O Assassino de Mim Mesmo

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Você pode não acreditar, mas eu já fui considerado o assassino de mim mesmo. Se há um lugar no Brasil em que isso é possível é na Bahia, onde as pessoas costumam ser delirantes.

Junto com meu amigo Mário Serra, estávamos fazendo uma viagem pelo interior do Brasil. Saímos de ônibus do Rio, onde morávamos, e chegamos em Diamantina, uma cidade colonial que ele e eu ansiávamos por conhecer. 
 
De noite na rodoviária, uma moça nos disse que estava acontecendo uma missa na catredal, foi assim mesmo que falou. Fomos então lá, estava lotada e um velhinho, insultado porque um cachorro havia entrado na nave, levantou-se empertigado, caminhou firme por cima do banco e abandonou a igreja. Essa viagem promete, pensei.   
 
Um jogo de futebol, muita birita e peripécias depois, chegamos a Bom Jesus da Lapa, às margens do São Francisco. Era uma imagem desoladora, a vila havia sido inundada pelo rio. Bom Jesus é uma cidade de romeiros, que noite a dentro não paravam suas cantorias, certamente turbinadas pela excelente pinga local. Foi meu primeiro contato com a cachaça do norte de Minas, antes que Salinas criasse um selo de qualidade para a região. 
 
De lá fomos para Santa Maria da Vitória, onde eu recebera um convite para visitar uma fazenda de gado. Dentro do ônibus havia uma das mais lindas negras que já vi (só numa aldeia Masai na África encontrei mulheres parecidas) – num momento, ela simplesmente se agachou e urinou no corredor. Depois, as luzes se apagaram, mas o motorista continuou dirigindo impávido, sabia a estrada de cor.
 
Chegamos na cidade e, seguindo instruções, fui visitar Seu Pombinho, que administrava a fazenda. Apresentei-me, disse ser Alberto e a seu pedido mostrei minha identidade. Daí em diante, seu comportamento mudou, retardou por cinco horas nossa ida à fazenda e parecia sempre nos vigiar. O tempo parecia parado naquela mesmice de vilarejo. 
 
Enquanto esperávamos na sua casa, foram aparecendo as moças da vila para conhecer os rapazes do Rio. Mário era um moço bonito e uma delas chegou a tocar na sua pele com reverência, como se ele não fosse real. Curtido no sal da praia, devem ter pensado, elas que jamais haviam visto o mar.
 
Devia fazer tanto calor na fazenda como no inferno. Durante o dia, vagávamos pelos campos indolentes e semiconscientes, evitando falar, fazer e pensar. É impressionante como a vida pode passar de forma líquida em completa inação, como se fosse um experimento alienante. Isto foi para mim um estranho ensinamento, ajudou-me a entender mais tarde a mensagem do budismo. 
 
Um dia fomos a muito custo embora, em seguida a uma extenuante travessia a cavalo. E realizamos nosso plano de descer de barco o São Francisco, dormindo ao relento, comendo peixe com farinha e bebendo muita cachaça. Depois de infindáveis argumentos, Mário foi aceito pelo capitão de uma balsa e pôde continuar sua viagem navegando numa rede e ouvindo casos diversos. E ali nos separamos.
 
Eu fiquei sozinho e, não sei bem como, passei por Jequié e cheguei um dia ao litoral de Ilhéus, acho que num avião pequeno. Fui admirar a igreja matriz à beira mar e subi a ladeira ao lado. Eu sentia muita calma interior, vagarosamente retornando para minha futura realidade no Rio. Falei então com uma moça que apareceu na janela. 
 
Ela sentiu simpatia e disse: Fica comigo! A janela era alta, olhei para cima e vi uma ave preta flutuando no céu. Achei que não era um bom agouro, agradeci e fui embora. Cheguei ao Rio depois de um dia e meio intermináveis dentro de um ônibus, onde um cara histérico aprontou a maior confusão na saída e depois desmaiou até a chegada.
 
Passam-se dois anos e meio e estou então visitando meu irmão no interior de São Paulo. Ele comenta ter encontrado o dono da fazenda baiana. Conversaram e ele disse que Seu Pombinho nunca acreditou que aquele moço sujo e barbado poderia ser o mesmo Alberto tão belo e inocente na foto de identidade. 
 
Concluiu com sua imaginação alucinada que eu havia assassinado e substituído o verdadeiro Alberto, passou dias amedrontado com nossa proximidade e muito aliviado quando enfim partimos para outras aventuras.
 
Foi assim que eu consegui, mesmo sem saber, ser o assassino de mim mesmo.  Acho que sou mais ou menos feliz, penso que não vou ter outra chance de me matar. Então, vocês vão ter de me aturar por muitas colunas mais.
 
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Sobre o autor

Alberto Ortenblad - Colunista

Nasci no Rio, vivo em São Paulo, mas meu lugar é em Minas. Fui casado algumas vezes e quase nunca fiquei solteiro. Meus três filhos vieram do primeiro casamento. Estudei engenharia e depois administração, e percebi que nenhuma delas seria o meu destino. Mas esta segunda carreira trouxe boa recompensa, então não a abandonei. Até que um dia, resultado do acaso e da curiosidade, encontrei na natureza a minha vocação. E, nela, de início principalmente as montanhas. Hoje, elas são acompanhadas por um grande interesse pelos ambientes naturais. Então, acho que me transformei naquela figura antiga e genérica do naturalista.

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