A Canastra e o São Francisco

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Chego agora ao terceiro e último assunto desta pequena série de textos: na realidade, ao principal deles, a imensa Serra da Canastra. Um ambicioso Parque Estadual, criado com muito esforço para preservar as nascentes do São Francisco, transformou-se meio século atrás num Parque Nacional, cuja área foi depois grandemente aumentada para incluir os chapadões próximos. É uma natureza monumental, estranhamente ainda pouco conhecida.

Este não é um parque muito frequentado, acho que por duas razões. Uma é o seu acesso, um tanto longo para quem mora numa das capitais do Sudeste. O segundo motivo é que o parque é muito extenso para o andarilho, sendo necessário carro ou moto para aproveitá-lo. Não há pontos próximos e interessantes nas proximidades. O principal acesso é pela Portaria de São Roque de Minas.

Mapa do PN Serra da Canastra, MG

O lado mais impressionante da Serra da Canastra é o sul, num longo paredão vertical com a forma de uma arca, o que aliás explica o seu nome. É deste lado que o ainda jovem São Francisco se precipita, formando os 200m da Casca D´Anta, uma das cachoeiras mais cênicas do Brasil. Já o lado norte tem uma aparência mais suave, diluindo-se nos planaltos mineiros.

Serra da Canastra vista de São José do Barreiro, MG

É emocionante conhecer as nascentes deste grande rio, ele se cria numa pequena bacia de onde as muitas fontes rapidamente formam um riacho – costumo pensar que o São Francisco já nasce pronto. E, logo em seguida, você irá reencontrá-lo já poderoso e inquieto.

Nascente do Rio São Francisco na Canastra, São Roque de Minas, MG

Forma sucessivamente um poço tranquilo, uma pequena e bonita cachoeira, uma corredeira vertiginosa e uma funda garganta, antes de se verter na Casca D´Anta e abandonar a Canastra. É possível se aproximar deste ponto por cima das paredes da garganta que ele escavou, mas não ver de cima a cachoeira, tão vertical ela é.

A Cachoeira Casca D´Anta na Serra da Canastra, MG (Fonte: Divulgação)

Olhando abaixo, descortina-se a impressionante visão do vale do rio, limitado pelas Serra da Canastra e, em frente, da Babilônia. Ele é rápido e pedregoso, mas começa a apresentar logo a seguir algumas curvas.

Existe uma trilha pedregosa ao lado da cachoeira, por onde você pode descer para a parte de baixo e encontrar o vento horizontal da enorme queda. Se quiser voltar, terá de subir pelo mesmo caminho, mas será uma ascensão agradável.

Se começa bem, a história do São Francisco termina mal. Depois de 3 mil km, ele encontra o oceano, já cansado e exaurido. A cada dia que passa, ele perde a batalha para o mar: o farol que ficava na sua foz está agora 1 km mar a dentro e a vila que existia às suas margens foi abandonada.

Guimarães Rosa um dia disse que a sua é uma história de sofrimento de um rio que há mais de 500 anos é fonte de vida e riqueza. O São Francisco, que foi o mais importante rio do país durante o período colonial, por integrar Minas ao Nordeste, era chamado de Velho Chico. Hoje este velho está senil.

Entardecer na Serra da Canastra, MG (Fonte: Jorge Soto)

Voltando da parede de onde o São Francisco se precipita, se quiser você pode prosseguir pela enorme chapada, continuando na estradinha de crista que irá levá-lo a muitos pontos cênicos, como um curral e uma garagem de pedra, uma elevação à direita que será o ponto culminante da Canastra e uns mirantes para as Serras Sete Voltas e Cemitério.

Campo de Sempre Vivas na Canastra, MG (Fonte: Divulgação)

Se você descer o lado norte da Canastra, encontrará muitas cachoeiras grandes. Continuando sempre em frente, sairá pela Portaria de Sacramento, 70 km depois.

O leitor curioso encontrará outros atrativos na região, que é rica em rios, serras, campos, cachoeiras e sobretudo histórias, como costuma acontecer neste vasto mundo de Minas Gerais.

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Sobre o autor

Alberto Ortenblad - Colunista

Nasci no Rio, vivo em São Paulo, mas meu lugar é em Minas. Fui casado algumas vezes e quase nunca fiquei solteiro. Meus três filhos vieram do primeiro casamento. Estudei engenharia e depois administração, e percebi que nenhuma delas seria o meu destino. Mas esta segunda carreira trouxe boa recompensa, então não a abandonei. Até que um dia, resultado do acaso e da curiosidade, encontrei na natureza a minha vocação. E, nela, de início principalmente as montanhas. Hoje, elas são acompanhadas por um grande interesse pelos ambientes naturais. Então, acho que me transformei naquela figura antiga e genérica do naturalista.

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