Mistérios da Serra da Capivara – Parte 1

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Nas Cuestas arenito – conglomeráticas da Gurguéia, curiosas figuras pintadas com óxido de ferro e caulinita chamaram a atenção dos primeiros forasteiros da região que reconheceram nas pinturas o semblante de um animal que não faz parte da fauna local e que por isso era motivo de mistério para quem se perguntava por que aquela figura estava lá?


A figura misteriosa era uma capivara, animal que vive em beira de lagos e locais úmidos, uma paisagem muito diferente do sertão seco piauiense. Tal ineditismo emprestou o nome ao local: Serra da Capivara.

A Serra da Capivara fica no sudoeste do estado do Piauí, próximo ao estado da Bahia, e hoje compreende os municípios de São Raimundo Nonato, Coronel José Dias e Canto do Buriti. Esta Serra, que na verdade é uma Cuesta, sempre chamou a atenção dos forasteiros por ser uma paisagem de exceção em meio ao semi-árido Nordestino.

O Domínio Geomorfoclimático das Caatingas é segundo Aziz Ab´Sáber um ambiente seco, com médias anuais de pluviosidade de apenas 200 mm de chuvas mal distribuídas ao longo do ano, temperaturas elevados, com médias de 25º a 29º graus numa área que cobre 720 mil quilômetros quadrados, 10% do território brasileiro.

As causas da escassez de precipitação no nordeste brasileiro não são inteiramente explicadas. O geógrafo Jurandir Ross atribui a seca do nordeste à uma grande célula de alta pressão sobre a região que dificulta a penetração da massa de ar equatorial continental, da tropical marítima e da frente polar atlântica que seriam mecanismos geradores de instabilidades, porém acabam dissipados pela divergência anticiclônica estacionada sobre a região. O oceano também pode influenciar na determinação do clima, uma vez que as águas do Atlântico Equatorial são mais frias que as do sul do Equador por que são alimentadas pela corrente de Benguela. O giro anticiclônica da massa oceânica do atlântico sul transporta essas águas para latitudes mais baixas, provocando redução de chuvas nas áreas que influenciam.

O ambiente natural deste grande espaço ao longo de milhares de anos forçou da vegetação uma evolução à exposição severa do calor, seca, e alta luminosidade, além dos solos é claro. A caatinga se caracteriza por conter espécies espinhentas, adaptadas para perder pouca água pela evapo-transpiração, há a presença de centenas de espécies de plantas carnosas como cactáceas e bromeliáceas, que retém o máximo de água possível para resistir longas estiagens, muitas espécies arbóreas são caducifólias, as folhas caem na seca para não perder muita água.  A maioria das árvores não desenvolve um grande porte.

Os rios são na maioria intermitentes, tendo curso d´águas somente na época das chuvas.

Em linhas gerais, a fitogeografia da Serra da Capivara se enquadra dentro do bioma caatinga. No entanto, o relevo local influencia na umidade e o quadro fitogeográfico da Serra da Capivara é bastante complexo devido a influência da geomorfologia.

A geomorfologia e a fitogeografia da Serra da Capivara.

A Serra da Capivara encontra-se no contato litológico entre o escudo cristalino pré-cambriano da depressão do médio São Francisco e a bacia sedimentar Piauí – Maranhão.

A porção litológica sedimentar da região é a que possui as cotas altimétricas mais elevadas, resultante de ações tectônicas no Mesozóico e que veio a formar um relevo cuestiforme, com um front voltado à depressão cristalina e um reverso suavemente inclinado. As ações intempéricas do clima moldaram o relevo esculpindo canyons no planalto (reverso da Cuesta) e morros testemunhos..

A porção cristalina do Parque Nacional Serra da Capivara, situada em frente ao planalto, é a parte de menor altitude da região. As águas que escoam da Cuesta formam riachos, intermitentes na maior parte do ano, que deságuam no rio Piauí, a drenagem mais importante da região e que corta a cidade de São Raimundo Nonato. Esta unidade de relevo é chamada de depressão do médio São Francisco, uma pediplanície onde se elevam Inselbergs de Gnaisse e serrotes de calcário com grutas.

As Cuestas agem como uma barreira orográfica. Em seu sopé, a caatinga dá espaço à manchas de floresta estacional semidecidual, com um porte arbóreo elevado, assim como no interior dos canyons, onde a umidade é preservada, na região do planalto, nos locais onde o aflora o lençol freático predominam as chamadas veredas com concentração de Buritizais.

A presença de manchas da vegetação dos biomas mata – atlântica e cerrado são justificadas pela topografia preservar a umidade e as condições pedológicas que favorecem o desenvolvimento destas vegetações. No entanto, a Serra da Capivara se encontra isolada geograficamente das áreas onde se desenvolvem as áreas core destes ecossistemas.

A explicação para o aparecimento destas vegetações na Serra da Capivara se remete à uma idade anterior ao Pleistoceno, quando o quadro vegetacional da América do Sul era bem diferente da atual.

A teoria dos refúgios e o complexo quadro vegetacional da Serra da Capivara

A complexidade dos ecossistemas tropicais sul-americanos tem sido explicada pela Denominada “teoria dos refúgios”, que vem se consolidando, segundo Ab´Saber como o mais importante corpo de idéias referentes aos mecanismos e padrões de distribuição de floras e faunas da América Tropical, tanto pelo que ela envolve de significância biogeográfica e ecológica, quanto pela sua própria experiência de multidisciplinaridade, na interface das geociências e biociências.

A idéia síntese que embasa a teoria dos refúgios é, segundo Adler Viadana:

[…] a que flutuações climáticas da passagem para uma fase mais seca e fria durante o pleistoceno terminal, a biota de florestas tropicais ficou retraída às exíguas áreas de permanência da umidade, a constituir os refúgios e sofrer, portanto, diferenciação resultante deste isolamento. A expansão destas manchas florestadas tropicais, em conseqüência da retomada da umidade do tipo climático que se impôs ao final do período seco e mais frio, deixou setores de maior diversidade e endemismos como evidência dos refúgios que atuaram no Pleistoceno terminal.

A razão da existência de um clima mais seco e frio no passado está relacionada à glaciação Würm-Wisconsin. Com esta glaciação, houve uma drástica redução da temperatura média do planeta, como conseqüência, os pólos reteram muito mais água sob a forma de gelo e o nível médio dos mares recuou deixando exposta grandes faixas de terras antes ocupadas pelo mar.

A corrente fria das Malvinas ganhou mais intensidade e chegava até o atual litoral Sul baiano. Toda a faixa litorânea do Brasil Sul e Sudeste passou a ter influência desta corrente fria que de maneira semelhante como ocorre hoje nos litorais do pacifico da América do Sul, essas faixas de terra, dentre as quais a atual plataforma marinha que então aflorava, eram espaços secos que criaram condições para que as caatingas do nordeste se propagassem.

Com esta sensível mudança climática os quadros vegetacionais da América do Sul sofreram uma reconfiguração. Assim, segundo Ab´Saber (1977), as florestas úmidas do litoral atlântico ficaram refugiadas, permanecendo em escarpas mais úmidas de maneira descontinua na Serra do Mar. As temperaturas mais baixas proporcionaram uma expansão das florestas de Araucária para Áreas interiores dos Estados de Sul e Sudeste, além das vegetações de prados de altitude. Os Cerrados resistiram ao avanço das caatingas, que se propagaram pelas novas faixas de terras afloradas no litoral, avançando sobre depressões e os locais mais áridos do sul e sudeste. A Amazônia, por sua vez sofreu uma retração e boa parte de seus atuais espaços foram invadidos por Cerrados.

Com a retomada do clima mais quente, os processos se inverteram, a umidade passou a favorecer a sobrevivência da vegetação então refugiada que volta a ocupar os espaços então ocupados pelos climas mais secos. A retração e avanço dos grandes ecossistemas sul-americanos são responsáveis em grande parte pela riqueza biológica de nossos meios naturais, pois mesmo com a retomada da umidade, muito da vegetação anterior sobreviveu nos locais onde se preservaram um ambiente favorável à seu desenvolvimento.

Realizando estudos paleopalinológicos encontrados nos coprólitos (cocô fossilizado) de homens e animais da Serra da Capivara, Chaves (2002) confirma a existência de um clima mais úmido que o atual para a região:

[…] entre 845 e 7230 anos atrás, constatou-se a atenuação da última crise árida holocênica. Nesta época a paisagem da região de São Raimundo Nonato era muito diferente da que conhecemos hoje em dia. Os diagramas polínicos mostram uma forte percentagem da taxa de arbóreos, assim como de associações típicas que confirmam a existência de uma vegetação do tipo Cerrado – Cerradão.

Outras provas morfológicas provam a presença de um clima mais úmido na região. Em escavações realizadas por Gisele Felice reporta que em camadas de formação superficial inferiores foram encontrados seixos e areias grossas em trincheiras localizadas na baixa vertente, o que significa uma maior energia pluvial capaz de transportar materiais mais pesados, o que atesta um período de maior precipitação enquanto que nas camadas superficiais encontram-se areias grossas, médias finas e argilas, correlativa à depósitos realizados sob o clima atual. Aproxima-se que na época da predominância dos Cerrados na Serra da Capivara a média pluviométrica anual era de cerca de 1500mm de chuvas.

As chuvas e a grande presença de água no passado foi responsável pelo esculturação de sulcos nas paredes da Cuesta onde antes corriam páleo cachoeiras, assim como marmitas (sulcos provocados pela queda d´água) na base dos paredões.

A abundância de recursos e a vegetação serviram de aporte ao desenvolvimento de comunidades humanas pré-históricas que habitaram densamente a região e que reabriram os debates sobre a origem do povoamento humano nas Américas.

Continua…

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Sobre o autor

Pedro Hauck - Equipe AM

Pedro Hauck é montanhista e escalador desde 1998. Natural de Itatiba -SP, reside atualmente em Curitiba-PR. Pedro gosta de escaladas clássicas e também de montanhismo de altitude, já tendo escalado algumas das mais altas dos Andes. É geógrafo, mestre em Geografia Física e atualmente faz doutorado em Geologia ambiental. Visite o Blog de Pedro em www.pedrohauck.net. Siga ele no Instagram @pehauck

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