A Brahma no Roraima

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Este é o segundo texto sobre minha viagem ao Monte Roraima, uma das mais altas formações brasileiras e nosso único tepuy.

O Roraima não é o maior dos cem tepuys venezuelanos, é apenas o mais alto, com quase 2.900m. Também não é o ponto culminante da Venezuela – no caso, o Pico Bolívar. Mas é uma formação impressionante, que de repente aparece por inteiro à sua frente, como um navio rochoso parado no meio da savana, gigantesco e silencioso.
 
Vale lembrar que o Roraima é predominantemente venezuelano, talvez 75% dele.  Algo como 20% pertence à Guiana – e só 5% ficam no Brasil. Assim, o famoso Ponto Tríplice, onde os três países convergiriam, parece ser antes obra da imaginação do que da geografia. Por sinal, duvide das informações geográficas, quase sempre estarão erradas. Levei muito tempo para corrigi-las.     
 
O Roraima parece tão grande quanto La Gran Sabana, uma imensa região de campo e cerrado que o envolve e que você terá de atravessar para chegar lá. Nele foi implantado um gigantesco parque natural, cuja principal atração não é o Roraima e sim o Salto Angel, a maior de todas as cachoeiras do planeta.  
 
Durante os quatro dias em que estivemos lá em cima (mais outros tanto nos deslocando), vimos muitas formas estranhas, simulando monstros ou animais, aparecendo ao longo das paredes de arenitos estriados. Passamos por precipícios envoltos na neblina ou abertos para colinas no horizonte distante. Atravessamos lajes e rampas, charcos e rios, ora iluminados por um sol equatorial, ora escurecidos por brumas bizarras.  Muitas vezes, a rocha enegrecida nos pareceu sinistra, bem como pouco natural o silêncio sem vento à nossa volta.
 
Porém, pelo menos podíamos nos alojar com algum conforto nos chamados hotéis – rochas com reentrâncias protegidas por lajes salientes. Era embaixo delas que armávamos nossas barracas, para um sono protegido da chuva e do vento. Funcionavam como acampamentos fixos aos quais voltávamos depois de cada dia de caminhada. Eram vários: Waichero, Basílio, Brasil. 
 
Um dia vimos ao longe um grupo grande e uniformizado. As pessoas usavam bonitos conjuntos azuis e vermelhos, e pareciam marchar com determinação. Deve ser uma excursão profissional, pensei. Mas que surpresa ao retornarmos depois de um longo percurso ao Hotel Waichero e encontrarmos as barracas deles armadas intercaladamente entre as nossas!
 
À medida que nos aproximávamos, começamos a escutar gemidos, pois muitos deles tinham se machucado.  O grupo era formado por familiares de um rico distribuidor da Brahma de Manaus. Ele queria comemorar o seu aniversário, porem prudentemente sem a sua presença. Ou talvez ele quisesse se livrar de alguns parentes indesejados.
 
Era uma coisa amadora, dessas que a gente costuma às vezes encontrar nos locais ermos, porém famosos, da natureza. Seu líder era uma figura curiosa chamado Tabajara, que certamente se acreditava descendente de Tarzan. À noite, algumas moças usavam estranhos casacos peludos que as faziam parecer perigosos ursos vagando entre nossas barracas. 
 
Estavam exaustos, talvez assustados, desapareceram para algum outro pouso no dia seguinte e acabaram voltando cedo do Roraima. Enfim voltamos a ter a montanha só para nós e nunca mais os vimos. Só mais tarde cruzamos brevemente com Tabajara, mas já estávamos no platô de baixo, retornando para o Brasil. De novo, ele se comportava como um Tarzan das selvas, gritando seminu para a natureza. Infelizmente, não se fazia acompanhar pela Jane.   
 
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Sobre o autor

Alberto Ortenblad - Colunista

Nasci no Rio, vivo em São Paulo, mas meu lugar é em Minas. Fui casado algumas vezes e quase nunca fiquei solteiro. Meus três filhos vieram do primeiro casamento. Estudei engenharia e depois administração, e percebi que nenhuma delas seria o meu destino. Mas esta segunda carreira trouxe boa recompensa, então não a abandonei. Até que um dia, resultado do acaso e da curiosidade, encontrei na natureza a minha vocação. E, nela, de início principalmente as montanhas. Hoje, elas são acompanhadas por um grande interesse pelos ambientes naturais. Então, acho que me transformei naquela figura antiga e genérica do naturalista.

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