O circo do Everest

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A montanha mais alta do mundo atrai todo tipo de gente. Gente rica, gente com muita grana, gente que vende tudo que tem pra chegar ao topo do mundo, a maioria é turista com grana, a minoria é oitomilista, muita farofada, muita sujeira, muito recordista, causas nobres, causas ridículas, tem de tudo…se o amigo Maximo Kaush me permite roubar seu título da matéria que escreveu sobre o Aconcágua, aqui vai o “Circo do Everest”.

Ultimamente a inversão de valores está tão, mas tão acentuada, que fico irritado só de ver as notícias nos telejornais da vida. Então, me privo disso e evito ver, já que não posso me estressar para evitar uma recaída na minha doença. Mas existe o tipo de notícia que eu não posso desviar meus olhos, são as notícias do nosso modo de vida, o montanhismo. É, chato isso, mas a inversão de valores chegou no nosso amado prazer de estar nas montanhas, e não é de agora, isso já rola faz tempo.
 
Vocês se lembram desta notícia?
 
Exemplo que deixei sobre causas ridículas. Qualquer dia vai ter gente subindo o Everest por causa do preço do tomate. Que falta de criatividade e objetividade no protesto…Me digam do fundo do coração, em que escalar o Everest vai ajudar a impedir o tráfico de pessoas??!! Será que esta besta parou pra pensar que os traficantes de pessoas vão CAGAR pela morte dela na montanha, ou improvável sucesso no topo do mundo? Quanta idiotice…Sinceramente? Ela queria aparecer.
 
Ou ela queria aparecer ou ela merece entrar no guiness por ser a pessoa mais ingênua do mundo em acreditar que quem vive com grana de tráfico de gente, que ganha muita grana com isso geração após geração, há milênios, vai ver a notícia no jornal lá em Uganda, Zaire, onde seja, e vai pensar “É, o que eu faço é desumano, vou parar minhas operações e abrir uma vendinha de enlatados na esquina”.
 
Ah vai caçar uma louça pra lavar!
 
Oitomilista sério se aborrece e dá declaração bombástica, alguém se lembra?
 
Simone Moro se viu obrigado a abandonar sua escalada na montanha por causa da quantidade de gente que via na sua frente e atrás de si, um engarrafamento sem precedentes, se irritou, e soltou o verbo: “Escalar o Everest hoje é quase suicídio”.
 
Prevendo um acidente, declarou também: ”Vi gente que não sabia prender o jumar na corda fixa e que em cada nó na corda chamava o sherpa para soltar e prender novamente. Com toda essa gente à frente ou abaixo será um drama amanhã. Lamento muito, pois estava perfeitamente veloz e sem dores de cabeça, porem tendo 210 pessoas na volta, a descida é um suicídio garantido. Significa ficar parado horas e o congelamento é certo.”
 
Caso que se enquadra na turistada. Se você é rico, mesmo que não tenha escalado nenhuma montanha na vida antes, pagando e enchendo as veias de dexametasona, eles te arrastam até o cume, só depende de quão grande é sua propina pros Sherpas, os pobres coitados que tiram seu sustento da montanha, o que já vem acontecendo tradicionalmente faz pelo menos setenta anos, provavelmente mais.
 
Simone estava certo, sua previsão se confirmou, e pessoas morreram dias depois de sua declaração contundente. Os outros grupos iam pro cume e nem tentaram socorrer os que ainda agonizavam exaustos.
 
A questão das idades
 
Jordan Romero se tornou o mais jovem a escalar o Everest, com apenas 13 anos de idade, isso aconteceu em maio de 2010, hoje ele tem 16. Não seria extremo demais uma criança fazer isso e se arriscar tanto? E se um acidente acontecesse (o que precisa ser repensado…) e ele perdesse a vida tão jovem por uma decisão destas?
 
Digo relativizar porque, sinceramente, as coisas que acontecem no Everest nos últimos dez anos, no meu ponto de vista, nem podem mais ser classificadas como acidentes. São probabilidades, fatos dos quais não se fugiu ou se tentou evitar, e em alguns casos, até se buscou. Que sede de morte é esta?
 
Hoje, vendo a notícia dos sêniors lutando contra o Record de mais velho no cume, pensei: “Mas que coisa, até quando isso vai? Qualquer dia a pessoa mais velha do mundo vai querer garantir o Record no topo do Everest porque, ah vai, ninguém vai ter capacidade de bater o cara não é mesmo?”.
 
Meus colegas, isso é montanhismo? NÃO. Isso é balela, busca por fama, por audiência. De minha cadeira, um cara que vai no Parque Nacional do Itatiaia, faz uma fogueira porque se perdeu e queima 1/3 do parque e um cara que busca um título tão idiota deste são iguais: Farofas.
 
Ao que parece, a inversão de valores com a qual o Brasil sofre não é exclusividade. No mundo todo se sofre deste mal, e isso me faz lembrar de outro texto que escrevi faz tempo, “A Febre do Cume”. Então vou reproduzir aqui um pedacinho do que escrevi chegando a minha definição pessoal do que é a Febre do Cume:
 
Creio que a definição mais aproximada seria algo como ‘um impulso incontrolável que acomete alpinistas cuja principal característica é a obsessão de chegar ao ponto mais alto de sua montanha objetivo, não importando para tanto nada mais além do fato de chegar ao topo. Não importando condições climáticas adversas, condições fisiológicas deploráveis, riscos de avalanche, capacitação técnica, possibilidade de resgate, ou até mesmo o preço mais alto, a própria vida”.
 
Infelizmente cheguei à conclusão de que a Febre do Cume não afeta somente montanhistas, mas todo mundo, playboys ricaços, pastores de igreja balela, velhos, jovens, pobres que vendem o pouco que têm, o diabo a quatro.
 
Quando escrevi um outro texto falando sobre a quantidade de mortes no Mont Blanc, atribuí toda a desgraça a três principais fatores, a acessibilidade da montanha que é mais fácil de se chegar do que o Itatiaia, a gratuidade de sua escalada pois não há permit à ser pago e no Itatiaia há taxas, e por fim o mais perigoso, o tempo extremamente incerto do Mont Blanc. Para ilustrar a minha matéria, consegui uma figura de um monstrinho de duas cabeças e dei uma goribada na imagem, o “Two Headed Beast”. Uma delas é a cabeça boazinha, que oferece acesso ilimitado a quem tem e a quem não tem experiência, e a outra é o mau tempo, que detona com todos. Ele até tem cara de mal humorado.
 
No caso do Everest, a melhor figura não seria um monstrinho de duas cabeças, mas sim três figuras: Uma roleta de metrô na entrada do acampamento base, e logo ali nas barracas um prostíbulo (se é que já não existe), e bem ao lado da vendinha de sexo rarefeito uma banqueta com a venda do Everest que, como diria Krakauer, se tornou um Best Seller.
 
Triste. Tudo hoje é motivo para se escalar o Everest. Não importa mais pisar no topo, encarar a superação, e apreciar a vista mais privilegiada do mundo, acampar, sentir o frio gostoso da montanha, papear com os amigos sobre casos e causos de montanha, o que importa nestes casos é SÓ uma foto em uma página do guiness book.
 
Este é o “início do fim do montanhismo” no Chomolungma.
(ou somente desvaneios de um canceroso frustrado dentro de um quarto de hospital, seu acampamento base, há treze dias e contando, esperando a tempestade passar)
 
Tenho dito.
 
Parofes
 
 
 

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Sobre o autor

Parofes (in memorian) - Colunista

Parofes, Paulo Roberto Felipe Schmidt (In Memorian) era nascido no Rio, mas morava em São Paulo desde 2007, Historiador por formação. Praticava montanhismo há 8 anos e sua predileção é por montanhas nacionais e montanhas de altitude pouco visitadas, remotas e de difícil acesso. A maior experiência é em montanhas de 5000 metros a 6000 metros nos andes atacameños, norte do Chile, cuja ascensão é realizada por trekking de altitude. Dentre as conquistas pessoais se destaca a primeira escalada brasileira ao vulcão Aucanquilcha de 6.176 metros e a primeira escalada brasileira em solitário do vulcão ativo San Pedro de 6.145 metros, próximo a vila de Ollague. Também se destaca a escalada do vulcão Licancabur de 5.920 metros e vulcão Sairecabur de 6000 metros. Parofes nos deixou no dia 10 de maio de 2014.

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