O Escafandro no Kilimanjaro

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Há pessoas que carecem de orientação. Eu sou uma delas, e ao longo dos anos fui criando um sistema que não me fizesse perder nas trilhas. Mas fui casado com alguém pior que eu. Um dia, subindo o Pico do Corcovado de Ubatuba, percebi que a Myriam havia se afastado.

Procurei-a sem sucesso, até que me veio a inspiração de buscá-la trilha abaixo e não acima. Acredite, eu a encontrei descendo (e não subindo) a montanha! Isto me alertou que, diferentemente do meu, seu caso era grave, sem esperança de cura.
 
Anos depois, fizemos o Kilimanjaro pela trilha normal, e de uma maneira bacana. A subida final é feita à noite para escapar do terrível calor refletido na encosta vulcânica (nós o sentimos ao descer). Tivemos alguns problemas, mas alcançamos a crista no exato nascer do sol. Foi muito impressionante avistar à noite aquela fila de headlamps, serpenteando como vagalumes pelo escuro dorso da montanha.   
 
A caminhada até os quase 6.000m do cume chamado Uhuru foi gloriosa, pelo lençol de neve da crista. Parecia que, na nossa lenta progressão, estávamos num espaço fora do tempo. E tivemos sorte, pois nem sempre a neve recobre generosamente os detritos da crista. A volta foi rápida e aproveitamos então para dormir no acampamento de Kibo, antes que fosse ocupado pela próxima turma.
 
Convém explicar que a trilha do Kilimanjaro – na realidade, uma antiga estrada – possui três locais de acampamento, todos bastante bem instalados. No primeiro deles, que dividi com suíços, mal acordei ao descobrir que um rato mordia minha orelha. O segundo fica na borda da encosta, olhando tanto para as verdes terras baixas como para o deserto alpino de onde emerge a montanha. O último deles já fica acima de 4.000m e só é permitido pousar lá até a tarde, quando começam a chegar os candidatos à próxima ascensão.  
 
Assim, após o repouso, estávamos incrivelmente bem condicionados na longa descida até a base da montanha. Ela é feita de uma só vez, sem parar nos dois acampamentos de baixo. Mas, num momento meu de descuido, Myriam de novo sumiu. 
 
Ao invés do Corcovado, achei que desta vez estaria subindo a montanha, talvez com o pique que a perda de altitude acarreta (isso me aconteceu uma vez no Nepal, subi impressionantemente turbinado a trilha errada). Saí correndo trilha acima, perguntando aos caminhantes, até desistir e voltar. 
 
Desconfio que alguns deles pensaram que eu estava afetado pela altitude, que de fato pode nos deixar meio zuretas. Lembro-me de ter encontrado por diversas vezes pessoas exaustas e desorientadas. Por fim, encontrei a Myriam bem depois, já na plataforma da chegada, conversando com todos aqueles que voltavam.
 
E quem era aquele sujeito esquisito?, eu quis saber. O russo, ela respondeu. O sujeito portava uma espécie de escafandro na crista do cume que impedia qualquer identificação. E havia os austríacos, os americanos, os suíços, os chineses, todos seus conhecidos. Descobri que eu só enxerguei a montanha, mas ela viu uma humanidade inteira à sua volta.
 
 
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Sobre o autor

Alberto Ortenblad - Colunista

Nasci no Rio, vivo em São Paulo, mas meu lugar é em Minas. Fui casado algumas vezes e quase nunca fiquei solteiro. Meus três filhos vieram do primeiro casamento. Estudei engenharia e depois administração, e percebi que nenhuma delas seria o meu destino. Mas esta segunda carreira trouxe boa recompensa, então não a abandonei. Até que um dia, resultado do acaso e da curiosidade, encontrei na natureza a minha vocação. E, nela, de início principalmente as montanhas. Hoje, elas são acompanhadas por um grande interesse pelos ambientes naturais. Então, acho que me transformei naquela figura antiga e genérica do naturalista.

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