Carretera Austral: Final

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Acompanhe os relatos de Aline Souza em sua cicloviagem pela Carretera Austral desde o começo:

Carretera Austral de Bike

Dia 18 – 09/01/2019

  • Trajeto: de Perito Moreno à El Calafate (de carona)
  • Distância: 630 km
  • Terreno: asfalto e rípio

Durante a noite tivemos chuva e muito vento, mas curti muito dormir na minha barraquinha e utilizar os equipamentos tão subutilizados que carreguei por cerca de 1300km. Durante vários momentos da viagem me perguntei porque não acampamos mais. Na verdade, desde que comecei a pedalar com o Julien, em Puerto Montt, não acampamos nenhuma vez.

Na noite anterior meus novos colegas haviam comentado que acordaríamos e sairíamos cedo já que nossa viagem até El Calafate seria bem longa (630km). Coloquei meu relógio para despertar as 6h30. Acordei e todos estavam dormindo. Estava apertada, fui ao banheiro e voltei rapidinho para o quentinho da barraca. Quando constatei que realmente estavam acordando me levantei e comecei a arrumar minhas coisas.

Arrumei tudo rapidinho e fui preparar meu café, estava de carona, definitivamente não queria atrasar ninguém. Comi iogurte com frutas secas e castanhas e tomei café com leite (em pó). Além disso, preparei sanduíches para a longa viagem.

Saímos por volta das 10h, não tão cedo (rss).

O Odair e a Ju já haviam comentado que teríamos um longo deserto pela frente. Eu não havia estudado nada sobre a Ruta 40 então tudo era novidade para mim. A paisagem é linda. Cheguei a pensar que poderia se tornar monótona, mas não, o deserto definitivamente tem suas belas nuances.

Passei o trajeto todo sentadinha, quentinha e bem confortável no carro. Como se já não bastasse tudo isso, segui ouvindo e contando histórias de viagens e comendo lanchinhos gostosos. A dupla viajada do carro, me contou sobre os Guanacos suicidas, que quando veem um carro se jogam na frente. Também pude visualizar muitas carcaças de Guanacos que ficam presos ao pularem a cerca e morrem ali mesmo.

Além dos muitos guanacos, vimos lebres, pequenas raposas, emas (e filhotinhos lindos de ema), grilos pré-históricos, cavalos selvagens, bois, vacas, tem muitos animais vivendo no deserto.

Além dos animais, vez que outra avistávamos lagos e rios super azuis que se sobressaíam na paisagem.

Grande parte do trajeto foi feita em asfalto, mas em alguns momentos tivemos que encarar um rípio, dos piores que vi por aqui, fiquei pensando que essa parte sem 4×4 seria bem difícil. Claro que também fiquei pensando em como seria fazer todo aquele deserto de bicicleta. Vi alguns ciclistas fazendo isso. O problema é que as vilas são muito afastadas umas das outras, exigindo no minimo um bom planejamento de água e comida.

Durante o trajeto paramos algumas vezes para fotos e outras para abastecer. Numa das paradas, num posto de gasolina, nos estendemos um pouco mais para comer algo. Ali tive acesso ao wi-fi e consegui falar com Julien. Estava tudo bem, ele já estava em Perito Moreno e já havia comprado a passagem do ônibus para El Calafate (pagando um extra para a bike). Essa conversa me deixou tranquila. A internet também foi importante para resolver um segundo problema. Havia pedido ajuda referente a hospedagem a um amigo em El Calafate, Damian. A priori chegaria dia 11/01, hoje era dia 09 e eu estava chegando a tarde. Por sorte também consegui resolver esse pequeno detalhe. Damian foi um querido, também me ajudou conseguindo uma caixa para eu embalar minha bike.

Chegamos em El Calafate por volta das 17h. Ficamos um bom tempo para conseguirmos abastecer (sim tem fila para abastecer na maioria dos postos da Patagônia e se não tiver sorte pode ficar sem gasolina). Dali, estacionamos os carros e segui com o povo em busca de hospedagem. Precisava definir um local para que Damian me pegasse.

Rodamos um bocado na cidade, entramos em várias hospedagens que, ou estavam lotadas ou eram super caras. El Calafate é uma cidade bem turística, porta de entrada para o Perito Moreno, Torres del Paine (pode se chegar por Punta Arenas também), El Chaltén, entre outros atrativos. O que fica fácil de se observar também é que no verão El Calafate fica lotada de Brasileiros.

Definido o local da hospedagem descarreguei minhas tralhas da Ducato, agradeci imensamente a todos por tudo que fizeram por mim e avisei Damian onde estava.

O que mais queria naquele momento era um bom banho seguido de uma comidinha gostosa e foi o que tive.

Dia 19 – 10/01/2019

  • Local: El Calafate
  • Atividades: corrida na cidade e na beira do lago Argentino
  • Distância: 8k

Bem acomodada em El Calafate coloquei como objetivo principal conseguir relaxar nos 4 dias que teria na cidade, esse seriam meus últimos 4 dias de férias. Chegaria em Floripa no domingo, dia 13, e já voltaria ao trabalho na segunda, dia 14 (loucura).

Tempo em Calafate

Já havia passado alguns dias em El Calafate com duas amigas nas férias de 2017/2018 (sim, tenho um caso de amor com a Patagônia). Naquela época, além de El Calafate, conheci Torres del Paine, El Chalten e Ushuaia. Em El Calafate, visitei o Parque Nacional Perito Moreno, fiz o trekking nos glaciares (a versão mais longa), fiz pic nic no Lago Roca, subi o Cerro Cristal e, obviamente, durante todo esses passeios tomei bons vinhos.

Cheguei a verificar na internet o que de melhor se tem para fazer na cidade, e constatei que já havia feito os melhores passeios, pelo menos os que me interessavam. Avaliei apenas ir novamente ao Parque Nacional Perito Moreno, já que quando estive lá estava chovendo.

Os dias em que fiquei na cidade foram de muitoooo vento, nunca tinha entrado no WindGuru e visto tantos horários em tons de vermelho, dias seguidos. Acordava e dormia ouvindo o barulho do vento. Em vários momentos preparei um mate (ou um café), sentei na janela e fiquei só observando as árvores balançando lá fora.

Mesmo ventando, os dias estavam lindos, com aquele céu azul que tanto gosto.

Já primeiro dia de ‘descanso’ sai para dar uma corridinha na cidade. Depois de quase um mês sem correr, foi incrível. Me senti leve, livre. A corrida fluiu muito fácil (depois descobri que era o vento a favor ajudando). Claro que não estava compromissada com tempo, ritmo, nada disso. O intuído era ir lembrando as perninhas de que elas terão que correr, e muito, a partir do momento que eu voltar ao Brasil (foco será total no treinamento para a UltraFiord, em abril) e, claro, conhecer um pouco mais da cidade.

Iniciei descendo em direção ao Lago Argentino, olhei para os dos lados e decidi ir para a direita. Fui margeando ele até terminar o calçamento.

Dali subi uma morrebinha, de onde já se podia ver a cidade, e voltei passando pela Av Libertador, a avenida principal da cidade.

Ao todo foram 8km, suficientes para chegar em casa satisfeita, com aquela sensação boa de quem se exercitou.

A tarde passeei um pouco pela cidade, comprei algumas coisinhas gostosas no mercado e vinho, claro (faz parte do relax).

A noite comidinha em casa mesmo, acompanhada de boa música e bom vinho.

Dia 20 – 11/01/2019

  • Local: El Calafate
  • Atividades: corrida na cidade e na beira do lago Argentino
  • Distância: 12km

No dia seguinte sai decidida a correr um pouco mais. Fui orientada a correr na margem do Rio Argentino, mas no sentido contrário (para a esquerda), assim o fiz. Confesso que não foi fácil. O dia estava lindo, mas corri com vento contra por uns 7km.  O vento contra da Patagônia, não é como vento sul de Floripa (que já me faz reclamar) é muitooo pior. Usei o vento como desculpa para parar varias vezes para fotos.

O dia seguiu com relax, mate argentino, passeio na cidade, alfajores e cerejas colhidas no pé.

A noite pizza e vinho.

 

Dia 21 – 12/01/2019

  • Local: El Calafate
  • Atividades: trekking Hoya del Chingue – Cerro Huyliche
  • Distância: cerca de 1km

Ocupava meu tempo ouvindo música Argentina e colocando meus posts em dia. Mas esse ócio não é algo tão natural pra mim, principalmente numa viagem de férias. Tinha ganas de fazer algo, algo diferente.

Me ajeitei para dar uma volta na cidade, mas antes de sair recebi um convite do amigo Damian para um passeio. Aceitei na hora. Não perguntei onde iríamos, apenas fui, animada por sair a passear com alguém que realmente conhece o local. Damian me levou a uma estação de esqui que hoje está desativada, Hoya del Chingue, no Cerro Huyliche.

No caminho foi me contando a história do local, que hoje comporta a sede de um grupo de motocross, inclusive acontecem provas de motocross por ali. Imaginei fazer uma prova de Trail, quem sabe algo uma quilômetro vertical.

Paramos o carro e subimos até o topo da Montanha, de cerca de 1050m. Estava frio, ventava, mas eu subi super animada, com um sorriso estampado na cara.


A subida era íngreme, e linda. Sempre que olhava para trás via o lago Argentino, em seu azul deslumbrante.

No topo a paisagem era linda, se podia ver uma linda cadeia de montanhas, incluindo um enorme glaciar, mas o vento estava forte e era congelante. Não deu para ficar muito tempo, mas ficamos o suficiente para guardar aquela paisagem e momento para sempre na minha memória.

Na volta compramos, queijos, vinho e alguns petiscos.  Foi minha última noite em El Calafate.

Dia 22 – 13/01/2019

  • Local: El Calafate
  • Atividades: corrida na cidade e na beira do lago Argentino
  • Distância: 12km

No meu último dia em El Calafate acordei tarde, tomei um café demorado e fique observando o vento. Sai para minha corridinha de despedida, por volta do meio dia.

Conhecendo melhora a cidade pude optar por trajetos um pouco mais offroad, isso quando os cachorros permitiam. Mesmo sendo o dia mais frio, curti cada quilômetro.

Na volta tomei um bom banho, almocei, fechei minha caixa da bike na esperança de ter conseguido dividir o peso da melhor forma (a caixa não poderia passar de 23kg) e segui pro aeroporto com tempo livre para poder resolver possíveis problemas relacionados ao despacho da bike (essa situação sempre me deixa tensa). Deu tudo certo no despacho.

Esperando meu voo fiquei refletindo sobre tudo que vivi naqueles últimos dias. Aconteceram tantas coisas especiais. Tive tantos aprendizados. Me senti completamente grata por tudo e com o coração tranquilo. Em abril estarei de novo na Patagônia.

 

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Sobre o autor

Aline Elétrica

Aline Souza, mais conhecida como Aline Elétrica por ser engenheira elétrica é uma multi atleta de Florianópolis - SC. Ela pratica corridas de aventura, trekking, ciclo turismo e escalada em rocha. Siga ela no Instagram @alineeletrica

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