Duas Conquistas

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A conquista do Pico Paraná é uma emocionante história do montanhismo paranaense. Quando o geógrafo alemão Reinhard Maack subiu no Pico Olimpo, ponto culminante do maciço Marumbi, percebeu que este não poderia medir 1.800m, como então se acreditava, na época em que era considerado o mais alto do Estado.

Mais ainda, Maack notou que existiam ao norte montanhas que pareciam mais elevadas, em especial uma bela formação com duas corcovas, que ficava atrás de uma terrível muralha de picos. Foi ele quem primeiro lançou o desafio de conquistar aquela montanha. Junto com os experientes marumbinistas Rudolfo Stamm e Alfred Mysing, organizou uma expedição para chegar lá.
 
Era o começo da década de 1940 e não existia a Rodovia Régis Bittencourt, a região era completamente inacessível, além de muito acidentada – mesmo hoje, não existe nenhuma cidade de expressão nos 200 km entre Registro e Curitiba. Após alguns erros, os três conseguiram conquistar o Pico Caratuva, de onde tiveram uma visão mais próxima da montanha.
 
Em julho de 1941, Stamm e Mysing finalmente atingiram o cume, depois de duas semanas de aventura. Maack acompanhou sua ascensão do que hoje é chamado Abrigo 2, no platô frontal à montanha. Batizaram-no então de Pico Paraná – um nome a meu ver nada criativo. Sabe-se hoje que o Paraná mede quase 1.900m, contra pouco mais de 1.500m do Marumbi, e que é o ponto culminante do Sul do país.  
 
Reinhard Maack foi um brilhante geólogo, importante teórico e incansável pesquisador. Ele nasceu na Alemanha, trabalhou na África e viveu depois no Brasil. Morreu já idoso no fim da década de 1960. Rudolfo Stamm é considerado o maior montanhista paranaense de sua geração – diferentemente de Maack, sua vida pouco regrada terminou cedo num incêndio em Curitiba, antes dos seus 50 anos. Alfred Mysing foi o mais constante companheiro de Stamm, contribuindo para muitas das vias do Marumbi. Com a morte do amigo, foi para a Venezuela e nunca mais voltou.  
 
Por sua vez, o Olimpo foi conquistado meio século antes, em 1879, por um farmacêutico de Morretes chamado Joaquim Olímpio, em cuja homenagem foi batizado o nome do cume. Ele passou sete anos estudando a montanha, antes de nela se aventurar. Seu trajeto inicial tomou uma semana (quatro dias de ida mais três de volta), chegando ao topo a partir das elevações do Facãozinho e do Boa Vista. 
 
Conta-se que Joaquim Olímpio continuou ativo até uma idade avançada, sempre liderando pessoas ao cume. Os demais picos do maciço – como Abrolhos, Esfinge e Gigante – foram sendo conquistados bem depois, ao longo do século seguinte. O primeiro deles, por um argentino e duas amigas. 
 
A ascensão do Olimpo é considerada no Paraná o berço do montanhismo brasileiro, a primeira escalada esportiva do país. Embora este entusiasmo seja compreensível, lembro que Franklin Massena alcançou o cume do Agulhas Negras em 1856, ou seja, um quarto de século antes. E que o Pão de Açúcar foi conquistado oito anos antes do Olimpo – e por uma dama inglesa!
 
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Sobre o autor

Alberto Ortenblad - Colunista

Nasci no Rio, vivo em São Paulo, mas meu lugar é em Minas. Fui casado algumas vezes e quase nunca fiquei solteiro. Meus três filhos vieram do primeiro casamento. Estudei engenharia e depois administração, e percebi que nenhuma delas seria o meu destino. Mas esta segunda carreira trouxe boa recompensa, então não a abandonei. Até que um dia, resultado do acaso e da curiosidade, encontrei na natureza a minha vocação. E, nela, de início principalmente as montanhas. Hoje, elas são acompanhadas por um grande interesse pelos ambientes naturais. Então, acho que me transformei naquela figura antiga e genérica do naturalista.

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