poços e cachoeiras, e de outro os campos altos e frios, de sofrida vegetação arbórea, abrigando os grandes e emocionantes maciços rochosos que deram nome ao Parque.
O Três Picos já foi considerado uma Patagônia brasileira – pode parecer exagero, mas existem em comum as emocionantes verticalidades, os cenários espetaculares e a natureza radical.
O visual das três pedras irmãs com suas formas pontudas de um lado e a formação abaulada do Capacete de outro, silenciosas e imponentes lá em cima do vale, até parece inventado.

Os Três Picos e o Capacete, PE Três Picos, Friburgo, RJ (Fonte – territorios.com.br).
O Parque abriga o Pico Maior (2.315 m), que foi conquistado durante a Segunda Guerra pela chaminé do lado oeste e permaneceu por trinta anos como nossa maior parede de escalada. Curiosamente, ela foi suplantada pela via leste na mesma montanha!
Também ela permaneceu por quase três décadas nossa maior via de escalada – hoje, seus 700 m foram superados pelas chamadas supervias, abertas a partir dos anos 2000. Porém essa natureza vai continuar única para sempre, uma modesta Yosemite brasileira.
Mas existem a seu lado dois picos com o mesmo formato de pontões, chamados de Médio e Menor, acima de 2.200m. Os dois menores são acessíveis a não escaladores como eu, com talvez umas 5 horas de esforço para a ida.
Convém não esquecer duas outras formações notáveis: o Capacete e o Cabeça de Dragão. Bem como as esplêndidas montanhas no encantado Vale dos Frades que fica logo abaixo. Essa é uma região abençoada, com tantas pedras enormes e isoladas, simplesmente esperando por você.
Mas talvez a vista mais incrível pertença a uma pedra antigamente difícil, mas hoje facilmente alcançável: o Pico da Caledônia (2.255 m), já fora e distante do Parque.

Pico da Caledônia com Três Picos ao fundo, Friburgo, RJ.
É quase indescritível o panorama que se descortina lá de cima, a começar pelos três picos tão distantes e a região serrana, bem como nos dias claros a Baía da Guanabara, a Baixada Fluminense, a Região dos Lagos e até Cabo Frio. O cume tem uma amplidão única, valorizada pelo espaço e pela verticalidade.








