Minha experiência na oitava montanha mais alta do mundo

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Muito jovem, aos 10 anos, organizei uma “expedição” com um amigo para subir uma pequena montanha próxima da minha casa, no interior do Paraná. Escondido de todos, é claro, foi minha primeira grande aventura. Quando cheguei ao topo da montanha, ficava imaginando o que estaria além do horizonte. Naquele momento eu sabia que era isso que eu gostaria de fazer: ser um explorador. Meu nome é Moeses Fiamoncini, tenho 39 anos, e também sou alpinista. Paixão e auto superação definem o estilo de vida que eu levo atualmente.

Depois de morar em Portugal por seis anos como administrador de uma empresa, em junho de 2008 reuni tudo o que eu precisava em uma mochila e me tornei um desbravador de sonhos. Desde então percorri mais de 80 países, residi em quatro nações em diferentes continentes (Reino Unido, Canadá, França e Nepal), escalei inúmeras montanhas, conquistei muitos amigos e muitas experiências. E a que desejo compartilhar com vocês hoje é a expedição ao Manaslu, oitava montanha mais alta do mundo localizada na cordilheira do Himalaia, realizada em setembro de 2018.
Este desejo nasceu depois de guiar minha irmã mais nova, Giselle Fiamoncini, ao Campo Base do Everest em abril de 2018. Fiz uma promessa de somente retornar ao Nepal para realizar o sonho de escalar uma grande montanha dos Himalaias. Eu já havia feito escaladas de montanhas de 4.000, 5.000 e 6.000 metros, em rochas e gelo, mas era minha primeira vez tentando escalar uma montanha de 8.000 metros, sem oxigênio.
Escalar uma montanha exige um preparo significativo, psicológico e físico. Este desafio começou a ser planejado assim que eu retornei. Na época soube que a alpinista uruguaia, Vanessa Estol, também estava com projetos para escalar a montanha e trocamos muitas ideias sobre o projeto. Vanessa é minha amiga de longa data, conhecemo-nos quando ela estava escalando o Island Peak, montanha no Parque Nacional Sagarmatha dos Himalaias do leste do Nepal. Na oportunidade, ambos contratamos os serviços da empresa nepalesa Seven Summit Trek, especialista em expedições.
Cheguei no dia 29 de agosto, em Catmandu, capital do Nepal, 10 dias antes da data oficial de início da expedição e Vanessa chegou dias depois. Lembro-me que estávamos apreensivos porque ainda era período das monções e chovia muito. Havia registro de dois deslizamentos na região por onde teríamos que passar. Então, no dia decidimos partir de helicóptero fretado.
O destino foi Samagaun, uma vila muito pequena e tranquila, há 5 horas do acampamento base do Manaslu. Lá encontrei meu guia Temba Sherpa, especialista em alta montanha, líder de expedição muito experiente e em resgates de altitude.
No dia 10 de setembro, deixamos o vilarejo cruzando um portão e fazendo o juramento de só retornarmos novamente depois de alcançar o cume do Manaslu, 8.163 metros. Estávamos determinados e nos sentíamos fortes. Na minha opinião, esse foi o início de uma conquista inédita para o montanhismo brasileiro, já que até aquele momento ninguém no país ainda havia relatado e comprovado claramente com registro fotográfico a ascensão ao cume desta montanha.
Campo Base
Provavelmente a melhor maneira de descrever meu primeiro dia no acampamento base era como me sentir em casa. Maior do que muitas das aldeias ao redor, o espaço estava coberto de tendas amarelas que hospedavam aproximadamente 200 alpinistas. Estava muito empolgado, mas o que eu não sabia era que as companhias de helicópteros estavam tendo problemas com o governo para obter permissão de voos em áreas restritas como a do Manaslu e também devido às condições climáticas, atrasando assim a entrega de equipamentos e suprimentos. Isso significava que eu receberia minhas Duffel Bags 8 dias depois.
Sem meus equipamentos, no dia 12 de setembro, meu guia me emprestou suas botas e fiz um pequeno percurso de ida e volta até o Campo 1 para ajudar na aclimatação. Vanessa Estol fez diferentes planos com seu guia, Kami Rita Sherpa, visto que ja tinha recebido seu equipamento.
Meu aniversário dia 14 de setembro, foi comemorado neste lugar magnífico aos pés da oitava montanha mais alta do mundo. No dia seguinte, como presente recebi finalmente minhas Duffel Bags com meus equipamentos e chorei de felicidade. Eu estava tão feliz que organizei para o dia seguinte meu ciclo de aclimatação.
Primeiro e único Ciclo de Aclimatação C1, C2, C3
No dia 16 de setembro, finalmente deixamos o Acampamento Base para dormir no C1. O dia estava ótimo, sem vento e o sol brilhava. Tudo estava indo bem, até ouvimos uma grande avalanche no pináculo leste da montanha, logo abaixo de C2. Meu coração instantaneamente começou a bater mais rápido. Meu guia disse “Não se preocupe, não é perigosa, estamos em uma zona segura”. Eu me acalmei e continuamos andando em frente. Parecia uma grande avalanche e eu fiquei impressionado, mas provavelmente para Temba era apenas um simples espetáculo da natureza. Quando chegamos no C1, já haviam muitas barracas, porém quase totalmente cobertas de neve.
No dia seguinte, quando chegamos ao C2, uma notícia acelerou novamente meu coração, soubemos que um alpinista brasileiro e um sherpa foram pegos por uma avalanche. Felizmente sobreviveram e sofreram apenas pequenos ferimentos. Em dois dias duas avalanches. É incrível como nos sentimos vivos nessas situações perigosas. Sempre tentamos gerenciar os riscos, mas sabemos que o imprevisto pode acontecer a qualquer momento. Resolvemos dormir no C2, a 6.320 metros. Foi uma noite linda. O céu estava estrelado e podíamos ver as luzes de C1 e do Campo Base.

Caminho ao C2

Devido à avalanche, verificamos que ainda havia um pequeno risco ao lado esquerdo da passagem. Avaliamos a situação, uma consciência de estar vivo misturado com muita adrenalina veio atona, e decidimos continuar a jornada. Esta é uma daquelas típicas situações em que é preciso correr riscos e só reitera o fato de que nem tudo está sob nosso controle. Percorrer o terreno frágil da avalanche foi um desafio mental, mas que por determinação foi recompensador já que fomos os primeiros alpinistas a chegar a 6.730 metros após o acontecido. Foi um momento incrível, somente eu e meu guia naquela imensidão de neve. O local estava muito tranquilo, sem vento e o céu em um tom de azul muito claro. Sozinhos, desfrutamos da vista surpreendente dos Himalaias. Estávamos realmente orgulhosos da nossa pequena conquista. Depois de deixarmos suprimentos começamos a descer para o C2, C1 e Campo Base, onde passamos a noite.
Novamente ao Campo Base
No campo Base o tempo estava bom, mas sabíamos que iria mudar devido às previsões meteorológicas. Entre os dias 19 e 22 de setembro, nevou 70 centímetros nos campos altos. Soubemos que haveria uma janela de bom tempo, de 25 a 28 de setembro, ou seja, era nossa oportunidade de alcançar o cume.
No dia 22 de setembro comecei a fazer planos com Temba Sherpa e Vanessa Estol. Nesta ocasião, o alpinista espanhol, Sergi Mingote, juntou-se a nós para planejarmos o ataque ao cume. Mingote é um grande profissional e neste ano buscará quebrar um novo recorde mundial, escalar as três maiores montanhas do mundo em menos de um ano, sem oxigênio e eu estarei ao lado dele, mas isso é assunto para uma próxima conversa. Voltando à escalada ao Manaslu, Vanessa e seu o guia, recordista mundial que conquistou 22 ascensões ao cume do Everest, decidiram esperar o tempo melhorar. Eles chegaram ao cume no dia 27 de setembro.
Momentos decisivos
Definimos o seguinte roteiro: 23 de setembro C1; 24 de setembro C3, 25 de setembro C4; 26 de setembro Cume e descida ao Campo Base. Dependendo das nossas condições físicas, também consideramos alcançar o cume diretamente do C3. Eu estava extremamente emocionado e sentia a energia da montanha, era a minha primeira vez tentando escalar uma montanha de 8000 metros e por sorte estava na companhia de profissionais renomados.
Seguindo o planejamento saímos do acampamento base no dia 23 de setembro, às 16 horas e chegamos ao C1 antes das 19h, fizemos o trajeto em menos de 3h, não foi fácil manter o ritmo de Mingote mas consegui. Estávamos muito bem aclimatados. Eu e Sergi Mingote não queríamos dormir, era noite de lua cheia, passamos muito tempo contemplando a beleza, eu estava feliz por estar lá, feliz por estar vivo.
No dia seguinte, com destino ao C2, o tempo estava nublado e fazia frio. Percorremos um caminho difícil com muita neve fresca e profunda, dificultando a ascensão, em algumas partes a neve batia no joelho, o tempo estava fechado e não havia muita visibilidade, sendo as pegadas do guia na neve a única coisa possível de enxergar.

Subida ao C2.

Sabíamos que os Sherpas do Fix Hope Team já tinha fixado a corda até o C4, mas depois de muitos dias nevando a corda havia desaparecido na imensidão branca. E o que era desafio se tornou uma ótima oportunidade para participar da abertura da via e também evitar as filas de alpinistas que aguardavam o momento certo para subir. Foi uma experiência incrível.
Nesta altura, já fazia 9h que havíamos deixado o C1 e eu me sentia muito bem fisicamente e extremamente motivado. Conversamos sobre as possibilidades e a opção aceita foi de ataque ao cume diretamente do C3, evitando assim de levar suprimentos para o C4. Abraçamo-nos, trocamos palavras de motivação e organizamos os últimos detalhes, meu relógio marcava 18h. Como já tinha previsto, levei comigo uma garrafa de oxigênio, caso houvesse uma emergência. Foi apenas um pequeno descanso de 3 horas e neste mesmo dia, às 22h, partimos rumo ao C4.
Rumo ao cume
Depois de sairmos de C3, enfrentamos os primeiros desafios que colocaram em prova nossa auto superação, o vento estava em torno de 45 a 50 km/h. Em meio a muita neve fresca, pouca visibilidade e ventania caminhamos por mais de três horas até encontrarmos a primeira corda fixa, neste momento estávamos começando adentrar ainda mais no Glaciar do Manaslu. De lá, usamos as cordas fixas até o C4, em condições muito difíceis devido ao forte vento que levantava a neve que batia no rosto já quase congelado. Depois de muito esforço, às 4h30 alcançamos o C4, 7.450 metros de altitude. Às 7h ainda estávamos a 7.600 metros, ou seja, passamos mais de 2h30 para subir 150 metros.

Rota após o C4.

A dificuldade de progressão com o vento ainda mais forte perto do C4, acabou por nos afastamos um pouco do caminho, o que nos fez enfrentar uma parede de gelo com uma inclinação de aproximadamente 50°, onde passamos muito tempo tentando encontrar o lugar certo para fixar a corda e subir. Foi um momento crítico: enfrentamos essa parede de gelo à 7.600 metros. Também foi nessa etapa que encontramos os três sherpas da equipe do Fix Rope Team.
Nesta etapa, comecei a sentir muito frio nos meus pés. Eu habitualmente transpiro muito e mesmo no frio, não foi diferente. Mas depois de 2h30 todo o suor começou a congelar. Estava sentindo meus dedos dos pés praticamente congelados e eu sentia grandes bolhas. Em certo momento devido ao frio não senti mais os dedos dos pés. Apesar da dor insuportável, não havia outra opção, era preciso continuar caminhando. Então, tomei a decisão de usar oxigênio. Quando eu comecei a usá-lo, Temba disse que a garrafa estava com apenas 190 bares. Normalmente, a garrafa cheia tem aproximadamente 300 barras de oxigênio, o que significa que faltavam 110 bares. Eu sabia que precisava utilizar de forma consciente. Assim, logo depois de 20 minutos meu corpo foi se recompondo e meus pés se aqueceram. Com neve sempre acima dos joelhos, os últimos 300 metros exigiram um grande desafio psicológico, foi em média duas horas de esforço para subir cerca de 100 metros. Ao se aproximar do cume parei de usar oxigênio para o caso de precisar mais tarde. Restaram penas 10 bares da capacidade.
A chegada ao cume e a descida
Quando eu percebi que não faltava muito para o cume, apenas neste momento tomei consciência que estava acima de 8.000 metros. Quando chegamos no Cume, às 16h, no dia 25 de setembro, fui invadido por um sentimento imenso de gratidão e realização. Estávamos sozinhos, um time de seis pessoas extasiadas contemplando todo aquele horizonte, uma paisagem incrível e selvagem que misturava medo, deslumbramento e respeito. Não havia vento, o céu estava azul e todo o cansaço havia ficado para trás. Eu estava realizando o meu maior sonho e não há palavras para descrever aquele momento. Abrimos o caminho, com muita determinação e olhos fixos no cume, percorremos o trajeto em 18 horas. Permanecemos praticamente uma hora naquela imensidão.

Crista antes do cume.

Cume do Manaslu

Apesar da satisfação que nos invadia, sabíamos que ainda havia a descida e às 17 horas, começamos a retornar. O sol desceu rapidamente, os sherpas já haviam partido e eu e Sergi ainda estávamos a cerca de 7.700m de altura, andando no escuro. Eu estava fazendo um grande esforço para não parar de caminhar, mas meu corpo estava muito cansado e eu sentia uma enorme vontade de dormir, mas sabia que precisava continuar. Foi uma intensa luta comigo mesmo e ficava repetindo consecutivamente “você é forte, você é forte, você precisa andar…” Eu sabia que se eu parasse e sentasse, poderia nunca mais levantar e o sonho se transformaria em tragédia. Então, resolvi utilizar novamente o oxigênio logo acima do C4 e finalmente avistamos o C3.
Havíamos iniciado o ataque final ao cume do C3 no dia 24, às 22h e chegamos ao cume no dia seguinte e retornamos ao mesmo ponto, no dia 25, às 22h. Isso significava que caminhamos intensamente por 24 horas. Foi o momento mais difícil e desafiador que eu já vivenciei na minha vida. Lembro-me da frase que alguém proferiu lá em cima e que me marcou profundamente “Subir foi uma opção, mas descer é uma necessidade”. No dia seguinte deixamos o C3 para o Campo Base e o merecido descanso. Permaneci ainda por mais três noites no Campo Base esperando o retorno de Vanessa e seu Sherpa. Foram momentos mágicos e de muita troca de conhecimento.
E mais uma bela imagem da imensidão do horizonte permanece viva na minha memória e desta incrível experiência ficaram muitos aprendizados, que resumo em três palavras:
Auto superação: a busca para vencer nossos próprios limites;
Foco: concentrar toda nossa energia, corpo e mente no aqui e agora.
Amor: é preciso amar o que se faz na vida.
Namastê
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Sobre o autor

Moeses Fiamoncini

Moeses Fiamoncini é montanhista de Rio Negro SC. Há 11 anos ele vive de um país a outro, tendo morado em Portugal, França, Canadá e Nepal. Em 2018 realizou a ascensão do Manaslu, oitava montanha mais alta do mundo.

6 Comentários

  1. Avatar

    Parabéns meu irmãozinho…conheci e participei um pouco dessa história “Portugal” lembro me de quando fazia seus planos e fico muito feliz por ver que está conseguindo realizar os sonhos que idealizou e se esforçou tanto para conseguir!!!

    Forte abraço.

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