Além do Espinhaço – Os Parques Marginais

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Abordo agora as reservas criadas à margem do Rio São Francisco. Ocupam um território de aspecto mutável – verdejante nas águas e árido na seca – mas quase sempre pobre e sofrido. Seu maior símbolo são as maravilhosas árvores barrigudas, que mais parecem criadas pela imaginação do que pela natureza.

Há três Parques Estaduais e algumas reservas marginais ao São Francisco, que se estendem por 120 km do rio, englobando 166 mil ha (ver mapa ao lado).

Mapa de Localização das Reservas do São Francisco, MG

Lagoa do Cajueiro: É um parque mediamente grande, com 20.500 ha. Pertence ao município de Matias Cardoso, uma pequena vila no norte mineiro. Seu nome celebra o bandeirante que dizimou os índios locais, fundou grandes fazendas de gado e povoou a região. A vila que resultou foi a mais antiga de Minas Gerais.

O Parque Estadual da Lagoa do Cajueiro está a apenas 7 km da vila. Decorreu da desapropriação de algumas fazendas, estando apenas 2/3 regularizado. Sua altitude é baixa, cerca de 450m. O Parque foi feito para preservar nas suas planícies sedimentares a cobertura vegetal dos lagos próximos ao São Francisco.

Lagoa do Cajueiro, PE Lagoa do Cajueiro, Matias Cardoso, MG

Ocupa a Ilha do Cajueiro, tendo como acidentes principais as Lagoas do Cajueiro e do Pucá. Seus 5 km são abastecidos pelas águas do São Francisco, curiosamente rio acima. Estas lagoas funcionam como criatórios de peixes. O Cajueiro é um lago pouco interessante, onde a ocupação de suas margens o está tornando cada vez mais raso, estreito e invadido pelos juncos e aguapés.

A vegetação varia desde a floresta à caatinga arbórea e às pastagens plantadas. Inclui árvores que, após as primeiras chuvas, recuperam suas folhas perdidas na seca. Mas isto não acontece quando queimadas pelo fogo, que as transforma nos carrascos, compostos por plantas lenhosas e espinhosas. A fauna é típica deste ambiente.

Sua porção mais interessante inclui as lagoas de sua extremidade oeste, vizinhas ao São Francisco. Foram infelizmente ocupadas por quilombolas, cuja atividade as está degradando.

Como é comum aos parques deste artigo, o PELC não está aberto à visitação. Sua sede fica na Fazenda Casa Grande, onde existiria uma base adequada à sua exploração, se esta fosse a intenção do IEF. Este parece preferir hospedar ocupantes quilombolas do que receber pesquisadores e visitantes.

Verde Grande: Assim como as demais UCs desta coluna, o Parque Estadual Verde Grande integra o sistema de áreas protegidas do Jaíba, que mencionei no texto anterior.

O Parque conta com 25.570 ha no município de Matias Cardoso. Seu acesso parte desta vila, a partir da estrada vicinal que vai ao Distrito de Lajedão. É nesta região que ocorre um impressionante cânion calcário, com rasas e estreitas galerias labirínticas decoradas na superfície por cactos, macambiras e umbus. Mais adiante, a Caverna Escura, com estimados 200 m de extensão, ainda não percorridos até seu final.

Lajedos Calcários, APA de Lajedão, Matias Cardoso, MG

O Sabonetal compõe uma enorme APA serrana, onde a altitude chega a 750m. Antes e depois, você atravessará grandes fazendas planas em campos deslumbrantes, ocupadas com grãos e gado. Esta é uma serra bastante áspera, ocupada pela caatinga e mata seca – nela percorri cerca de 100 km.

O Sabonetal integra um interessante sistema, junto com as Serras São Felipe, Mãe Joana e Geral. O nome de Geral é usado na região para representar o Espinhaço – e, de fato, esta última formação já se assemelha ao perfil retilíneo desta cadeia.

Lapa Calcária na Serra do Sabonetal, Jaíba, MG

A origem do PEVG foram grandes fazendas improdutivas, invadidas e desapropriadas, mas ainda não indenizadas. Isto impediu o efetivo controle da área pelo IEF. O Parque é assolado por atividades de caça e pesca, além de queimadas e desmatamentos.

Ele margeia o São Francisco até a foz do Verde Grande. Este era um dos principais afluentes da margem direita, correndo por quase 600 km. Porém é mais um dos rios moribundos do norte mineiro: há trechos em que simplesmente secou, alguns em que empoçou e outros onde apenas se arrasta.

Rio Verde Grande, PE Verde Grande, Matias Cardoso, MG

Contém áreas alagadas e lagoas, bem como carrascais e pastagens, além de matas secas e cerrados – estes últimos ocupando mais de 2/3 da área. Apesar de sua aparência árida, a área contém grande variedade florestal, além das paineiras barrigudas de que falarei a seguir. A floresta é chamada de decidual, por perder suas folhas na estação seca e recuperá-las na úmida.

Exemplo de Dessiduidade, PE Mata Seca, Manga, MG (Fonte: Ronaldo Alves Belém)

Acolhe nos seus banhados jacarés e capivaras, sendo berçário de inúmeros peixes. A sua parte mais bonita é a norte, na confluência com o São Francisco. Lá existem incontáveis lagoas que costumavam acolher ninhais de aves. Pois foi aqui que invasores se estabeleceram, às expensas do meio ambiente. Mais uma vez, a região está sendo degradada, para possivelmente ser abandonada depois de exaurida.

Mata Seca: O Parque Estadual da Mata Seca conta com 15.360 ha, resultando da desapropriação de quatro fazendas, cuja estrada de acesso o atravessa por inteiro. Pertence ao município de Manga, sendo a única das três reservas à esquerda do São Francisco. Limita a norte com os índios xacriabás da coluna anterior.

Manga não significa a planta e sim o curral, pois abrigava uma grande população bovina. As terras férteis, a fauna abundante, o porto fluvial e o cultivo do algodão fizeram da cidade a principal ligação entre Minas e o Nordeste. As lutas políticas e a decadência econômica reduziram Manga a um tamanho que não reflete mais seu passado importante.

A mata seca torna-se árida, desfolhada e espinhosa quando as chuvas escasseiam, como uma forma de proteção à falta de nutrientes. Com o retorno das chuvas, volta a adquirir sua folhagem original e seu aspecto tropical (ver foto). Contribui para isso o solo calcário, onde a água é drenada da superfície.

Árvores Barrigudas no Campo, Montalvânia, MG

A principal espécie é a barriguda ou embaré, que atinge grande tamanho. São paineiras ou baobás com trocos abaulados para armazenar a água escassa. Suas copas são em geral minúsculas, contendo pequenas flores brancas. São árvores diferentes e magníficas que aparecem em geral espaçadas, dominando a vegetação de uma forma surreal.

Barriguda Poderosa, PE Mata Seca, Manga, MG

Existem no Parque cinco belos lajedos de solo calcário acinzentado que recebem uma impressionante coleção de cactos, em especial os cabeças de frade com seus lindos topos vermelhos.

Lajedo com Cabeças de Frade, PE Mata Seca, Manga, MG

Mas o PEMS também contém caatingas arbóreas sobre afloramentos calcários, matas ciliares nas margens do São Francisco e nas suas quatro lagoas marginais. A principal formação é a Lagoa Comprida – um lago lindo, cercado por muito verde e composto por escuras águas azuis. Diferentemente do Cajueiro, parece haver mais vida e movimento nas suas águas.

Lagoa Comprida, PE Mata Seca, Manga. MG

O conjunto de lagoas se dispõe no sentido N-S, sendo enchidas pelas águas do São Francisco, num movimento inverso à sua correnteza. Quando cheias, formam um enorme corpo de 25 km, importante criatório dos peixes da região.

Seu relevo é plano, com leves ondulações – vale notar o Morro da Lavagem (a 530m) que abriga a caverna de mesmo nome. Você já sabe, suas margens são invadidas pelos chamados vazanteiros – ao invés de plantarem na vazante, seus cultivos resultam do fogo colocado nas matas ciliares.

O PEMS não está organizado para a visitação – mas é o mais acessível e interessante dos parques do São Francisco.

Chegaremos a partir de agora numa das mais radicais das diversas fisionomias da região do Espinhaço: enfim, tudo se torna Sertão.

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Sobre o autor

Alberto Ortenblad - Colunista

Nasci no Rio, vivo em São Paulo, mas meu lugar é em Minas. Fui casado algumas vezes e quase nunca fiquei solteiro. Meus três filhos vieram do primeiro casamento. Estudei engenharia e depois administração, e percebi que nenhuma delas seria o meu destino. Mas esta segunda carreira trouxe boa recompensa, então não a abandonei. Até que um dia, resultado do acaso e da curiosidade, encontrei na natureza a minha vocação. E, nela, de início principalmente as montanhas. Hoje, elas são acompanhadas por um grande interesse pelos ambientes naturais. Então, acho que me transformei naquela figura antiga e genérica do naturalista.

2 Comentários

  1. Avatar

    Muito boa esta coluna, obrigado!
    Voce escreveu que o P.E. Mata Seca não está aberta para visitacão, como voce visitou la? Tem um condutor para conhecer o parque? Muito obrigado pela ajuda!

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