O Pantanal Norte

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Mapa das Regiões do Pantanal, MS e MT

Vou agora abordar as três regiões do chamado Pantanal Norte, nas proximidades de Cuiabá.

Distribuição das Áreas das Regiões do Pantanal

Barão de Melgaço: Esta cidade foi ponto de apoio para as antigas monções (expedições fluviais) à busca de ouro. O destemido Barão que levou este nome foi importante na defesa do território brasileiro diante dos paraguaios. Já melgaço vem de melgas, que são águas lodosas, nome dado pelos primeiros portugueses que chegaram à região. Sua posição oriental significa que esta é das primeiras regiões a inundar, embora sua altitude de talvez 140m limite em quatro meses o processo.

O acesso por Cuiabá é próximo e fácil – quero dizer, depois que você abandona o trânsito terrível da capital. A transição desde o cerrado de Cuiabá até a vegetação amazônica de Melgaço é bem interessante: ao avançar para o sul, notará que o cerrado das serras cederá gradualmente espaço para os campos limpos inundáveis.

Os Campos do Mimoso, Barão de Melgaço, MT

A presença de rios como o Cuiabá e o Piquiri torna este local propício para a pesca. Por ser uma região mais aquática, não é tão fácil avistar mamíferos, pois estes se dispersam nas várias áreas úmidas. Ao contrário, há abundância visual de aves. Existirão momentos mágicos em que você verá todas elas pousadas nos ninhais à beira rio, esperando o crepúsculo chegar.

Poconé: A cidade deve seu nome a uma nação indígena, e surgiu devido à descoberta do ouro, tendo sido praticamente abandonada após o declínio da mineração. Sua região foi duramente afetada na época dos garimpos, com o assoreamento de seus rios – que continua até hoje. Esta é a mais central das divisões do norte e a mais visitada por ecoturistas. Funciona como uma imensa planície voltada para o sul, com altitude da ordem de 135m, contornada pelas regiões serranas de Melgaço e Cáceres.

Seu solo mostra-se argiloso e sua vegetação apresenta alternância entre campos e regiões florestadas. Seus campos e savanas são banhados por grandes charcos onde navegam as vitórias régias, cujas exóticas flores se abrem por um só dia, vindo a morrer à noite.

Poconé é visitada por aves migratórias e variedades aquáticas. É impressionante a quantidade de gaivotas e biguás, além de caimãs e iguanas. Você também poderá avistar mamíferos – no meu caso, antas, tamanduás, lobinhos e até onças pintadas.

Aqui foi implantada a Transpantaneira, uma estrada reta e larga. Você só deve se arriscar nela depois de conhecer a sua condição, pois pode ter trechos alagados e pontes precárias. Seus campos iniciais cedem lugar a matas, voltando a se abrir no belo Campo do Jofre. No fim, termina abruptamente às margens do rio Cuiabá. Dona Benedita, cujo marido possui há gerações aquelas terras, diz que foi a Transpantaneira que os achou, não eles a ela.

Vitória Régia no Rio Cuiabá, MT

Descendo então de barco o Rio Cuiabá, você encontrará o PE Encontro das Águas, contendo os meandros de diversos rios que confluem para os seus 109 mil ha. É o melhor local para o avistamento das onças pintadas. Foram identificados quase 40 diferentes indivíduos, um dos quais – um esplêndido macho com um padrão de pelagem diferente – atravessou à minha frente arbustos e praias à busca de um grupo de capivaras, num passo lento e seguro, insensível à nossa presença.

O Pantanal de Poconé permite também acessar ao PN do Pantanal Mato-grossense, fundado em 1981 com 136 mil ha, entre dois braços do Rio Paraguai. Ele resultou de uma fazenda arruinada pelas enchentes. Sua vegetação é de savana e mata inundáveis e sua topografia é sempre baixa e plana. Permite a observação embarcada de animais silvestres. O Parque não se encontra aberto à visitação nem possui qualquer estrutura turística. Mas prepare-se para algo como 3½ hs de barco para chegar lá – e provavelmente ver apenas mais do mesmo.

Cáceres: A cidade de mesmo nome tem um passado colonial, que homenageia um antigo governador e que resultou da necessidade de defesa das fronteiras. É ainda hoje um porto ativo e promove o maior festival de pesca do país. Esta, mais do que o ecoturismo, é a atividade predominante na região. O Rio Paraguai é ainda pouco caudaloso, facilitando a navegação pelos lentos barcos hotel habitados pelos pescadores.

Seu solo arenoso acolhe uma vegetação onde a floresta substitui o cerrado, devido à proximidade da Amazônia. Em terra firme, você encontrará árvores de porte. A altitude não deve passar de 130m. A pesca, permitida fora do período de quatro meses da piracema, encontra grandes peixes como jaús, pacus e dourados.

Você pode visitar por barco a Estação Ecológica de Taiamã, criada em 1981 para a defesa das populações de peixes e aves migratórias. São duas ilhas com um formato estreito, com 12 mil ha entre as águas divididas do Rio Paraguai. Seu relevo é de campo inundável, com forte presença de baías e corixos – este ambiente aquático é berçário de peixes, especialmente nos camalotes flutuantes. Na seca, os animais abandonam o seu interior para buscar água às margens do rio, quando aparecem de forma inesperada.

Onça Fêmea às Margens do Rio Paraguai, Cáceres, MT

Mas, antes de retornar, não deixe de visitar duas curiosas construções na sua margem: Barranco Vermelho e Descalvado. Delas restam hoje apenas os vestígios da época em que as charqueadas das famílias Fontes e Lacerda lá abatiam centenas de animais para abastecer o mundo. O descaso as está levando à ruína, e você quem sabe sentirá o olhar aflito do passado à medida em que se afastar rio acima.

Falo agora brevemente do turismo. O Pantanal é uma região aberta, com vários locais de entrada e diversas formas de hospedagem, tornando difícil as estimativas de visitação. Suponho que todo o Pantanal receba até 120 mil turistas anualmente, com uma distribuição de 60%:40% entre o Sul e o Norte.

Preponderam os estrangeiros, numa proporção de talvez 2/3. Existem em geral dois tipos de turistas: os voltados para a natureza (principalmente estrangeiros) e os dedicados à pesca (totalmente nacionais). Estes últimos costumam alojar-se em barcos hotel e em pesqueiros. O turismo parece estar convertendo-se gradualmente do segundo para o primeiro tipo.

São duas surpresas: o baixo número de turistas – afinal, trata-se de uma região do tamanho de um país, não de um parque, e de beleza excepcional. E a pequena incidência de brasileiros – numa região de clima úmido e quente, sem uma primorosa estrutura de hospedagem com que os estrangeiros estão acostumados. Uma explicação seria a que me deu um fazendeiro, ao dizer que o brasileiro não gosta de natureza.

Revoada na Reserva Taiamã, Cáceres, MT

O turismo no norte é mais voltado para a massa e a pesca. No sul, ele é mais elitizado, concentrando-se nas muitas fazendas da região. As melhores épocas para visitação são os fins da vazante (abril-junho) e da seca (agosto-setembro), seja pelo belo visual das águas ou pelo fácil avistamento dos mamíferos.

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Sobre o autor

Alberto Ortenblad - Colunista

Nasci no Rio, vivo em São Paulo, mas meu lugar é em Minas. Fui casado algumas vezes e quase nunca fiquei solteiro. Meus três filhos vieram do primeiro casamento. Estudei engenharia e depois administração, e percebi que nenhuma delas seria o meu destino. Mas esta segunda carreira trouxe boa recompensa, então não a abandonei. Até que um dia, resultado do acaso e da curiosidade, encontrei na natureza a minha vocação. E, nela, de início principalmente as montanhas. Hoje, elas são acompanhadas por um grande interesse pelos ambientes naturais. Então, acho que me transformei naquela figura antiga e genérica do naturalista.

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