Não crie expectativas, mas nunca desista dos seus sonhos – Nevado Illimani – Parte 3

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No dia seguinte ao da chegada do Chachacomani (01/06), acordamos e, após um café da manhã com direito a várias salteñas, saímos da casa da mãe do Pedro em El Alto rumo a La Paz. Tomamos o teleférico com mochila e tudo e viemos direto até o centro, onde o Pedro foi até a sua agência e eu fui para o hotel. Lá, após algum descanso, encontrei o grande amigo Maurício Anchovas, que havia chegado alguns dias antes e fazia o seu processo de aclimatação. Algum tempo depois chegou o Pieter, que estava no Condoriri.

Descanso na crista antes da descida ao platô que fica a 6200 metros;

 

É sempre muito bom encontrar os amigos, principalmente quando eles vão escalar com você. O Anchovas contou como andava o processo de aclimatação dele, que era curto mas ia muito bem e o Pieter nos contou que chegou ao cume do Pequeño Alpamayo também acampando no pico Tarija, como eu e o Anchovas havíamos feito em 2018, porém ao chegar na base da parede da Cabeza del Condor as condições estavam ruins e eles decidiram abortar o ataque final à parede. Na minha opinião é sempre um exemplo de muita sabedoria e sensatez quando se constata que não é hora de continuar, pois por mais que tenham sido consumidas horas e horas de treino e preparação para se estar ali nada é mais importante que voltar vivo e em segurança para a civilização. De qualquer jeito, estávamos todos muito felizes por tudo que havíamos aprendido até ali. Só o fato de termos ido até as montanhas já era suficiente para justificar a nossa felicidade.

Após uma breve celebração com direito a cervejas, comida e muitas risadas em La Paz, voltamos para o hotel e descansamos para no dia seguinte, um domingo, voltar a arrumar as malas e fazer o último briefing para então partir na segunda-feira (03/06) rumo à realização de um grande sonho que nós três tínhamos, que era conhecer o Nevado Illimani. Acordamos mais tarde, iniciamos a arrumação das malas e fomos tomar o nosso desjejum num café bem conhecido pelos turistas na calle Sagarnaga. Voltamos ao hotel, continuamos arrumando as malas e depois partimos para encontrar o Pedro para almoçar e fazer a reunião de briefing.

Nessa reunião decidimos que, pelo fato de o Anchovas ter tido pouco tempo de aclimatação e visando economizar energias, iriamos até o Campo Base do Illimani de carro para a partir dali subir a montanha. Nesse almoço o hamburguer que comi me causou um grande mal-estar, e comecei a passar mal desde então. Era inacreditável que, pela segunda vez na mesma viagem, eu me sentia mal pouco antes de partir para a montanha. Procurei beber muita água e, claro, tomei todos os sais de frutas possíveis para que aquela indisposição passasse logo. Naquele dia fomos jantar numa pizzaria e eu quase não consegui comer, tive que empurrar dois pedaços de pizza para conseguir me alimentar. E bebia água, água e mais água.

Na segunda-feira acordei me sentindo melhor, porém ainda fraco e ligeiramente indisposto. Encontrei o resto da equipe e consegui tomar o café da manhã normalmente. Era um bom sinal, porém eu sentia que ainda precisava descansar mais. Partimos de La Paz aproximadamente 10:00 e eu já estava agradecendo por ir de carro até o Campo Base, pois não sei como seria ter que caminhar por algumas horas no calor com a minha mochila pesada com a fraqueza que eu sentia. Após algumas horas e um caminho emocionante, eu diria, chegamos às 15 horas no Campo Base do Illimani, a aproximadamente 4400 metros de altitude. Eu havia dormido um pouco no caminho e, como de praxe, me hidratado muito, então sentia que melhorava cada vez mais. Chegamos ao Campo Base e almoçamos, então aproveitamos para andar ao redor, apreciar a vista maravilhosa que tínhamos do altiplano e tirar muitas fotos.

Vista do Campo Base com o Illimani ao fundo

Apesar de estar melhorando cada vez mais eu não queria ficar parado, precisava me movimentar e apreciar toda aquela paisagem maravilhosa aos pés daquele colosso de rocha, neve e gelo. Após um pôr do sol sensacional, nos recolhemos à barraca-refeitório para jantar e logo depois eu já me sentia praticamente 100%, o que me deixou muito contente, pois significava que eu poderia desfrutar sem preocupações extras aquela montanha fascinante. Fomos dormir cedo para podermos descansar bem para o dia seguinte, em que faríamos a caminhada até o Nido de Condores, ou Campo Alto, do Nevado Illimani, que ficava a aproximadamente 5400 de altitude.

Galera reunida na barraca refeitório;

Apreciando um belíssimo pôr-do-sol no Campo Base;

Após uma noite muito fria onde esqueci da minha garrafa “banheiro” e tive que levantar no meio da noite que nevava um pouco para “esvaziar o tanque”, acordamos aproximadamente 7 horas da manhã e iniciamos lentamente a nossa preparação. Tomamos o café da manhã e arrumamos as nossas mochilas, e mais ou menos uma hora depois da saída do Andrés, nosso porteador, iniciamos a nossa caminhada rumo a Nido de Condores às 10 horas da manhã. Foi bom ter saído essa hora porque deu tempo de o sol chegar até o Campo Base, aquecendo aquela manhã gelada.

Rapidamente a temperatura subiu e após uns 40 minutos de caminhada paramos para tirar os fleeces, que àquela altura já incomodavam pelo calor. Fomos seguindo a trilha, que em sua primeira parte era de terra e conforme subíamos ia ficando mais pedregosa, até continuar sobre pedras empilhadas. Subíamos em um ritmo tranquilo, porém apareceu um alerta: o Anchovas começou a sentir dor de cabeça. Paramos para descansar, beber água e comer alguma coisa e seguimos caminhando até que o Anchovas parou e pediu um ibuprofeno para combater aquela dor chata que ele estava sentindo. Após essa parada seguimos para o chamado Campo Italiano, um pouco abaixo de Nido de Condores, onde paramos novamente para comer algo e nos hidratar para encarar a última subida até Nido de Condores, o Campo Alto do Illimani.

Subida a Nido de Condores;

Parada para um lanche rápido na subida a Nido de Condores;

Chegamos a Nido aproximadamente 15 horas e lá almoçamos a comida que o Andrés, um dos caras mais fortes que eu já vi, nos havia preparado. Estávamos todos com fome e é sempre bom poder comer bem quando se está faminto. Depois disso, andamos um pouco pelos arredores do acampamento e iniciamos a arrumação das nossas mochilas e equipamentos, pois deveríamos levantar às 23 horas para sair para o cume no máximo a 1 hora da manhã, no dia seguinte. Uma ótima notícia foi constatar que a dor de cabeça do Anchovas havia melhorado e ele se sentia muito bem, se hidratando constantemente. Infelizmente nesse dia não pudemos acompanhar o pôr-do-sol de Nido de Condores, que pelo que muitas pessoas dizem é um dos mais bonitos que existe, pois estávamos completamente focados no que ainda teríamos que fazer e para isso precisaríamos descansar bem.

Na noite do ataque acordamos atrasados, à meia-noite. Fazia muito frio nessa noite e, por mais que já tivéssemos ido dormir com a roupa do cume, foi difícil ter que terminar de me vestir e colocar bota, cadeirinha e equipamentos. Às vezes sinto um pouco de mau humor nessas horas, então prefiro ficar quieto e falar apenas o necessário até sair para o ataque. Nos arrumamos, tomamos o nosso já conhecido café da madrugada onde aproveitei para comer o quanto pudesse pois sabia que o gasto de energia seria alto nesse dia. Após o café calcei meus crampons e às 2 horas, com uma hora de atraso, iniciamos o ataque ao cume do Nevado Illimani.

Autorretrato na saída para o ataque ao cume do Illimani;

O início da trilha já começava por uma rampa de neve bem inclinada à direita do glaciar onde logo alcançaríamos um trecho misto com rochas e gelo. Logo no início do ataque tivemos uma péssima notícia: as dores de cabeça do Anchovas voltaram com força total e ele resolveu abortar o ataque uns 40 minutos depois de termos saído do Campo Alto, voltando para o acampamento junto com o Pancho. Na hora fiquei triste, pois sabia o esforço que ele havia feito para estar lá conosco, mas ao mesmo tempo me senti conformado pelo fato de ele ter conseguido desfrutar a montanha e também ter conhecimento que, com uma aclimatação curta, a subida ao Illimani se transformava em uma loteria.

Anchovas observando as luzes de La Paz no exato momento da sua desistência do ataque;

Então prosseguimos a subida até alcançar um platô largo onde logo após tínhamos algumas subidas mais leves e então chegaríamos à base do trecho conhecido como “Escalera al Cielo”, a aproximadamente 5850 de altitude, que nada mais é do que uma pirambeira de uns 55 a 65 graus progressivos de inclinação que se assemelhava a uma escada, pois tinha pequenas plataformas no gelo demarcados por expedições anteriores que pareciam degraus, e parecia infinita. Não acabava nunca. Pela hora que havíamos saído, tivemos que apertar o passo e me lembro que fiz uma pergunta para o Pedro enquanto subíamos esse trecho e citei o cume. Ele virou para mim e disse: “- Estamos muito longe do cume”. Nessa hora fiquei quieto e procurei aceitar o fato de que muito provavelmente não conseguiríamos chegar ao ponto mais alto. Então fiquei pensando, enquanto subia, que teria que fazer todo o caminho desde La Paz e tentar subir novamente no próximo ano, mas que eu não ia desistir até que o Pedro falasse que não tínhamos tempo. Eu iria subir até onde conseguisse, não importa onde fosse!

Pieter e José descansando no último platô antes do cume;

Chegamos ao platô que fica a 6200 metros de altitude aproximadamente 6 horas da manhã. Não sabíamos se o Pieter estava subindo pois já fazia algum tempo que não víamos mais as luzes dele e do seu parceiro José enquanto subíamos a Escalera al Cielo. Foi aí que tive duas ótimas notícias: conseguimos vê-los já bem próximos ao platô e o Pedro disse que conseguimos ganhar tempo suficiente para subir ao cume. Para quem já não criava mais expectativa alguma, foi um tremendo incentivo para subir até o fim, além do fato de o sol estar saindo e, com certeza, a hora em que o sol sai em um ataque ao cume é uma hora que inexplicavelmente as suas baterias físicas e mentais são recarregadas pela simples presença de luz. Também foi uma grande lição, para mim a mais marcante: a de que, por mais que não criemos expectativas, nunca devemos desistir dos nossos objetivos!

O autor chegando à crista final antes do cume.

O autor já na crista, próximo ao cume;

Esperamos eles chegarem fazendo um rápido lanche de barras de cereais, carboidratos e água e, quando chegaram, partimos pela última rampa, onde havia uma ponte de gelo que cobria uma greta grande que passava logo no começo dessa rampa e a partir daí seguíamos em uns 45 a 50 graus de inclinação até a crista que leva ao cume. Chegamos a essa crista umas 7:30 da manhã e então fomos açoitados por um vento extremamente gelado, de uns 70 km/h, que castigava o outro lado da montanha. Creio que a temperatura devia estar em cerca de 20 graus negativos, pois assim que cheguei na crista senti o vento bater no meu rosto e imediatamente a minha boca e o meu nariz começaram a congelar, então tive que cobri-los com a minha bandana. Enquanto caminhava pela crista pensei em tudo o que tinha acontecido comigo não só nessa como em outras expedições desde que me interessei por alta montanha e era difícil segurar as lágrimas que vinham aos olhos. Foi um caminho de muito esforço e sofrimento, e que estava sendo verdadeiramente recompensado, independente de eu conseguir chegar ao cume ou não. Aprendi que estar na montanha é a coisa mais importante, e subir ou não é apenas consequência. Temos que aproveitar o momento sempre, pois é na jornada que aprendemos o valor real de um objetivo. O cume são apenas alguns minutos, seria injusto dizer que nada valeu a pena só porque não cheguei ao ponto mais alto.

Finalmente, às 7:55 da manhã, cheguei aos 6438 metros de altitude do tão almejado ponto mais alto da segunda montanha mais alta da Bolívia. Foi uma sensação indescritível ver que, apesar de ter saído tarde e sem ter expectativa alguma, inclusive esperando a hora de dar meia-volta, eu havia conseguido superar metade do caminho (obviamente, ainda faltava a descida). O Pieter nesse momento já se encontrava com o José na crista final. Tentei esperar um pouco pelos dois mas o vento estava literalmente nos expulsando do cume, então tirei algumas fotos, inclusive com a minha camisa do Corinthians, que é uma velha companheira que sempre visto nos dias de cume. Pude apreciar por alguns minutos a vista fantástica do cume do Illimani, com a visão que ia desde o imponente Sajama até o lago Titicaca, passando por uma série de montanhas de 6000 metros de altitude ou menos, incluindo uma bela vista de toda La Paz (enquanto subíamos era possível ver as luzes de La Paz na madrugada).

Aqui é Corinthians, no cume do Illimani!

Iniciamos a volta pelo caminho por onde tínhamos vindo, encontramos com os nossos dois amigos que estavam a poucos metros de chegar ao cume e já os felicitamos antecipadamente, pois dali é impossível não chegar ao cume. Descemos direto para o platô, já protegidos do vento, onde fizemos uma boa pausa para tomarmos um belo lanche e esperarmos pelos nossos amigos que a essa hora também já estavam descendo do cume. Na descida, novamente a claridade do reflexo do sol na neve me deu dor de cabeça e aí percebi que o problema era na minha viseira de neve, cuja lente era um pouco mais clara, provavelmente categoria 3. Para quem tem olhos claros, é muito desconfortável. E além disso, a bota que eu havia alugado havia ficado justa com as duas meias e, na descida, a ponta dos meus dedões era pressionada para a frente, de maneira que a circulação de sangue era ligeiramente interrompida e, juntando isso ao fato de a minha hidratação não ser a ideal naquele dia, isso começou a tirar a sensibilidade dos dois dedões dos pés dando lugar a um princípio de congelamento. Mais duas lições aprendidas: uma viseira mais escura e uma bota um pouquinho mais folgada podem te tirar de  complicações que podem se tornar grandes.

Encontrando o Pieter e o José na descida crista final;

 

Chegamos aproximadamente 11 horas a Nido de Condores onde o Anchovas nos recepcionou e comemoramos o fato de poder estar na montanha, além de bebermos bastante chá. Apesar de os meus dedões estarem formigando bastante e com a sensibilidade afetada, estava tudo bem. Eu já sabia que não havia sido grave pois passei por isso quando escalei a Rota dos Franceses do Huayna Potosi, porém levaria uns dois meses fazendo os famosos escalda-pés até que a sensibilidade voltasse por completo. Então decidimos descer até o Campo Base naquele mesmo dia. Eu, Pieter, José e Pedro almoçamos e descansamos um pouco enquanto o Anchovas foi descendo na frente com o Pancho. Então arrumamos as nossas mochilas e levantamos acampamento para a descida, que foi bem tranquila. Chegamos ao Campo Base às 15 horas e imediatamente “apareceram” algumas cervejas para que pudéssemos comemorar.

Pieter e José descendo do cume rumo ao platô;

O autor na descida para o Campo Base;

 

O autor e o José na descida para o Campo Base;

A melhor coisa que podia acontecer naquela hora, rsrs! Após mais comemorações, cervejas e muitas fotos, arrumamos tudo dentro dos carros e partimos para La Paz, onde chegamos naquela noite. Quando se volta de uma expedição dessas chega a ser engraçado como você “ganha” energia para comemorar na cidade também, e foi o que fizemos. Mais cerveja e pizza foi o prêmio por aquele longo dia. É engraçado pensar que quando amanheceu aquele mesmo dia estávamos no cume do Illimani e de noite já estávamos em La Paz. No dia seguinte ainda tivemos um churrasco de confraternização na casa do nosso amigo Mauricio Rojas, e alguns dias depois finalmente voltamos ao Brasil, e atingimos o verdadeiro cume, que é a volta para casa são e salvo.

Equipe reunida para a foto no Campo Base;

 

Gostaria de deixar meus agradecimentos aos amigos bolivianos Pedro Quispe, que se tornou um grande parceiro e mais um mentor de escalada em alta montanha, José Mamani e Francisco “Pancho” Tinta, também amigos e escaladores excepcionais que dessa vez formaram cordada com o Pieter e o Anchovas, Andrés Salguero, um verdadeiro monstro, extremamente forte, que fez o trabalho de carregador e cozinheiro das expedições ao Condoriri e ao Illimani e aos meus amigos Pieter e Maurício Anchovas pela sintonia que temos não só na montana, mas na vida. Aproveito para recomendar a empresa do Pedro, Bolivian Mountaineering, que faz um ótimo trabalho com montanhistas de todos os níveis de experiência (ao contrário de muitas empresas bolivianas, eles têm uma preocupação especial com a aclimatação dos seus clientes e fazem um trabalho muito forte e positivo nesse sentido). Quero agradecer também o grande apoio do Refúgio Serra Fina, cuja bandeira tenho prazer em carregar onde quer que eu vá bem como o apoio da Thule, com as suas ótimas mochilas confortáveis e leves, que certamente fazem a diferença em uma expedição assim, quando a performance doe equipamentos se faz imprescindível. Por fim, quero agradecer ao grande amigo Bruno Ficone, que com o seu estúdio Treinamento Ficone, nos apoiou com todo o plano de treinamento para que pudéssemos atingir os nossos objetivos.

Los Graciositos saudando a montanha pela experiência vivida.

E não crie expectativas mas nunca, nunca mesmo, desista dos seus sonhos, sejam eles quais forem.

Toca pra cima que é noixxx!!!

Veja Outros relatos:

Não crie expectativas, mas nunca desista dos seus sonhos – A Asa Esquerda – Parte 1

Não crie expectativas, mas nunca desista dos seus sonhos – Nevado Chachacomani – Parte 2

 

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