O Escafandro no Kilimanjaro

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Há pessoas que carecem de orientação. Eu sou uma delas, e ao longo dos anos fui criando um sistema que não me fizesse perder nas trilhas. Mas fui casado com alguém pior que eu. Um dia, subindo o Pico do Corcovado de Ubatuba, percebi que a Myriam havia se afastado.

Procurei-a sem sucesso, até que me veio a inspiração de buscá-la trilha abaixo e não acima. Acredite, eu a encontrei descendo (e não subindo) a montanha! Isto me alertou que, diferentemente do meu, seu caso era grave, sem esperança de cura.

O Mawenzi e ao Fundo o Kilimanjaro, Tanzânia

Anos depois, fizemos o Kilimanjaro pela trilha normal, e de uma maneira bacana. A subida final é feita à noite para escapar do terrível calor refletido na encosta vulcânica (nós o sentimos ao descer). Tivemos alguns problemas, mas alcançamos a crista no exato nascer do sol. Foi muito impressionante avistar à noite aquela fila de headlamps, serpenteando como vagalumes pelo escuro dorso da montanha.

A caminhada até os quase 6.000m do cume chamado Uhuru foi gloriosa, pelo lençol de neve da crista. Parecia que, na nossa lenta progressão, estávamos num espaço fora do tempo. E tivemos sorte, pois nem sempre a neve recobre generosamente os detritos da crista. A volta foi rápida e aproveitamos então para dormir no acampamento de Kibo, antes que fosse ocupado pela próxima turma.

Rumo ao Cume do Kilimanjaro, Tanzânia

Convém explicar que a trilha do Kilimanjaro – na realidade, uma antiga estrada – possui três locais de acampamento, todos bastante bem instalados. No primeiro deles, que dividi com suíços, mal acordei ao descobrir que um rato mordia minha orelha. O segundo fica na borda da encosta, olhando tanto para as verdes terras baixas como para o deserto alpino de onde emerge a montanha. O último deles já fica acima de 4.000m e só é permitido pousar lá até a tarde, quando começam a chegar os candidatos à próxima ascensão.

Assim, após o repouso, estávamos incrivelmente bem condicionados na longa descida até a base da montanha. Ela é feita de uma só vez, sem parar nos dois acampamentos de baixo. Mas, num momento meu de descuido, Myriam de novo sumiu.

No Cume do Kilimanjaro, Tanzânia-Kenia

Ao invés do Corcovado, achei que desta vez estaria subindo a montanha, talvez com o pique que a perda de altitude acarreta (isso me aconteceu uma vez no Nepal, subi impressionantemente turbinado a trilha errada). Saí correndo trilha acima, perguntando aos caminhantes, até desistir e voltar.

Desconfio que alguns deles pensaram que eu estava afetado pela altitude, que de fato pode nos deixar meio zuretas. Lembro-me de ter encontrado por diversas vezes pessoas exaustas e desorientadas. Por fim, encontrei a Myriam bem depois, já na plataforma da chegada, conversando com todos aqueles que voltavam.

Vista Aérea da Cratera de Uhuru, Kilimanjaro, Tanzânia

E quem era aquele sujeito esquisito?, eu quis saber. O russo, ela respondeu. O sujeito portava uma espécie de escafandro na crista do cume que impedia qualquer identificação. E havia os austríacos, os americanos, os suíços, os chineses, todos seus conhecidos. Descobri que eu só enxerguei a montanha, mas ela viu uma humanidade inteira à sua volta.
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Sobre o autor

Alberto Ortenblad - Colunista

Nasci no Rio, vivo em São Paulo, mas meu lugar é em Minas. Fui casado algumas vezes e quase nunca fiquei solteiro. Meus três filhos vieram do primeiro casamento. Estudei engenharia e depois administração, e percebi que nenhuma delas seria o meu destino. Mas esta segunda carreira trouxe boa recompensa, então não a abandonei. Até que um dia, resultado do acaso e da curiosidade, encontrei na natureza a minha vocação. E, nela, de início principalmente as montanhas. Hoje, elas são acompanhadas por um grande interesse pelos ambientes naturais. Então, acho que me transformei naquela figura antiga e genérica do naturalista.

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